O deputado federal Mario Frias (PL-SP), um dos nomes mais ativos da ala bolsonarista na Câmara, passou a ocupar o centro de uma investigação que mistura emendas parlamentares, produção audiovisual e suspeitas de desvio de finalidade no uso de dinheiro público.
Enquanto o ministro Flávio Dino amplia o cerco sobre o chamado orçamento secreto e o uso político de emendas parlamentares, o ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro virou alvo de uma apuração preliminar no Supremo Tribunal Federal após destinar R$ 2 milhões ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O caso ganhou novos contornos após o STF não conseguir localizar o parlamentar para notificá-lo oficialmente.
Oficial de Justiça não encontrou deputado
Segundo informações do Supremo, as tentativas de notificação começaram ainda em 31 de março e se repetiram nos dias 7 e 14 de abril. Na segunda-feira (18), um oficial de Justiça voltou ao endereço indicado pela Câmara dos Deputados em Brasília, mas ouviu do porteiro do prédio que Frias não mora no local há cerca de dois anos.
Dias antes, ao ligar para o gabinete do deputado, o servidor do STF recebeu da secretária de Frias a informação de que ele estaria em uma “missão internacional”, sem previsão de retorno ao Brasil.
O episódio chamou atenção nos bastidores políticos porque Mário Frias segue exercendo normalmente o mandato parlamentar, possui gabinete na Câmara e mantém atividade pública nas redes sociais, apesar de não ter sido localizado pela Justiça.
A situação alimentou críticas de adversários políticos e reforçou a narrativa de parlamentares governistas de que setores da extrema direita tentam dificultar investigações envolvendo emendas parlamentares.
Dino amplia pressão sobre emendas
Nos últimos meses, Flávio Dino passou a concentrar decisões que atingem diretamente o modelo de distribuição de emendas utilizado pelo Congresso Nacional.
O ministro vem cobrando maior transparência, rastreabilidade e critérios objetivos na destinação de recursos públicos, especialmente após denúncias envolvendo ONGs, institutos e entidades privadas beneficiadas por parlamentares.
A atuação de Dino provocou forte reação de setores bolsonaristas, que intensificaram ataques ao ministro nas redes sociais e passaram a acusá-lo de perseguição política.
No caso de Frias, porém, a situação ganhou contornos delicados porque o próprio deputado negou inicialmente qualquer uso de recursos públicos na produção do filme sobre Bolsonaro.
Agora, a investigação do STF aponta justamente para o repasse de verba parlamentar a uma entidade ligada ao projeto cinematográfico.
Filme virou foco de crise política
O longa “Dark Horse” já vinha causando desgaste político desde que o site The Intercept Brasil revelou mensagens e áudios do senador Flávio Bolsonaro cobrando recursos do banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção.
Na ocasião, Flávio afirmou que o projeto utilizava apenas recursos privados e que era “zero de dinheiro público” envolvido.
As revelações posteriores sobre emendas destinadas a entidades ligadas à produtora passaram a contradizer parte desse discurso.
Além disso, reportagens recentes também trouxeram denúncias sobre supostas condições precárias nas gravações do filme, incluindo relatos de figurantes sobre baixos cachês e alimentação inadequada no set.
Participação recente na Câmara contrasta com versão de ausência
Apesar das dificuldades relatadas pelo STF para encontrá-lo, Mário Frias continuou aparecendo em atividades parlamentares recentes.
Registros da Câmara mostram participação do deputado em requerimentos apresentados na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CREDN), incluindo pedidos de audiência pública protocolados neste mês.
O parlamentar também segue listado oficialmente como integrante titular da comissão.
A aparente contradição entre a atividade política pública e a dificuldade de localização pelo Supremo passou a ser explorada por críticos do deputado nas redes sociais e nos bastidores do Congresso.
Defesa nega irregularidades
A investigação teve origem em representação apresentada pela deputada Tabata Amaral (PSB-SP). Posteriormente, o caso também recebeu manifestações do deputado pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ).
Frias sustenta que não houve irregularidade na destinação das emendas e cita parecer da Advocacia da Câmara que, segundo ele, não identificou inconsistências formais no processo.
Até o momento, o STF não decidiu sobre eventual abertura formal de investigação criminal.






