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Home Colunas

Sobre a paixão

Por Nilson Lattari
15 de maio de 2026 - 08:12
em Colunas
Sobre a paixão

Crédito: Marek Piwnicki / Unsplash

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Quando um ser se entrega apaixonadamente a uma causa, certamente pensaremos nós: É um apaixonado! E outros dirão, céleres: É um louco!

Curtir paixão por alguém ou alguma coisa, com certeza, é um estágio de loucura, não avançado, mas que avança sobre nós como uma bólide. Essa loucura ou maluquice está ligada ao fato de que saímos de um estado normal, equilibrado e partimos para o inusitado, para alguma coisa que habita nossas cabeças e nos faz perder os sentidos, os alertas, as lições aprendidas e rapidamente esquecidas, liberando a censura que age sobre nós.

É como um vento que infla uma vela que não sabíamos existir, até o momento em que nos surpreendemos a navegar por águas desconhecidas, com um brilho no olhar, um sorriso e uma felicidade inimagináveis. A partir daí, quando, por algum motivo, aquela vela fenece, procuramos outra vez sentir aquele vento que nos dopa como uma droga, nos faz irresponsáveis.

Pode haver paixão com responsabilidade? Podemos, em claro raciocínio, exercer uma paixão sem que a aura da irresponsabilidade nos habite? Existe irresponsabilidade com responsabilidade?

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Esse dueto não está determinado dentro de nós. O conceito de responsável e irresponsável talvez esteja ligado ao que o outro ou os outros acham, mais do que propriamente em nossos pensamentos. Se dependesse a paixão do ato da responsabilidade, com certeza não haveria apaixonados no mundo. Pessoas entregues a uma causa ou a um sentimento que trouxesse um sentido.

Portanto, é correto ser irresponsável em nome de alguém ou de alguma coisa? A irresponsabilidade em nome de algo em que acreditamos e que nos faça felizes é válida? A grande questão é se o ato apaixonado afeta alguém. A causa da irresponsabilidade está exatamente na afetação do outro. Se alguém se entrega à droga, naturalmente é acusado de irresponsabilidade consigo mesmo e com aqueles que o amam. E quando alguém se entrega à paixão por outro? Incondicionalmente.

Somos responsáveis por aquele que cativamos?

A paixão está ligada a uma entrega e não a um ato irresponsável. A crença de que o ato vale a pena ser vivido. Que a imaginação que inunda o apaixonado e o leva ao ato criador e realizador da paixão não seja maior do que a atitude. Se exageramos, ao nos entregarmos ao ato apaixonado, dentro dele cabe toda a magnitude da realização. Passamos a tratar o objeto da paixão, seja ele outro ser, seja ele uma atitude, um comportamento, além da situação de realidade que ele é, como a busca obstinada, e a construímos de acordo com o sentimento que habita dentro de nós.

Esse é o cerne da paixão: o imaginar que o objeto do desejo é um invólucro de atitudes corretas. Colocamos nossa paixão em algo válido, algo em que avaliamos sob a ótica do amor, do deslumbramento, uma validade que muitas vezes é subestimada pela nossa ardência de querer ou pela suposta falta de algo.

O que seria esta suposta falta de algo? A falta de em algum momento de nossas vidas ter vivido ou sentido uma paixão. Ouvir relatos de outros, recriminar aqueles que vivem uma paixão, ser crítico sem nunca ter sentido aquele sentimento.

Subtraímos de nossa consciência todos os sentimentos avaliadores da situação para que possamos viver uma paixão. É neste sentido que a paixão assume o seu lado de irresponsabilidade. É necessário que abandonemos todas as nossas defesas para que a paixão se manifeste.

Nenhum ser se entrega facilmente ao ato apaixonado. É importante que exista do outro lado desse painel imaginário, uma série de atrativos que comova, que venha de encontro aos nossos sentimentos, nossos jogos de personalidade e, portanto, ative a imaginação dentro de nós, e a entrega ao objeto de desejo seja, finalmente, a consumação de tudo aquilo que queremos.

Porque o que está escondido dentro de nós é a fantasia, o desejo de realização que a realidade tangível não é capaz de nos trazer. Por isso, os apaixonados são seres frágeis, facilmente manipuláveis. Porque desamarrados da responsabilidade estão prontos para assumir os valores de outro. Ou dar os seus valores nas mãos de outro ou de uma causa.

Para que uma sociedade se levante e assuma uma posição de mudança, é necessário que ela se apaixone, que compre a ideia. Ela precisa acreditar que naquele outro lado do portal está depositado o baú de suas aspirações. Assim como as sociedades, o ser humano também precisa enxergar isso, daí a manipulação passar principalmente pela paixão. É preciso cativar para convencer.

A paixão passa então pelo convencimento. Para que uma sociedade ou ser possa ser convencido da necessidade de romper o cordão de isolamento da responsabilidade. É preciso ensinar a ser irresponsável. É preciso mostrar caminhos alternativos possíveis em um dado momento da paixão. É preciso fazer com que aquela sociedade ou ser enxergue naquele parco instante em que a irresponsabilidade se instala que a estrada é possível.

O objeto de desejo da paixão precisa daquele momento de fraqueza, e ele, naquele momento, mostra que o possível pode acontecer, bastando que, por um instante, a irresponsabilidade se instale.

Tanto a sociedade quanto o ser humano vivem os momentos de paixão em duas fases: na adolescência, a descoberta, e, na idade adulta, a busca da redescoberta. Uma sociedade nova, a ardência ou em uma sociedade obsoleta, a ignição da crença. É um tudo ou nada que busca um sentido para viver. Ou um novo sentido para viver. A paixão é um estado de fraqueza, mas, ao mesmo tempo, de esperança. As possibilidades se tornam possíveis. É o momento em que, finalmente, a sociedade ou as pessoas vão mostrar que estão vivas. Novas ou velhas, adolescentes ou adultas.

E é por isso mesmo que o retorno, muitas vezes, se torna irreversível. Mas, como um jogo da sorte, muitas vezes as sociedades ou os seres se tornam mais felizes, às vezes não pelo ato que se realiza, mas pela capacidade que mostram de serem capazes de fazer. E quando conquistam, lutam apaixonadamente para não perdê-la.

Nenhuma sociedade se move sem paixão e nenhum ser vive sem ela. Em doses homeopáticas pode fazer sonhar. Em doses cavalares pode matar.

Tags: Colunacomportamento humanoNilson LattaripaixãoReflexãosociedade
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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