O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), tenta há mais de um mês intimar o deputado federal Mário Frias (PL-SP) para que ele esclareça suspeitas envolvendo a destinação de recursos públicos a entidades ligadas à produção do filme “Dark Horse”, obra inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A informação consta em documentos da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 854 e foi reforçada por novas revelações envolvendo o financiamento milionário da produção cinematográfica.
Segundo os autos, oficiais de Justiça estiveram ao menos três vezes no gabinete de Mário Frias, na Câmara dos Deputados, entre março e abril, mas não conseguiram localizá-lo. Assessores afirmaram que o parlamentar estava em São Paulo cumprindo agenda política e não demonstraram interesse em informar seu paradeiro.
Denúncia partiu de Tabata Amaral
A investigação teve início após representação apresentada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP).
Ela acusa Mário Frias de destinar pelo menos R$ 2 milhões em emendas parlamentares à Academia Nacional de Cultura (ANC), organização presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama.
Karina também controla o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, previsto para estrear nos cinemas em setembro, às vésperas das eleições presidenciais.
Segundo Tabata, haveria indícios da formação de um grupo econômico composto por diferentes empresas e entidades atuando sob comando único, o que poderia dificultar a rastreabilidade da aplicação de recursos públicos.
Outras emendas vieram de deputados bolsonaristas
Reportagem do The Intercept Brasil revelou que a Academia Nacional de Cultura recebeu R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares destinadas por deputados do PL ligados ao bolsonarismo.
Além de Mário Frias, aparecem entre os parlamentares citados Bia Kicis e Marcos Pollon.
Pollon confirmou ter destinado R$ 1 milhão para um projeto audiovisual chamado “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”, que seria executado pela Go Up Entertainment. Segundo ele, o projeto acabou cancelado e os recursos foram redirecionados para o Hospital de Amor de Barretos.
Bia Kicis também admitiu ter destinado R$ 150 mil ao mesmo projeto, mas afirmou que os recursos nunca foram executados.
A parlamentar acusou Tabata Amaral de tentar associar indevidamente as emendas ao filme “Dark Horse”.
Caso se mistura ao escândalo do Banco Master
A crise ganhou nova dimensão nesta semana após o The Intercept divulgar que o senador Flávio Bolsonaro pediu ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro cerca de R$ 134 milhões para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro.
Segundo a reportagem, Vorcaro teria liberado ao menos R$ 61 milhões antes de ser preso pela primeira vez no âmbito da Operação Compliance Zero.
Áudios divulgados mostram Flávio cobrando repasses para quitar parcelas atrasadas da produção.
“Está em um momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, está todo mundo tenso”, disse o senador em mensagem enviada ao banqueiro.
A Operação Compliance Zero investiga fraudes financeiras, lavagem de dinheiro e possíveis irregularidades envolvendo o Banco Master e negociações com o Banco de Brasília (BRB).
Mário Frias fala em “superprodução hollywoodiana”
Roteirista e produtor executivo do filme, Mário Frias afirmou nesta quarta-feira (13) que nem Flávio Bolsonaro nem Daniel Vorcaro possuem participação societária na obra ou na produtora Go Up Entertainment.
O deputado também negou que recursos do Banco Master tenham sido utilizados no projeto.
Na nota divulgada, Frias classificou “Dark Horse” como uma “superprodução em padrão hollywoodiano”, com atores, roteiristas e diretores internacionais.
O parlamentar tentou justificar o alto orçamento da obra, superior inclusive ao do filme “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025.
STF acompanha rastreabilidade de emendas
A movimentação do caso ocorre em meio ao endurecimento do STF sobre rastreabilidade de emendas parlamentares e transparência na destinação de recursos públicos.
Nos bastidores da Corte, ministros avaliam com preocupação possíveis estruturas paralelas envolvendo ONGs, institutos culturais e empresas privadas usadas para operacionalizar recursos oriundos do orçamento federal.
Até o momento, Mário Frias não apresentou manifestação formal diretamente ao ministro Flávio Dino.






