A campanha eleitoral para o Senado e a Câmara dos Deputados parece, em alguns momentos, uma eleição para escolher ministros do Supremo Tribunal Federal.
Propostas de impeachment de ministros do STF ganharam espaço principalmente entre candidatos ao Senado. Em Minas Gerais, um candidato à reeleição usa na propaganda eleitoral trechos de sua atuação na CPI do INSS, como o momento em que anuncia: “O senhor está preso”. Em outra peça, destaca: “Protocolei pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes”.
Ele não é exceção. O Supremo virou um dos personagens centrais da campanha de candidatos ao Senado, principalmente à direita, mas a discussão sobre a Corte também avançou sobre outros campos políticos.
E eu pergunto: quando os candidatos vão falar sobre aquilo que deputados e senadores realmente fazem em Brasília?
Quando vão discutir o próprio Congresso?
O brasileiro poderia estar ouvindo propostas para enfrentar um problema que cresceu assustadoramente nos últimos anos: as emendas parlamentares.
São bilhões de reais do Orçamento distribuídos por deputados e senadores. Dinheiro que sai dos impostos pagos pela sociedade e que, durante anos, circulou por mecanismos tão pouco transparentes que ganharam nomes como “orçamento secreto” e “emendas Pix”.
O Orçamento de 2026 prevê cerca de R$ 61 bilhões em emendas parlamentares. Uma parcela significativa desses recursos é de execução obrigatória.
O orçamento público, que deveria ser executado prioritariamente pelo Poder Executivo, como a própria nomenclatura sugere, passou a ter uma fatia cada vez maior controlada pelo Parlamento.
E onde está a discussão eleitoral sobre isso?
Parte dos confrontos recentes entre Congresso e Supremo nasceu justamente das decisões que determinaram maior transparência sobre essas emendas.
O ministro Flávio Dino vem cobrando mecanismos que permitam identificar quem indicou o dinheiro, para onde ele foi, quem recebeu e como foi aplicado. O que tem de errado nisso? Recentemente, determinou que Congresso e Executivo apresentem uma proposta para criação de um identificador único das emendas, permitindo acompanhar o recurso desde sua indicação até sua execução.
Não se trata de impedir deputado ou senador de indicar recursos. Trata-se de algo muito mais elementar: dinheiro público precisa ser rastreado e quem recebe precisa prestar contas.
Mas sobre isso ninguém fala nas campanhas.
Eu pergunto ao eleitor: você viu algum candidato ao Senado, seja à eleição ou à reeleição, apresentar uma proposta concreta para moralizar o sistema de emendas? Viu algum candidato a deputado explicar como pretende tornar transparente cada real que indicar durante o mandato?
Quanto do horário eleitoral você viu dedicado a isso?
O brasileiro precisa começar a perguntar o que realmente interfere em sua vida na hora de escolher seus representantes.
Para quem disputa o Senado, é legítimo discutir o Supremo. Afinal, cabe aos senadores processar e julgar ministros da Corte nos casos previstos pela Constituição. Mas será que essa é a única função de um senador?
E os deputados?
Qual é a proposta para o Congresso?
Qual é a proposta para o Orçamento?
Qual é a proposta para fiscalizar o dinheiro público?
Qual é a proposta para impedir que bilhões em emendas sejam transformados em instrumento de manutenção de poder político nos municípios?
Estamos chegando ao fim do processo eleitoral. No dia 4 de outubro, o brasileiro terá que escolher deputados e senadores.
E qual proposta apresentada por esses candidatos pode ajudar você a decidir seu voto?
Dizem que a polarização cansou o brasileiro. Pode até ser. Mas disputa política sempre existiu.
Até pouco tempo atrás, o principal embate nacional era travado entre PT e PSDB. Um defendia determinado projeto de país, o outro apresentava um projeto diferente. Concordássemos ou não com eles, havia uma discussão sobre caminhos para o Brasil.
E agora, qual projeto está sendo discutido?
O que está acontecendo no nosso país é grave. Com raras exceções, parece haver mais preocupação em saber quem colocará mais deputados na Câmara e mais senadores no Congresso do que em discutir aquilo que será feito depois da eleição.
Quanto maior a bancada, maior o poder político. Maior o peso sobre os fundos partidário e eleitoral. Maior a capacidade de controlar espaços e bilhões de reais do Orçamento.
Enquanto isso, o brasileiro continua trabalhando para pagar a conta.
Você que vive de salário mínimo sabe quanto custa uma boa garrafa de vinho? Quanto custa o melhor uísque? Já se sentou em um restaurante onde uma refeição pode custar dezenas de milhares de reais?
Provavelmente não.
Essa vida está muito distante da realidade de milhões de brasileiros. Mas está próxima de uma parcela daqueles que vivem no andar de cima do poder.
A cada eleição, a engrenagem se renova.
Eles confiam que a guerra política será suficiente. Que basta transformar a eleição em uma batalha entre direita e esquerda, Bolsonaro e Lula, Congresso contra Supremo, para que ninguém faça as perguntas que realmente incomodam.
Confiam também na força das emendas, capazes de irrigar municípios, fortalecer alianças e aproximar prefeitos, vereadores e lideranças locais daqueles que controlam recursos em Brasília.
Depois, apresentam ao eleitor como favor aquilo que saiu do bolso do próprio eleitor.
No dia 4 de outubro, antes de apertar o botão da urna, talvez valha fazer uma pergunta muito mais simples ao candidato a deputado ou senador:
Você passou a campanha inteira dizendo o que pretende fazer com os outros Poderes. Mas o que pretende fazer com o poder que eu estou prestes a colocar nas suas mãos?


