Coluna

Yanomami no sambódromo

- Athaliba, ocê considera puro oportunismo a Acadêmicos do Salgueiro carnavalizar a tribo dos índios Yanomamis, no sambódromo, ano que vem? Afinal, os citados indígenas, entre outras tribos da devastada Floresta Amazônia, surrupiada por garimpos clandestinos e inescrupulosos madeireiros estão sendo acolhidos no centro da agenda do atual governo. Isso após o calamitoso processo de surda exterminação de indígenas no governo do mito pés de barro que esteve no trono da presidência da República de 2019 a 2022. Agora, para dar visibilidade na representação dos índios até foi criado o Ministério dos Povos Indígenas, cuja ministra é índia Sônia Guajajara.

salgueiro
A Acadêmicos do Salgueiro, ao completar 70 anos, anunciou enredo para o Carnaval de 2024. 

- Marineth, o enredo do Salgueiro será Hutukara. Foi divulgado 5/3, data de aniversário de 70 anos da agremiação vermelho e branco, criada em 1953, a partir da fusão das escolas Azul e branca e a Depois eu digo. E, aliás, a propósito do tema, quero sugerir ao enredista da escola, o jornalista Igor Ricardo, e ao carnavalesco Edson Pereira que não deixem de adicionar no desfile o ato negativista do Exército difundido no livro A farsa Yanomami. A escabrosa publicação, que tem como autor o coronel Carlos Alberto Lima Menna Barreto foi impressa em 1995 pela Editora da Biblioteca do Exército e está sendo disseminada em blogs e compartilhada em redes sociais.

- Phorra, Athaliba, que livro sinistro é esse que presta absurdo desserviço à história dos povos originários do Brasil, editado a custa do dinheiro oriundo dos impostos que pagamos e que garante a existência das forças armadas?

- Marineth, o livro é recheado de teorias conspiratórias, com acusações não autenticadas e documentos controversos. Expõe falso conceito que a tribo dos Yanomamis não existia antes da fotógrafa Cláudia Andujar e organizações estrangeiras com interesse na Amazônia a inventasse para, assim, se beneficiar da demarcação da terra indígena. Naquela data da publicação do livro e da morte do coronel Carlos Alberto Menna Barreto, o Exército publicou 3.000 exemplares. E nos dias atuais circula em arquivos compartilhados de forma grátis pela internet e até foi indicado por Olavo de Carvalho, que morreu ano passado e era guru idolatrado pelo mito pés de barro. Assim como mostram textos do site dele e os programas de aula que aplicava nos alunos.

- Athaliba, tô engomada e passada a ferro a carvão com  essa engrenagem conspiratória contra os indígenas. O que ocê sabe mais sobre o assunto?

- Marineth, cidadão medianamente organizado que sou sempre acentuo o meu radar crítico às questões relacionadas aos indígenas. E devo isso ao professor Flávio, de História, que juntava alunos do pré-vestibular numa roda, no chão, para falar o que livros não contam sobre os índios. E, agora, da lembrança do ousado enredo Xingu, exposto pela escola de samba Tradição, em 1984, na ditadura do golpe civil-militar (1964/1985), na gestão do general Figueiredo. Paulo César Pinheiro e João Nogueira, dois compositores admiráveis, diz no samba o seguinte: “Pintado com tinta de guerra, o índio despertou/Raoni cercou os limites da aldeia/Bordunas e arcos e flechas e facões/De repente eram mais que canhões/Na mão de quem guerreia/Caraíba quer civilizar o índio nu/Caraíba quer tomar as terras do Xingu”.

- Athaliba, lembro-me muito bem. O tema arguia radicalmente os impactos decorrentes de construções no meio ambiente e na vida das tribos do Alto Xingu. O cacique Raoni Metuktire, hoje com 91 anos, dizia que reuniria seus guerreiros caiapós à guerra se suas terras fossem invadidas para construção de usina hidroelétrica. Quero sugerir que seus milhares de leitores n’O Folha de Minas ouçam o samba “Xingu”, bem a propósito dessa investida do Salgueiro em carnavalizar os índios yanomamis.

- Marineth, te interrompendo por instantes, sem querer cassar seu direito à fala, preciso dizer que, inteirando-me das questões sobre os índios yanomamis, nos jornais e revistas, cheguei à matéria da jornalista Mariana Alvim, da BBC News Brasil, que desnuda A farsa Yanomami. Espero que a crônica chegue até ela, manifestando meu voto de louvor pelo significativo trabalho.

- Bem, Athaliba, quis saber se ocê considera oportunismo o enredo avaliando o que disse o Igor. Ele garantiu que “é uma responsabilidade e um grande desafio escrever sobre um tema tão necessário, não só para o Carnaval, mas para o Brasil e o mundo; que os compositores terão sinopse que renda samba digno de entrar para a lista dos mais bonitos da nossa galeria”. Que não seja apenas esse jargão comum. O Salgueiro tem que mostrar pleno comprometimento com a tradição dos yanomamis e de outras tribos dos povos originários do Brasil, afetuoso cúmplice!!!

Lenin Novaes

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Crônicas do Athaliba

LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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