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Home Colunas

Bicentenário artificioso

Por Lenin Novaes
30 de janeiro de 2023 - 08:33
em Colunas

Após ser taxada de escola chapa-branca e Unidos da Arena, a Beija-Flor contestará o bicentenário da Independência no sambódromo / Divulgação - 

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– Athaliba, a Beija-Flor fará desfile retumbante contestando um marco histórico do Brasil, com o enredo Brava gente! O grito dos excluídos no bicentenário da Independência. Isso é o se configura na justificativa do tema sob a assinatura de Mauro Cordeiro, autor da pesquisa. Ele é co-autor do enredo, com André Rodrigues. E ambos contam com a experiência e competência de Alexandre Louzada, formando o trio de carnavalescos. Segundo André, “através do desfile, um ato cívico, nós propomos que a Independência é um processo, defendemos um novo marco para a emancipação política brasileira, destacando o protagonismo popular, enquanto denunciamos o caráter autoritário, tutelar, excludente e desigual do Estado desde sua gênese até a atualidade”.

– Marineth, será que o André quando fala em “protagonismo popular” estaria se referindo à probabilidade efetiva de vigência do sistema do Poder Popular no Brasil? A postura dele, claro, escorada no tema, não faz lembrar o estigma de a agremiação ter sido apelidada como “chapa-branca”. É que, no ano de 1975, a Beija-Flor apresentou no desfile o enredo O grande decênio, desenvolvido pelo jornalista e professor Manuel Antônio Barroso. Foi manifestação escancarada, desavergonhada, despudorada de ideário militar durante o período do falso “milagre brasileiro”.

– Que história é essa, Athaliba? A agremiação carnavalesca reverenciou a repugnante, abominável, desprezível ditadura, vigente no país até 1985, oriunda do golpe civil-militar de 1964?

– Marineth, a escola ganhou o apelido de chapa-branca com aquele enredo que lhe custou a 7ª colocação no resultado final do desfile. Em artigo para a Arte & Ensaios da UFRJ, jul/dez de 2020, o Carlos Carvalho da Silva aponta que “os enredos patrióticos desse período, conhecidos em dias atuais como ‘chapa-branca’, proporcionaram às agremiações alinhadas à ideologia militar o estigma de escola patriótica ou ainda como ‘Unidos da Arena’. A escola de samba de Nilópolis carregou esse fardo pesado, mesmo após a contratação do carnavalesco Joãozinho Trinta, com o enredo Sonhar com rei dá leão, em 1976, que deu título de campeã à escola”.

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– A situação agora é bem oposta, Athaliba. Na justificativa do tema, o André afirma que “ao invés de celebrar ritualisticamente o mito fundador da pátria – o Grito do Ipiranga, 7 de setembro -, argumentamos em favor de um novo marco, capaz de oferecer um sentido que consideramos mais próximo da verdade histórica de uma independência que foi conquistada; não a proclamada. Este marco é 2 de julho de 1823, data da vitória das tropas brasileiras na consagração instalada na Bahia. Se as pautas fundamentais para uma nação soberana, independente e justa são trabalho digno, moradia, alimentação, participação popular, igualdade de direitos e liberdade plena, a grande pergunta é: este é o Brasil em que vivemos?”.

– Marineth, certamente que não é o Brasil que vivemos. A sobrevivência na pátria amada é uma árdua, penosa aventura. O que existia minimamente organizado foi destruído pelo governo do mito pés de barro que ocupou o trono da presidência de 2018/2022. Período de verdadeira aberração na história do Brasil, que causou vergonha do nosso país em quase todo o planeta.

– Athaliba, a conclamação aos componentes da Beija-Flor sinaliza que “o novo Brasil ditará ordens a partir da folia. Alegria e manifestação! Nossa bandeira será um grande mosaico do que somos de verdade, feita a partir de retalhos do que cada um tem a oferecer daquilo que lhe representa. A cultura é o nosso poder, e, é através dela que lutamos pela transformação social, colocando o povo no pedestal que lhe é de direito. O grito será por justiça e liberdade, igualdade sem neurose e sem caô”. Abaixo o ódio e o crime como ações políticas no Brasil!

– Marineth, espero que o desfile da Beija-Flor seja bonito de se vê. Que a mensagem possa realmente desnudar as fábulas que cercam os 200 anos da Independência do Brasil. O Alexandre Louzada, niteroiense, é carnavalesco rodado. Foi campeão com Chico Buarque da Mangueira, em 1998; campeão com Soy loco por ti, América: a Vila canta a latinidade, pela Vila Isabel, em 2006; campeão por três vezes pela Beija-Flor, nos anos de 2007, 2008 e 2010. E campeão no Carnaval de São Paulo, duas vezes, pela Vai-Vai, com A música venceu e Simplesmente Elis – A fábula de uma voz na transversal do tempo. Também campeão pela Mocidade Independente de Padre Miguel, com As mil e uma noites de uma Mocidade prá lá de Marrakech.

– Athaliba, o desfile da escola é cercado de expectativa. É esperar o grito de guerra “Olha a Beija-Flor aí, gente!”, do intérprete Luiz Antônio Feliciano Marcondes, o Neguinho da Beija-Flor, e conferir se a agremiação terá competência de subir ao pódio ou, então, de ir para a vala.

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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