A cidade de Barbacena encerrou oficialmente, nesta segunda-feira (25), um dos capítulos mais dolorosos da história da saúde pública brasileira. Com a transferência dos últimos 14 pacientes remanescentes do antigo Hospital-Colônia para uma residência terapêutica, chega ao fim a longa trajetória de uma instituição marcada por denúncias de abandono, violência e violações de direitos humanos que transformaram o local em símbolo do chamado “Holocausto Brasileiro”.
O ato simbólico do fechamento da porta do Pavilhão Antônio Carlos, trancada com um cadeado durante cerimônia realizada no complexo hospitalar, marcou o encerramento definitivo do modelo de internação manicomial que por décadas definiu a história de Barbacena.
Os últimos moradores, hoje com média de 73 anos de idade, passaram boa parte da vida internados. Alguns chegaram ao hospital ainda crianças e viveram quase meio século isolados da sociedade. A partir de agora, passam a residir em um Serviço Residencial Terapêutico, com acompanhamento multidisciplinar e cuidado humanizado dentro das diretrizes da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena continuará funcionando apenas para atendimentos ambulatoriais e casos agudos, dentro do modelo atual da reforma psiquiátrica brasileira.
O hospital que se tornou símbolo da barbárie
Fundado em 1903, inicialmente como Sanatório de Barbacena, o espaço foi transformado em 1911 no Hospital-Colônia, tornando-se o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais. Ao longo do século XX, a instituição passou a receber milhares de pessoas vindas de diversas regiões do país.
Com capacidade inicial para cerca de 200 pacientes, o hospital chegou a abrigar mais de 5 mil pessoas simultaneamente nas décadas de 1950 e 1960. Superlotação, fome, frio, maus-tratos, eletrochoques indiscriminados e abandono passaram a fazer parte da rotina da instituição.
Grande parte dos internados sequer possuía diagnóstico psiquiátrico. Entre os enviados ao local estavam alcoólatras, homossexuais, mulheres grávidas fora do casamento, pessoas pobres, moradores de rua, epilépticos, jovens considerados “rebeldes” e indivíduos rejeitados pelas famílias ou pela sociedade da época.
Os pacientes chegavam à cidade em vagões ferroviários superlotados, cenário que ajudou a popularizar a expressão “trem de doido” em Minas Gerais.
Entre 1942 e 2020, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição, segundo dados oficiais do governo mineiro. Estimativas históricas apontam que aproximadamente 60 mil pessoas morreram no Hospital-Colônia ao longo das décadas.

Corpos vendidos e denúncias internacionais
As denúncias sobre o que acontecia dentro do Hospital-Colônia começaram a ganhar repercussão nacional ainda nos anos 1960, após reportagens fotográficas publicadas pela revista O Cruzeiro. Décadas depois, o jornalista Hiram Firmino publicou a série “Nos porões da loucura”, ampliando o debate sobre a situação da instituição.
Um dos capítulos mais chocantes da história veio à tona com a revelação de que corpos de pacientes mortos eram vendidos para faculdades de medicina do país. Pesquisas históricas apontam que ao menos 1.853 cadáveres foram comercializados para estudos anatômicos. Quando não havia interesse das universidades, muitos corpos eram dissolvidos em ácido.
Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia visitou o hospital e comparou o local a um campo de concentração nazista. A declaração repercutiu internacionalmente e ajudou a fortalecer o movimento da luta antimanicomial no Brasil.
“Holocausto Brasileiro” trouxe o caso novamente à tona
A história do Hospital-Colônia voltou ao centro do debate nacional em 2013, com o lançamento do livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. A obra reuniu depoimentos de sobreviventes, ex-funcionários e documentos históricos sobre o hospital, tornando-se referência sobre o tema.
O livro posteriormente inspirou um documentário lançado pela HBO e atualmente disponível na Netflix, além de adaptações audiovisuais que ajudaram a preservar a memória das vítimas.
Hoje, parte da estrutura do antigo hospital abriga o Museu da Loucura, criado em 1996 para preservar documentos, fotografias e objetos ligados à história da psiquiatria em Minas Gerais. O espaço recebe milhares de visitantes por ano e se tornou símbolo da memória da luta antimanicomial no país.

Reforma psiquiátrica e cuidado em liberdade
O encerramento definitivo das atividades de longa permanência no Hospital-Colônia ocorre 25 anos após a consolidação da Lei da Reforma Psiquiátrica no Brasil, marco que redefiniu o tratamento em saúde mental e priorizou o cuidado comunitário e humanizado.
Desde 2019, o governo de Minas Gerais vem promovendo o processo de desinstitucionalização dos moradores do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. Entre 2019 e 2025, 68 pacientes deixaram a instituição para viver em residências terapêuticas em cidades da região.
Atualmente, Minas Gerais possui 453 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), sendo 65 voltados ao atendimento de crianças e adolescentes.
Durante a cerimônia desta segunda-feira, o secretário estadual de Saúde, Fábio Baccheretti, classificou o momento como um marco histórico e emocional para Minas Gerais.
“É o encerramento de uma história marcada por sofrimento, mas também um compromisso para que isso jamais se repita”, afirmou.






