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Home Colunas

Mocidade: emoção no luto

Por Lenin Novaes
3 de fevereiro de 2025 - 07:58
em Colunas

Márcia desenvolvia o enredo da escola com o marido Renato, quando faleceu. Divulgação 

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– Athaliba, o grito de guerra da Mocidade, entoado a pleno pulmão pelo intérprete Zé Paulo Sierra, no início do desfile, será: Márcia Lage, presente! O grito, que ecoará no sambódromo, será repetido três vezes pelos integrantes da escola. A seguir, com marcação do surdo, eles irão cantar o refrão “É no chuê, chuê/É no chuê, chuá/Não quero nem saber/As águas vão rolar/É no chuê, chuê/É no chuê, chuá/Pois a tristeza já deixei pra lá”. É estribilho do samba-enredo Chuê, chuá, as águas vão rolar que deu bicampeonato à escola em 1991. O ato será em memória da carnavalesca Márcia Lage, que morreu 19/1, data à qual desenvolvia o enredo da escola.

– Marineth, o ritual em homenagem à carnavalesca é bem bolado. Mas, porém, ocê tem que combinar com Renato Lage e a direção da Mocidade Independente de Padre Miguel. Ele, marido dela, foi carnavalesco daquele enredo vitorioso, junto com a Lilian Rabelo, a sua esposa, na época. O casal ganhou o título do Carnaval, no ano anterior, 1990, com o tema Vira, virou, a Mocidade chegou. É preciso destacar os compositores dos títulos: Jorginho Medeiros, Toco e Tiãozinho da Mocidade. Conheci o Toco na redação do jornal Última Hora à qual visitava para bater papo com o saudoso colunista de samba Waldinar Ranulpho, o Meu Sinhô.

– Athaliba, a cenógrafa e carnavalesca Márcia Leal de Souza Lage trabalhou com o marido em vários enredos. Faleceu vítima de leucemia, aos 64 anos. Foi velada e cremada no Cemitério do Caju. Era formada pela Escola de Belas Artes, tendo Fernando Pamplona, Marie Louise Nery, Rosa Magalhães e Maria Augusta como professores. Foi auxiliar da Rosa Magalhães no histórico desfile Bum Bum, Paticumbum, Prugurundum, da Império Serrano, em 1982, com memorável samba de Aluísio Machado e Laudeni Casemiro, o Beto Sem Braço.

– Marineth, a Márcia, antes de conhecer o Renato, além da Império Serrano, foi assistente no Salgueiro e na Tradição. Trabalhou como cenógrafa na televisão. Foi a partir de 2002 que ela passou a desenvolver enredos com o marido, seu último ano, então, na Mocidade. Pois no ano de 2003 eles estiveram no Salgueiro. Nos anos de 2020, 2022 e 2023, o casal desenvolveu enredos na Portela.

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– Pois é, Athaliba! Neste 2025, a Márcia, junto com o Renato (ele voltou à escola, após 22 anos), trabalhava no enredo Voltando para o futuro, não há limites pra sonhar. Sobre o tema, ela explicou que “começa com a estrela da Mocidade, que é símbolo da agremiação, e que quer voltar a bilhar. E, ao mesmo tempo, a importância das estrelas nas nossas vidas depois do Big Bang. Ciência e tecnologia avançaram, aferindo que as grandes usinas do universo que contêm todos os elementos químicos quando morrem, explodem e formam outro universo, inclusive nós, que estamos aqui”.

– Marineth, ocê tem ideia de como o enredo será subdividido na apresentação do desfile?

– Athaliba, a direção da agremiação diz que “a Mocidade fará uma viagem intergaláctica, na qual se reconecta com seu brilho mais intenso, o de uma estrela jovem, para questionar os próximos passos em um manifesto pelo futuro da humanidade”. Sustenta que enredo com palavra “sonhar” faz torcedores da escola recordar do samba-enredo de 1992, “Sonhar não custa nada ou quase nada”, que resultou no título de vice-campeã. Enredo do Renato Lage e Lilian Rabello. Por pouco a Mocidade deixou de conquistar o terceiro título seguido. A campeã foi Estácio de Sá.

– Marineth, quais os autores do samba-enredo?

– Athaliba, nada menos que dez compositores assinam o samba-enredo da Mocidade: Alex Saraiça, Paulo César Feital, Cláudio Russo, Denilson Rozario, Carlinhos da Chácara, Rogerinho, Marcelo Casanossa, Nito de Souza, Dr. Castilho e Léo Peres. Ocê acha que é obra do Escritório de Samba-enredo? Diogo Jesus e Bruna Santos formam o casal é mestre-sala e porta-bandeira. O mestre de bateria é Dudu, cria da escola. Fabíola Andrade é a rainha de bateria.

– Marineth, de cara, sem peneirar, passar o pente fino, entre todos os compositores dos sambas-enredo das escolas do Grupo Especial, se constata que Paulo César Feital tá nos grupos da Mocidade Independente de Padre Miguel e da Unidos do Viradouro. Isso, portanto, caracteriza a obra como sendo do Escritório de Samba-enredo. Além de compositor, ele é poeta, teatrólogo e autor dos livros Nas areias da ampulheta e Se eu pudesse dizer que te amei.

– Bem, Athaliba, a Mocidade vai desfilar com garra e emoção no luto pela morte da Márcia Lage. Não tenho dúvida de que o público no sambódromo jamais esquecerá. Vou estar lá!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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