Coluna

Aguerridas de Alucard prontas à luta!

- Athaliba, o núcleo Mulheres Aguerridas de Alucard tá estruturado e pronto para a luta, com calendário de atividades para realizar durante 2019. Uma das dirigentes diz que o movimento vai semear o vento na cidade e fazer o povo ir às ruas para beber a tempestade. A reunião 5/1 foi transformada em convenção, contando com a participação de 426 mulheres de várias localidades de Alucard, na quadra de esportes de um colégio. Entre ações programadas está a realização de seminário, palestras trimestrais com temas pertinentes às principais questões de interesse das mulheres, eventos culturais nas áreas da música, cinema, teatro, rodas de leitura, com a presença de escritoras nacionais e exposições.

- Mas, Marineth, como foi o réveillon na casa de D. Esmeralda? Você participou?

- Uai, Athaliba, você acha que eu ia ficar de fora. Fui uma das primeiras a chegar e, creia, a última a sair, na antevéspera do Natal, dia 22/12. Ajudei a anfitriã e a neta dela, Núbia, a preparar as mesas com salgadinhos, docinhos, bebidas, sucos, pernil e frangos recheados e pudim para 80 pessoas. O quintal, nos fundos da casa, estava ornamentado com bandeirolas e bolas e Papai Noel inflável junto de uma das árvores de jabuticaba. Da caixa de som, em baixo volume, músicas de Maria Gadu, Jorge Aragão, Marisa Montes, Gal Costa e Milton Nascimento, entre outros, num baile a céu aberto e cheio de alegria.

- Teve troca de presentes?

- Nada disso, Athaliba. O caráter da festa não se realizou dentro do padrão convencional. A estratégia de Anabela foi de estreitar e fortalecer os laços entre as ativistas, considerando o curto espaço de tempo para a definição da estrutura do aparelho e das ações de luta. Ao observar que o quorum passava da presença de 70 mulheres, ela abriu o encontro. Subiu num pequeno banco e iniciou a falação agradecendo a hospitalidade e generosidade de D. Esmeralda no acolhimento do grupo, com banquete.

E, após breve pausa, olhando cada uma nos olhos, disse que “todas nós temos pela frente enorme desafio para mudar o status quo de Alucard: combater a violência em todos os seus aspectos; conquistar patamares em todos os eixos da estrutura funcional da cidade, ou seja, nos três poderes; firmar laços de apoio e solidariedade às entidades organizadas da sociedade civil na defesa da liberdade de expressão e dos direitos humanos; lutar tenazmente por ensino de qualidade e boa assistência à saúde; batalhar de forma intransigente na defesa dos valores culturais tradicionais da região e do país e nos irmanarmos com todas as mulheres do mundo”.

- Essa Anabela é porreta, Marineth. O movimento vai depurar os pecados de Alucard.

- Ela, Athaliba, falou por mais de meia-hora, em completa sintonia com o grupo. Ivonete, Miraflores, Angelina, Mary Help e Núbia acompanharam a linha de discurso dela. A transexual falou da necessidade e importância da unidade de ação na luta com o movimento LGBTi, entre outros segmentos da sociedade, no enfretamento da política homofóbica e de ódio do Messias Bolsonaro. E Núbia, do alto da sua estatura de pouco mais de metro e meio, costurou os discursos, relatando estatísticas local, estadual e nacional sobre as desigualdades praticadas contra as mulheres em todos os setores da sociedade brasileira. Em nome da avó, ela desejou a realização dos sonhos e projetos de todas em 2019 e disse que “nós faremos valer a força da maioria que somos em Alucard, de uma vez por todas, fortalecendo nossa autoestima”.

- Muito bem, Marineth. Mas como foi a convenção das Mulheres Aguerridas de Alucard?

- Antes de relatar os detalhes, Athaliba, devo contar o caso que rolou entre a transexual Mary Help e Ednea. Na reunião anterior, Ednea felicitou Mary Help pelo sketch realizado com artistas de grupo de teatro amador da favela Gabiroba, com a peça Tem gente com fome, baseada no poema de Solano Trindade, na praça redonda, exigindo a conclusão da obra e abertura do Restaurante Popular. Clique no link e confira: http://ofolhademinas.com.br/materia/30803/alucard-restaurante-popular-jaacuteE falou do desejo incontrolável de manter relação sexual com ela.

- O fato se consumou, Marineth? A transexual pegou a Ednea?

- Mary Help, formada em Artes Cênicas, na capital mineira, saiu de Alucard aos 13 anos de idade, após os pais descobrir a paixão dela por Cacau. Ganhou belo porte feminino, lembrando a atriz Letícia Sabatella. Retornou há dois anos e mantém vida discreta, atuando como liderança do movimento LGBTi. Ela relutou, mas cedeu aos assédios de Ednea recebidos através de mensagens pelo WhatsApp. Então, após aceitar convite para jantar, aí rolou o ato sexual. Mary Help diz que satisfez apenas uma curiosidade, porém não esconde a preocupação de Ednea querer mais, pois ela jurou de pés juntos que nunca nenhum homem havia feito amor assim tão gostoso, levando-a a ver estrelas e subir pelas paredes.

- Que beleeeeeeeeeeeeza!!! Bem, Marineth, me conta como foi a convenção.

- Athaliba, a mulherada reunida na quadra de esportes do colégio parecia uma multidão. Enchi-me de orgulho. Anabela ficou à mesa, ladeada à esquerda por Núbia e Ivonete e, à direita, por Miraflores e Angelina. Mary Help, na plateia, encaminhou proposta de eleição da direção do núcleo, numa chapa tendo como presidente Anabela; vice-presidente Kiki; secretária Núbia; tesoureira Francinete; e diretora social Bianca. A avó de Núbia, D. Esmeralda, que levou algumas aposentadas e pensionistas, sugeriu o nome da transexual para ser diretora cultural. E perguntou à plateia se tinha alguma rejeição as indicadas. A eleição se deu por aclamação.

Em seguida, Núbia fez a leitura da proposta de Estatuto Social, enxuto e contendo o mínimo exigido pela legislação (evitando ser burocrática), que é o instrumento de constituição de associação, aprovado com pequenas alterações. Ela e Anabela ficaram encarregadas de, com a ata de fundação e eleição da diretoria, fazer o registro em cartório. O Regimento Interno, habilmente, ficou para ser definido já com o aparelho funcionando. Também foi adiada sine die a proposta de bandeira, hino e lema.

Mary Help encaminhou a proposta de Manifesto das Aguerridas de Alucard em combate direto às forças conservadoras que impõem a retirada de direitos adquiridos e elevam os riscos do aumento das desigualdades sociais; contra as violações do corpo feminino, contra o machismo, a intolerância religiosa, o racismo, a lesbotransfobia; na defesa de seguridade social público e solidário e pela manutenção e ampliação dos direitos trabalhistas e unidade de todas para permanecer em resistência e luta na defesa da soberania e desenvolvimento do Brasil.

No manifesto está a convocação de uma marcha das Aguerridas de Alucard, com data e horário; e Anabela delineou sua distribuição por toda Alucard, formando grupos de quatro mulheres para cobrir todos os bairros da cidade e a área rural. Além disso, sinalizou a organização de bloco carnavalesco para desfilar no Carnaval.

Sorriso realçando a aparência afro-indígena, ela recordava os movimentos do Centro Acadêmico da Universidade Federal de Ouro Preto, onde fez mestrado. E, ainda, do Instituto de Ciências Humanas e Sociais, por aquela universidade, onde se graduou em História. Da experiência, como integrante do grupo de pesquisa Justiça, Administração e Luta Social, empregou alguns conceitos no movimento em Alucard. Faz valer a sua dissertação “Os devotos de Mercês dos Perdões: o jogo de identidade e a liberdade civil”.

- Pô, Marineth, vade mecum de luta redondinha. Agora é ir às ruas e, como diz a líder Anabela, “vamos semear o vento na cidade e beber a tempestade”. Às Mulheres Aguerridas de Alucard, nessa trilogia nos links: http://ofolhademinas.com.br/materia/30832/aguerridas-de-alucard-montam-aparelhoe http://ofolhademinas.com.br/materia/30848/reacuteveillon-das-mulheres-aguerridas-de-alucarddedicamos uma estrofe de A flor e a náusea, do nosso saudoso poeta Antônio Crispim:

“Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu”.

 

*Lenin Novaes, jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o concurso nacional Poesias de jornalistas, homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som – MIS.

Lenin Novaes

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LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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