A produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, passou a enfrentar uma nova onda de repercussão negativa após denúncias sobre condições precárias de trabalho durante as gravações em São Paulo.
Relatos envolvendo comida estragada, alimentação insuficiente, atrasos de pagamento, cachês considerados baixos e revistas pessoais invasivas foram reunidos em um relatório produzido pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo (SATED-SP), obtido com exclusividade pelo portal g1.
O documento reúne ao menos 15 denúncias formais feitas por figurantes e técnicos que participaram das filmagens do longa em 2025.
Figurantes relatam alimentação precária
Segundo o relatório sindical, figurantes brasileiros teriam recebido tratamento inferior ao dado ao elenco estrangeiro e à equipe principal do filme.
Enquanto atores internacionais e membros centrais da produção tinham acesso a refeições em sistema self-service, figurantes recebiam apenas kits de lanche compostos por pão com frios, maçã, paçoca e suco, mesmo em jornadas superiores a oito horas de trabalho.
Uma das denúncias mais graves envolve o fornecimento de comida estragada em outubro de 2025. Parte das reclamações teria chegado ao sindicato por mensagens enviadas via WhatsApp.
O caso ganhou repercussão após reportagem publicada pelo Poder360 relatar que alguns figurantes afirmaram ter recebido cachês de apenas R$ 100 por diária, valor considerado abaixo do praticado em produções audiovisuais de grande porte no mercado nacional.
Trabalhadores denunciam assédio e revistas invasivas
Os relatos também mencionam situações de assédio moral e até agressão física dentro do set de filmagem. Segundo o documento do SATED-SP, um figurante afirmou ter registrado boletim de ocorrência e realizado exame de corpo de delito após um episódio de violência durante as gravações.
Outra denúncia recorrente envolve revistas pessoais consideradas abusivas.
De acordo com os relatos encaminhados ao sindicato, seguranças realizavam abordagens físicas em figurantes logo na entrada das locações, incluindo toques em partes íntimas e nos seios das mulheres.
Os trabalhadores também afirmaram que alguns figurantes precisavam pagar pelo próprio transporte até os locais de gravação, com descontos realizados diretamente nos cachês pagos ao fim do expediente.
Produção também é alvo de questionamentos trabalhistas
O relatório aponta ainda possíveis irregularidades na contratação de profissionais estrangeiros para atuar no longa-metragem.
Segundo o sindicato, a produção teria utilizado técnicos internacionais sem recolher taxas obrigatórias previstas na legislação trabalhista do setor audiovisual brasileiro.
A entidade afirma que não localizou registros de recolhimento junto ao próprio SATED-SP nem ao Sindicato da Indústria Cinematográfica (Sindicine).
O documento também cita ausência de contratos apresentados para emissão de vistos obrigatórios ligados às atividades artísticas e técnicas no país.
Apesar da gravidade dos relatos, o sindicato afirmou que o material não representa uma acusação formal contra a produção, mas sim um compilado de denúncias que devem ser apuradas pelas autoridades competentes, com garantia de contraditório e ampla defesa.
Filme enfrenta crise após revelações sobre financiamento
As denúncias trabalhistas surgem em meio à repercussão sobre o financiamento milionário da produção.
Nesta semana, o portal The Intercept Brasil revelou mensagens e áudios trocados entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, envolvendo pedidos de recursos para manter o filme em produção.
Segundo a reportagem, Vorcaro teria transferido cerca de R$ 61 milhões para a produção entre fevereiro e maio de 2025.
Em uma das mensagens divulgadas, Flávio Bolsonaro afirma que a equipe do filme estava “tensa” diante do atraso em parcelas prometidas para a produção.
O senador confirmou posteriormente ter buscado apoio financeiro para o projeto, mas negou qualquer irregularidade.
Após a repercussão, a GOUP Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”, negou ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro ou do Banco Master.
Em nota enviada ao g1, a empresa afirmou que o filme possui mais de uma dezena de investidores e repudiou “tentativas de associação indevida” entre a produção cinematográfica e as investigações envolvendo o banqueiro.
Orçamento chama atenção no setor audiovisual
O volume de recursos associados ao projeto também gerou debates nos bastidores da indústria cinematográfica brasileira.
Segundo comparação feita pelo g1, o valor atribuído ao financiamento de “Dark Horse” supera em mais do dobro o orçamento do longa “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, indicado ao Oscar de 2026.
De acordo com dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), “O Agente Secreto” teve orçamento de cerca de R$ 28 milhões.
Já “Dark Horse” ainda não possui data oficial de lançamento nem confirmação de distribuição internacional, embora o site Deadline tenha informado que os produtores seguem negociando acordos para estreia no exterior.
O filme é dirigido por Cyrus Nowrasteh e conta com roteiro desenvolvido em parceria com Mark Nowrasteh, a partir de argumento do deputado Mário Frias.
Postagem de ator reforça caráter político atribuído ao filme
Apesar de o senador Flávio Bolsonaro afirmar publicamente que “Dark Horse” não possui finalidade política, uma postagem divulgada pelo ator principal do longa nas redes sociais chamou atenção pelo tom diretamente ligado ao debate eleitoral.
Na publicação feita em seu perfil oficial no Instagram, o ator que interpreta Jair Bolsonaro escreveu:
“SE VOCÊ SE IMPORTA COM NOSSAS ELEIÇÕES, assista ao meu novo filme, que estreia em 11 de setembro de 2026!”

A mensagem passou a circular nas redes após a repercussão envolvendo o financiamento milionário da produção e as denúncias sobre as condições de trabalho durante as gravações.
Além do conteúdo da postagem, outro ponto que chamou atenção foi a previsão de lançamento do filme exatamente em 2026, ano das eleições presidenciais no Brasil, e a proximidade da estreia com o período eleitoral. Nos bastidores políticos, adversários de Bolsonaro avaliam que o longa pode funcionar como instrumento de mobilização política e fortalecimento da imagem do ex-presidente durante a campanha eleitoral.






