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Home Colunas

Tuiuti: tributo à 1ª travesti

Por Lenin Novaes
17 de fevereiro de 2025 - 09:40
em Colunas

A Tuiuti terá comissão de frente formada por travestis, mantendo o projeto Transcidadania no Samba. Divulgação 

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– Athaliba, a trajetória de vida da 1ª travesti no Brasil vai sacudir o sambódromo, em desfile inusitado, com o enredo da Paraiso do Tuiuti: Quem tem medo de Xica Manicongo? Oriunda do Reino do Congo, vendida como escrava para um sapateiro, na Bahia, ela foi batizada sob o nome de Francisco Manicongo. Como se diz, “comeu o pão que o diabo amassou”, ameaçada de ser queimada viva na fogueira da Inquisição. Época do tribunal criado pela Igreja Católica que julgava hereges e era, também, instrumento que servia aos exploradores da política e da econômica.

– Marineth, se nos dias atuais as travestis são abusadas, assassinadas, imagina como era no período da Inquisição. Esse “aparelho” do cristianismo vigorou do ano de 476 a 1453, na Baixa Idade Média; e de 1453 a 1789, na Idade Moderna. Da Alemanha, França e Itália se estendeu pra Espanha e Portugal. No Brasil, o Tribunal da Santa Inquisição registrou mais de 1000 processos. Estima-se que milhões de pessoas morreram na era inquisitória no mundo, que acabou em 1891.

– Athaliba, o cortejo sambístico em tributo à Xica (é com X e não com Ch, a abreviatura de Francisco), fará saudação ao público com comissão de frente constituída por bailarinas trans. Ensaios da apresentação do grupo são realizados por Edifranc Alves, 1º solista do Theatro Municipal; e a 1ª bailarina daquele theatro, Cláudia Mota. Ela é irmã gêmea da Priscilla Mota, também bailarina e coreografa da comissão de frente da Viradouro, junto com Rodrigo Negri, cujo enredo é Malunguinho: o mensageiro de três mundos. Qual delas receberá nota 10 no desfile?

– Marineth, não sou aventureiro em arriscar palpite sobre qual das gêmeas merecerá a nota 10. Primeiro seria preciso avaliar a exibição de cada comissão de frente. Vivi a experiência de ser julgador desse quesito no desfile das escolas de samba de São Paulo, por dois anos, década de 1990. Não é fácil aferir a exibição do setor, que dá boas-vindas ao público e procura empolgar a plateia, além de apresentar a escola. Tem de 10 a 15 integrantes com fantasias excêntricas e faz, hoje, show à parte dentro do desfile. Mas qual é a formatação da comissão de frente da Tuiuti?

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– Athaliba, trata-se de fato inédito e histórico no Carnaval. O elenco terá Eloá, Lua Maria, Alynah, Aurora, Samy, Loren, Pietra, Joanne, Daniela, Yuka, Bellas, Kley, Azueello, Aurora e Candela. A Tuiuti desenvolve o projeto Transcidadania no Samba, à parte do desfile, em parceria com a ANTRA – Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Tendo mais de uma centena de inscritos, elas têm aulas de samba e participam de oficina de confecção de fantasias e adereços.

– Marineth, o Brasil figura no topo da lista dos países com maior número de assassinatos de transexuais. A Tuiuti fará protesto contra a matança no desfile?

– Athaliba, a atual edição do dossiê da ANTRA registra o assassinato de 122 pessoas trans em 2024, incluindo cinco defensores de direitos humanos. A estatística mostra pequena diferença dos anos anteriores, quando a média de assassinatos foi de 125, entre 2008 e 2024. A presidente daquela instituição, Bruna Benevides, diz que “colocamos a travestilidade no centro do enredo; e nos sentimos representadas. É forma de elevar a autoestima e promover a cidadania das trans e travestis. Espero que o público no sambódromo consolide a nossa inserção na sociedade”.

– Marineth, qual o perfil que se conhece da Xica?

– Athaliba, o carnavalesco Jack Vasconcelos afirma que “a história de Xica Manicongo é um grito de resistência, um tema urgente a ser debatido. A intolerância e o preconceito que sofreu ainda ecoam nos dias atuais, tornando a sua história ainda mais relevante”. Contou que, além da pesquisa bibliográfica, ele foi conduzido pela questão espiritual: “Tive guias que me levaram a um conhecimento mais profundo e consegui falar com algumas das entidades. É um enredo que meio que montado por vidas que viveram naquela época. Senti-me honrado com isso.”

– Marineth, a vereadora transexual Benny Briolly, PSOL, por Niterói, manifestou desejo de desfilar. Será que a Roberta Close e a Lea T (ambas fizeram cirurgia de transgenitalização) irão desfilar? E a Ariadna Arantes, Linn da Quebrada e Nany People, entre outras, vão desfilar?

– Athaliba, a Tuiuti terá constelação de travestis no desfile, tendo as deputadas federais Erika Hilton (PSOL), Duda Salabert (PDT), Bruna Benevides, Eloina dos Leopardos, Renata Carvalho, atriz; Amanda Paschoal, vereadora (PSOL-SP); Dani Balbi, deputada (PCdoB-RJ), Indianarae Siqueira; Megg Rayara, professora da UFPR; e Symmy Larrat, entre outras anônimas. Quero ver se o samba do Cláudio Russo e Gustavo Clarão, encomendado, será bom o suficiente para embalar a Tuiuti rumo ao título de campeã do Carnaval, na voz do Pixulé. Tô na torcida!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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