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Home Colunas

Rosa Egipcíaca da Viradouro

Por Lenin Novaes
28 de outubro de 2022 - 09:15
em Colunas

O público vai saber mais da  africana Rosa no desfile ousado da Viradouro. (Divulgação) 

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– Athaliba, diferente de algumas escolas que têm temas de fácil assimilação para provocar explosão de euforia do público no sambódromo, no Carnaval de 2023, a Viradouro terá enorme desafio. A agremiação de Niterói, lá do outro lado da poça d’água (Baia de Guanabara), explorará a obra literária de Luiz Mott: Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil. A publicação conta a história de uma negra nascida no litoral do Golfo do Benim, que desembarcou de um navio negreiro no Rio de Janeiro, em 1725, e vendida por traficantes, quando tinha seis anos de idade. A trajetória de vida dela vai da prostituição à aclamação de santa, sendo considerada a primeira escritora negra, autora do livro Sagrada teologia do amor divino das almas peregrinas.

– Marineth, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Viradouro imperou por muitos anos no Carnaval de Niterói, quando a cidade era capital do antigo Estado do Rio de Janeiro. Foi campeã por 18 vezes, tendo como rival a agremiação Cubango. Mudando de passarela de desfile para a Marques de Sapucai, endereço do sambódromo, sagrou-se campeã do Grupo Especial em 2020. Tem sede e quadra de ensaios na Avenida do Contorno, no bairro do Barreto. Seu símbolo, uma coroa, tem inserido aperto de mãos interracial, como união dos componentes. Teve trocada as cores iniciais de azul e rosa para vermelho e branco, em 1971. É apadrinhada pela Portela.

– Athaliba, vou cortar essa tua falação sobre a trajetória da escola para falar da ousadia do carnavalesco Tarcísio Zanon em apresentar enigmático enredo. A conturbada história de Rosa é pouco propagada, fundamentada, em parte, através de relatos à época. Mas, é fascinante. Talvez tenha sido esse sentimento, creio, que motivou o carnavalesco a levar tal tema para a passarela do samba, tirando do anonimato literário a distinta personagem. A narrativa de Rosa atiça o nosso imaginário, nos levando a mergulhar nos costumes sociais séculos atrás. E, desde já, manifesto meus votos de boa sorte para ele.

– Marineth, permita-me complementar a história da Viradouro, depois ocê continua a expor o tema que a escola apresentará no sambódromo. A agremiação surgiu em 24/6 de 1946, a partir de encontros musicais na casa de Jangada, apelido de Nelson dos Santos. O nome é originário do local onde os bondes faziam contorno, como chamava a população que utilizava aquele meio de transporte. A escola, em 1964 (ano de triste lembrança, que marca o golpe civil-militar vigente no Brasil até 1985) e em 1965 arriscou desfilar no então Estado da Guanabara. Fracassou, tendo obtido a 26º lugar e a última colocação, respectivamente. Em 1986 se fixou no Rio de Janeiro.

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– Como se deu essa decisão, Athaliba?

– Marineth, a direção da escola, contrariada com o resultado do desfile de 1985, em Niterói, decidiu consultar os componentes sobre a proposta de transferência de local de desfile. Para isso utilizou plebiscito, obtendo 98% a favor de a agremiação abandonar o palco da cidade-sede para passar a desfilar no Rio de Janeiro. Fez longo percurso até chegar ao grupo de elite. Mas, no ano de 2010 foi rebaixada. Retornou em 2015 e, outra vez, voltou a ser rebaixada ao chamado grupo de acesso. Só em 2018 se fixou no grupo principal, sendo vice-campeã em 2019 e campeã em 2020. Tenho ainda na memória o desfile em homenagem a Dercy Gonçalves, no qual a atriz, no alto do 1º carro alegórico, atravessou o sambódromo com os seios à mostra. Foi aplaudida de pé.

– Athaliba, aquele ano, ocê lembra, a Império serrano foi rebaixada. Mas, por favor, deixa-me, agora, falar mais do enredo da Viradouro. Saltou-me à lembrança o verso “vou aprender a ler prá ensinar meus camaradas”, atribuído a ela. Tá registrado na música “Yá yá massemba”, dos compositores Capinam e João Roberto Caribe Mendes, gravada por Maria Bethânia. Manuscritos revelam que Rosa, aos 14 anos, foi comprada pela mãe do literato frei José de Santa Rita Durão, na Capitania das Minas Gerais, perto de Mariana, no auge da produção aurífera. Contou que por 15 anos se “desonestou, vivendo como meretriz”.

– Marineth, o Zanon realmente tem grande desafio na contextualização do enredo.

– Pois é, Athaliba. Já beirando os 30 anos, em 1748, a Rosa passou a ter convulsões. E aí mudou os hábitos. Vendeu jóias e outros bens e distribuiu aos pobres. Frequentou as liturgias nas igrejas e se tornou beata. Participou de exorcismos com o padre Francisco Gonçalves Lopes. Já no Rio de Janeiro, ela diz ser Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz. Devido à vida mística recebeu dos franciscanos o título de “Flor do Rio de Janeiro”. Isso e tantos outros detalhes marcantes da vida atribulada dela, como torturada pela Inquisição, estarão na dita festa profana. Vou estar lá!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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