Rio – Só agora, com a quebra do sigilo dos 35 telefones de Daniel Vorcaro, nós jornalistas ficamos sabendo da história de como um grupo que odeia a arte e a cultura resolveu, do nada, ‘fazer cinema’.
Finalmente, agora posso contar a verdadeira história do filme “Dark Horse”:
Logo depois que o ex-presidente Jair Bolsonaro foi preso, condenado pela tentativa de golpe de Estado, no dia 8 de janeiro de 2023, o senador Flávio Bolsonaro chamou um assessor às pressas no seu gabinete.
– Liga para a imprensa. Convoca uma coletiva, quero anunciar que vamos fazer um longa metragem contando a história de Jair Bolsonaro, o melhor presidente que esse país já teve. Um blockbuster. Um filme de alto orçamento com grande sucesso de bilheteria e público.
– Uma cinebiografia? – quis saber o assessor.
– Sim. Adolf Hitler, Benito Mussolini, Josef Stalin, Idi Amin Dada e outros grandes líderes mundiais tiveram suas vidas e carreiras contadas ao longo da história do cinema. Chegou a vez do capitão.
– O senhor tá sabendo que todos eles foram ditadores sanguinários, não tá?
– Calunia!! Foram grandes homens!!
O assessor continuou:
– Senador, seus eleitores não vão entender nada. O senhor e sua família passaram anos atacando a cultura e o cinema brasileiro. Jair Bolsonaro, seu pai, extinguiu o Ministério da Cultura; vetou leis de incentivo ao cinema; tentou acabar com a Agência Nacional do Cinema (Ancine) e a Lei Rouanet; perseguiu atores; impediu a criação de salas de cinema em cidades pequenas e vetou à Lei Paulo Gustavo criada para ajudar o setor cultural após a pandemia. E agora o senhor vai fazer um filme?
– Os filmes brasileiros são feitos por comunistas, contando histórias de esquerdistas – berrou Flávio.
– Porque, então, agora o senhor resolveu fazer um filme? O senhor sabe fazer filmes?
– Liga para o Mário Frias, ele sabe – ordenou o senador.
– Senador, desculpe, mas o Frias foi um atorzinho medíocre de “Malhação”. Depois da série juvenil, o papel de maior destaque do ator foi o de Thomas Jefferson, um deputado corrupto, na novela “Senhora do Destino”. O personagem se fingia de idealista, mas se metia em esquemas de corrupção e usava a política para aparecer na mídia.
– Ele é sócio do Instituto Conhecer Brasil (ICB), da Karina da Gama, eles fazem tudo!
– Esse Instituto é aquele que pegou R$157 milhões da prefeitura de São Paulo para instalar 5 mil pontos de internet WiFi, que dá cursos de empreendedorismo e aulas de jiu-jitsu em São Paulo, com verba da Prefeitura?
– Esse mesmo!
– Senador, fazer um longa metragem custa muito caro. O senhor tem dinheiro pra isso? O senhor acabou de comprar uma mansão no Lago Sul por R$ 6 milhões à vista.
– Eu não tenho, mas meu irmão Daniel Vorcaro tem – disse ele alegremente – e muito!
– Quem? O banqueiro dono do Banco Master, metido no caso do INSS? O senhor quer fazer um filme para mostrar que seu pai não é corrupto com o dinheiro da corrupção, é isso? – disse o assessor, segurando o riso.
– Ele é um empresário privado; o dinheiro é privado e o banco é privado.
– Desculpe, senador, mas o dinheiro do Banco Master veio de verbas públicas, aposentados do INSS e fundos de pensão.
– Calúnia! Vorcarinho é um homem religioso, temente a Deus!
Um outro assessor invade a sala:
– Senador, chegou o seu convite para o bacanal do Daniel Vorcaro, na Boate Madame Satã, com 120 mulheres…


