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Home Colunas

Almirante negro na Tuiuti

Por Lenin Novaes
17 de abril de 2023 - 08:24
em Colunas

João Cândido, o almirante negro, teve a anistia usurpada. Lula pode restabelecê-la e dar fim à vergonha da Marinha do Brasil. / Divulgação - 

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– Athaliba, a Marinha tem profunda ferida aberta na história das forças armadas. E ganhará nova dose de antídoto para, quem sabe, permitir a cicatrização. Essa é minha expectativa. Tendo como enredo Glória ao almirante negro, a escola de samba Paraíso do Tuiuti vai exibir para o mundo essa chaga contra João Cândido. Ele liderou a Revolta das Chibatas, em 22/11 de 1910, contra a escravidão na Marinha de Guerra. Por quatro dias os canhões dos navios São Paulo, Minas Gerais, Deodoro e Bahia, na Baia de Guanabara, estiveram apontados para devastar o Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Um tiro foi disparado. Pela audácia e estratégia da insurreição, o marinheiro João Cândido Felisberto foi chamado pela imprensa de Almirante Negro.

– E o que aconteceu com ele e os outros amotinados, Marineth?

– Athaliba, o presidente Hermes da Fonseca se rendeu ao ultimato dos marinheiros, que exigiram o fim do castigo à base de chibatadas e a concessão de anistia aos revoltosos. Mas, no entanto, o governo descumpriu o acordo, após o desarmamento dos navios. E, através de decreto decidiu prender os marinheiros, expulsando-os da corporação. Contrariando, inclusive, a decisão do Senado que, em 25/11, aprovara a Anistia, sancionada por Hermes da Fonseca e publicada no Diário Oficial em 26/11. Muitos marinheiros morreram e os corpos foram atirados no mar.

– Marineth, que punhalada nas costas dos marujos. Como ocorreu a Revolta das Chibatas?

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– Athaliba, esse tipo de atitude de covardia perpetrada por governantes vem atravessando as etapas da vida conjuntural do Brasil, infelizmente. Bem, a revolta dos marinheiros foi um marco de protesto contra o governo. À época a prática de castigar marinheiros a base de chibatadas, por indisciplina, já tinha sido abolida. Isso ficou definido no decreto Nº3 de 16/11 de 1889, como uma das primeiras medidas do regime republicano. A realidade era outra. A chibatada retalhava as costas dos marujos, nos convés de navios, em um contingente que era 90% de negros e mulatos.

– Marineth, então não faltou motivo justo para a revolta dos marujos, né?

– Sim, Athaliba. Na canhoneira Marajó, já em 1893, um grupo de marujos se rebelou e conseguiu a troca do comandante, que abusava do castigo por chibatadas. Esse tipo de castigo já tinha sido abolido. Porém, os oficiais da Marinha extrapolavam o regimento, sob o argumento que um decreto, nunca publicado no Diário Oficial, permitia a punição de 25 chibatadas. O movimento foi a luz que se acendeu na escuridão; ou melhor, o princípio de conscientização dos marinheiros em lutar contra as formas de arbítrio e péssimas condições de alimentação. E, na Grã-Bretanha, uma turma de marinheiros brasileiros arquitetou ações para acabar com a chibatada na Marinha.

– Como assim, Marineth? Lá, além do horizonte, eles arquitetaram a revolta?

– Athaliba, o Brasil enviara centenas de marujos à Grã-Bretanha para acompanhar o final de construção dos navios São Paulo, Minas Gerais e Bahia, a partir de 1908. E, lá, João Cândido foi influenciado pelo motim do couraçado Potemkin, navio de guerra russo, onde marinheiros exigiam melhores condições de trabalho e alimentação. Aliás, esse fato histórico de 1905 ganhou o filme O encouraçado Potemkin, de Serguei Eisenstein, considerado uma das cinco maravilhas do cinema mundial. Foi uma das revoltas que culminou com a Revolução Russa, em 1917.

– Marineth, o filme é excelente. Fascinante obra de arte, em p&b, à época do cinema mudo, que retrata a realidade, nua e crua dos marujos russos. Quem ainda não viu tem que assistir!

– Daí Athaliba, os marujos voltaram determinados a dar fim aos maus-tratos. João Cândido, admirado pela tripulação, foi indicado para representar o “Deus Netuno” na travessia sobre a linha do Equador. Tinha muita habilidade, principalmente como timoneiro, e bom trânsito entre marujos e oficiais. E ao chegar no Brasil liderou a revolta. As chibatadas no marujo Marcelino Rodrigues de Menezes, no convés do navio Minas Gerais, anteciparam a insurreição.

– Marineth, o MIS – Museu da Imagem e do Som -, quando assessor de imprensa, lançou o depoimento dele, no livro João Cândido, o Almirante Negro, através da Editora Gryphus. E, na ABI – Associação Brasileira de Imprensa -, tive anos de convivência com Candinho, o Adalberto Cândido, filho do gaúcho João Cândido Felisberto, nascido em 24/6/1880 e falecido 6/12/1969.

– Athaliba, o governo Dilma, em 2012, lançou o navio petroleiro João Cândido, com 274m e capacidade para transportar um milhão de barris de petróleo bruto. Espero que, o governo Lula, in memória de João Cândido, reafirme a anistia, reintegrando-o à Marinha. Bem, vou saracotear na Tuiuti, no sambódromo, em 2024, no enredo Glória ao almirante negro. Ocê topa vir comigo?

Tags: Glória ao almirante negroJoão Cândido FelisbertoMarinhaRevolta das Chibatas
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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