Coluna

Nunca é tarde pra voltar a imaginar o futuro.

Eu sou bastante grata às professoras e professores que mediaram o conhecimento para eu me tornar Historiadora. Mas, são os espaços alternativos de saber como o bar, o terreiro, a Escola de Samba e as Escolas públicas onde trabalhei que me formaram Humana. A história que venho compartilhar com você hoje, caro leitor e cara leitora, se passa em uma Escola Estadual daquele bairro periférico, que você provavelmente só conhece porque vira e mexe eles aparecem nos noticiários, em matérias relacionadas à tragédias e violências. 

O ano era 2015, e eu iniciava a minha carreira como professora do Ensino Integral em uma Escola periférica de Mariana, MG. Já no primeiro dia do ano letivo, ouço um cochicho com tom sarcástico na sala dos professores: 

“menina, tô com dó daquela ali, mal chegou e já vai encarar os piorzão” 

“Uai, ninguém mandou se meter a besta e pegar logo de cara o Ensino Integral, todo mundo sabe que esses menino do Integral são tudo encapetado, e a mãe só chucha eles na Escola o dia todo pra ter um pouco de paz”

No dia anterior a esse dia, o grande dia da minha estreia como Professora, eu havia passado cinco horas na frente do computador, pesquisando materiais paradidáticos, produzindo fontes e elaborando uma apresentação no powerpoint para dar a primeira aula sobre “Cultura e Patrimônio” e aquele cochicho foi pra mim como uma tesoura, picotando o meu planejamento em mil pedaços. 

Entrei na sala de aula, a classe era formada por cerca de vinte estudantes, quatro meninas e os demais meninos, entre 09 e 15 anos de idade, todos(as) negros(as), a metade deles estava aglomerada no fundo da sala, sentados em cima das carteiras e jogando no celular, a outra metade estava envolvida em uma briga entre uma menina e um menino, ambos de nove anos. No meio daquele fuzuê, eu consegui ouvir ela dizer: “eu sou violenta memo, num tô nem aí, pego faca, pego revólver memo, eu mando ni mim, vem cá, vamo resolvê no pau.. ihh bebezão, tá com medo? pode chamar minha mãe, ninguém vai vim, eu num tem ninguém pah vim não”. 

Embora fosse um dia frio, nenhum deles usavam tênis, vestiam chinelos de dedo ou sandálias de plástico. Eu fiquei um milésimo de segundos parada na frente da porta, olhando para cada um (a) e nesse momento comecei a imaginar. 

crianças negras brincando
Arte / Lunetas. 

E se esses meninos e meninas não tivessem aprendido em suas primeiras aulas de História que as pessoas que tem o mesmo tom de pele que a sua, chegaram no Brasil acorrentados e açoitados para serem mão de obra escravizada?

E se esses meninos e meninas não tivessem tantos problemas ao entrar no supermercado, sempre com algum segurança brutamontes ameaçando tocarem eles pra fora? 

E se esses meninos e meninas ao ligarem a televisão em Programas Policiais não vissem as pessoas da sua raça serem chamadas incisivamente de criminosas? 

E se esses meninos e meninas não encontrassem sempre as pessoas da sua raça, com traços semelhantes aos seus, em situação de rua ou sempre servindo, cozinhando e limpando? 

E se esses meninos e meninas não fossem o tempo todo lembrados que são as pessoas da sua raça o grupo populacional mais encarcerado do país? 

E se, ao invés disso, esses meninos e meninas, fossem lembrados pela Professora de História que a agricultura, a pecuária, a metalurgia, a escrita, a medicina, a matemática e a astronomia foram, em graus diferenciados, observados, primeiramente, no continente africano? E que, como afrodescendentes, são herdeiros dos pioneiros da primeira civilização da História?

E se, ao invés de roupas e sapatos maltrapilhos, esses meninos e meninos tivessem acesso a uma residência digna, com iluminação e tratamento de água e esgoto, com um quarto só para si, fazendo no mínimo quatro refeições por dia, com acesso a material escolar e uniforme de inverno e verão? 

E se, ao invés de serem taxados de “os piorzão” e abandonados no fundão da sala de aula porque “não querem nada com nada mesmo”, esses meninos e meninas fossem olhados com afeto e atenção pela Equipe Escolar que estaria 100% comprometida a sanar as suas dificuldades de aprendizagem?

E se, ao invés de se verem representados apenas como subalternos e marginais, esses meninos e meninas encontrassem personalidades negras como Dandara, Luiza Mahin, Carolina Maria de Jesus, Aqualtune, Tereza de Benguela nos nomes das ruas, avenidas, edifícios, Escolas, Museus, Viadutos, em estátuas e Monumentos? 

E se, ao voltar para casa, esses meninos fossem recebidos pela mãe com saudades... esta lhes prepararia um pote do seu cereal predileto e ouviria com empolgação todas as coisas novas que ele aprendeu na Escola?

Ao voltar desse transe imaginativo, decidi que após estancar a sangria da briga e conquistar a atenção da turma do fundão, a nossa primeira aula seria sobre a recriação do passado, para transformar o presente e projetar um novo futuro, porque o futuro só é possível quando voltamos a imaginar.

Sheila Santos

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Coluna Preta

Sheila Santos é Mulher cis, preta, LGBTQIA+, paulistana, amante de samba e dos morros montanhosos de Minas Gerais. É Socióloga, Historiadora, Mestra em História e Doutoranda em História, e por tudo isso, acredita que contar histórias é uma forma de adiar o fim do mundo. Atua como Professora e como agitadora cultural em Diamantina (MG), é idealizadora do Fanzine “A voz (des)viada do Vale do Jequitinhonha” e do livro oriundo de sua dissertação de Mestrado, intitulado:"Quem não eco, nem sabe que já deixou de existir - A experiência contracolonialista do Quilombo Carrapatos da Tabatinga".

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