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Home Colunas

Uma questão de igualdade

Por Nilson Lattari
14 de agosto de 2026 - 07:52
em Colunas
Uma questão de igualdade

Foto: Clay Banks / Unsplash

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Uma das coisas mais perversas que podemos fazer é tentar igualar coisas que não combinam. O discurso da igualdade tem como princípio que todos somos iguais, perante a lei, mas, não somos iguais no caráter, nos sonhos, nas ambições, nos desejos e nos amores. Somos diferentes tentando viver em um mundo de igualdade.

As condições de cada um é que determinam as igualdades, ou as condições para que a igualdade aconteça.

Em um mundo onde a competição é acirrada, a pergunta que fazemos é a razão da competição em si mesma. Quando atletas se preparam para uma competição, eles são preparados da maneira possível, nas mesmas condições. E se apresentam para competir, igualar ou superar recordes. No entanto, por um privilégio corporal ou mental, alguns atletas vão superar os limites e serão os vitoriosos. Às vezes, competem por um largo tempo e mantém suas performances e os outros figuram como coadjuvantes.

No entanto, neste mundo de competição ninguém pode reclamar de nada, porque as circunstâncias preparatórias serão mais ou menos as mesmas. O tempo de dedicação é o mesmo, via de regra.

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Logo, como falar de igualdade entre coisas desiguais?

No mundo real, longe de holofotes e festejos, os desiguais estão em competição, pelo duro trabalho de ganhar a vida e sobreviver.

Nesse campo, os desiguais são muitos não por uma questão de benefício corporal ou mental, mas, simplesmente, por uma desigualdade econômica que impede qualquer um que esteja nessas condições possa competir de fato, romper limites e alcançar o sucesso. Não, existe um mundo em que muito se fala de igualdade, na busca por ela, desde que os menos desiguais sempre estejam no comando.

Ao contrário do mundo dos esportes, quando um fenômeno vive o seu ocaso para que outro assuma o seu lugar, no mundo real, quem está na frente sempre continua no mesmo lugar. Claro que temos as honrosas exceções. Porém, nesse mundo real, existe o fator sorte, que sempre favorece poucos em detrimento de muitos.

Nada é mais desigual do que a competição pela sobrevivência, gerida, regulada por privilegiados. Esses privilegiados nunca vivem o ocaso e sempre perpetuam suas espécies nas gerações futuras, na exata proporção em que os muitos desiguais se perpetuam nas suas desigualdades.

Competição é um termo tão molesto que somente aqueles que o proferem e aqueles tolos que ainda acreditam nele não deveriam existir no mundo real, no mundo onde os atletas não são preparados nas melhores condições.

Grosso modo, os coadjuvantes existem somente para sê-los e não há nenhuma esperança de que isso seja revertido.

O discurso da igualdade se torna vazio quando tenta equiparar forças que nunca poderão fazer frente. Falar em desigualdade sempre será mais forte que seu antônimo. Porque a igualdade parece um sonho a ser feito e nunca realizado, enquanto a desigualdade é fato real. E competir não é ainda a hora, somente quando todos os atletas estiverem preparados.

Tags: Colunascompetiçãodesigualdadedesigualdade socialIGUALDADENilson LattariopiniãoOPORTUNIDADESReflexãosociedade
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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