Romeu Zema parece convencido de que pode repetir, em 2026, o fenômeno político que o levou ao governo de Minas Gerais em 2018. A aposta é clara: vestir novamente a fantasia do outsider antissistema, atacar instituições, explorar o desgaste da política tradicional e se apresentar como alternativa “moderada” entre o lulismo e o bolsonarismo radical. O problema é que, oito anos depois, o personagem já não é novidade. E Minas Gerais conhece bem o roteiro.
A ascensão de Zema em 2018 não aconteceu porque ele era um grande formulador de políticas públicas, tampouco porque apresentou um projeto robusto para o estado. Sua vitória foi resultado direto do colapso político simultâneo do PT e do PSDB em Minas Gerais.
Naquele momento, o então governador Fernando Pimentel enfrentava forte desgaste em meio à crise econômica e fiscal do estado. Do outro lado, o PSDB carregava anos de desgaste acumulado após décadas protagonizando a política mineira. Em meio à rejeição dos dois grupos, surgiu Zema, um empresário desconhecido, impulsionado por um discurso simplista de “gestão” e antipolítica.
O curioso é que sua chegada ao segundo turno foi, em parte, fruto de um erro estratégico do próprio PSDB. Setores tucanos passaram a estimular votos em Zema para tirar Pimentel da disputa final. Funcionou. O que os tucanos não previram era que, no segundo turno, grande parte do eleitorado petista preferiria votar em um desconhecido do que apoiar Antonio Anastasia.
Foi assim que Romeu Zema chegou ao poder: não por força própria esmagadora, mas pela rejeição acumulada dos adversários tradicionais e por um ambiente de revolta política que favorecia qualquer figura que parecesse “nova”.
Na época, Zema virou o “homem do carrapato”, personagem criado por sua própria campanha em metáforas repetidas exaustivamente na televisão. Sem propostas concretas que mobilizassem o eleitorado, apostou em frases de efeito e na ideia de que o estado estava tomado por “sanguessugas”.
O discurso antissistema funcionou em 2018. Agora, Zema tenta reciclar a mesma fórmula em escala nacional.
Nos últimos meses, o ex-governador mergulhou de vez na guerra ideológica. Passou a atacar o governo Luiz Inácio Lula da Silva, intensificou críticas ao Supremo Tribunal Federal e tenta ocupar um espaço político entre a extrema direita bolsonarista e setores conservadores do chamado centrão.
O problema é que o discurso “contra o sistema” começa a soar contraditório quando parte significativa da trajetória política de Zema foi sustentada justamente por decisões do STF que hoje ele tenta demonizar.
Quando assumiu Minas Gerais, em 2019, o estado estava financeiramente destruído. Salários parcelados, municípios sem repasses regulares e uma dívida gigantesca com a União. Foi o STF, ainda a partir de ações iniciadas no governo Pimentel, que suspendeu o pagamento da dívida mineira e permitiu algum fôlego ao caixa estadual.
Essa proteção judicial foi fundamental para que Zema reorganizasse minimamente a máquina pública. Sem ela, dificilmente teria conseguido construir a narrativa de gestor eficiente que vendeu durante os anos seguintes.
A ironia é que agora o ex-governador escolheu exatamente o Supremo como inimigo preferencial de sua pré-campanha presidencial.
O embate com o ministro Gilmar Mendes revelou bem essa contradição. Após publicar vídeos chamados “Os Intocáveis”, insinuando relações obscuras entre ministros e o caso Banco Master, Zema ouviu de Gilmar uma resposta dura e precisa: governou Minas graças a liminares do STF.
E governou mesmo.
Durante o período em que Minas ficou sem pagar integralmente sua dívida com a União, o débito estadual explodiu. Dados oficiais mostram que a dívida, que girava em torno de R$ 84 bilhões em 2018, se aproxima hoje da casa dos R$ 200 bilhões, impulsionada por juros e correções.
Ou seja: enquanto constrói discurso de austeridade e eficiência, Zema deixa como herança um estado ainda profundamente endividado e dependente de renegociações permanentes com Brasília.
Mesmo assim, tenta se vender nacionalmente como o “gestor que deu certo”.
A estratégia é transparente. Zema percebeu que existe espaço eleitoral na direita para alguém que tente parecer mais “civilizado” que o bolsonarismo puro, mas suficientemente agressivo para dialogar com o eleitorado antipetista radicalizado.
Por isso participa de atos bolsonaristas, grava vídeos para redes sociais em tom populista e intensifica ataques ao STF. Em um deles, apareceu comendo banana com casca para ironizar a inflação e atacar Lula, numa encenação cuidadosamente pensada para viralizar nas redes.
É menos debate político e mais algoritmo.
O problema para Zema é que o Brasil de 2026 não é o mesmo de 2018. O discurso antipolítica envelheceu. E o personagem do empresário “fora da velha política” já não convence com a mesma facilidade alguém que passou anos ocupando o principal cargo de um dos maiores estados do país.
Hoje, Romeu Zema não é mais novidade. É sistema. E talvez seja exatamente isso que torne tão difícil repetir o fenômeno que um dia o levou ao poder.






