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Home Colunas

Zema tenta vender ao Brasil um personagem que Minas já conhece

Por Geraldo Ribeiro
16 de maio de 2026 - 15:00
em Colunas
Zema tenta vender ao Brasil um personagem que Minas já conhece

Romeu Zema - Facebook / Reprodução

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Romeu Zema parece convencido de que pode repetir, em 2026, o fenômeno político que o levou ao governo de Minas Gerais em 2018. A aposta é clara: vestir novamente a fantasia do outsider antissistema, atacar instituições, explorar o desgaste da política tradicional e se apresentar como alternativa “moderada” entre o lulismo e o bolsonarismo radical. O problema é que, oito anos depois, o personagem já não é novidade. E Minas Gerais conhece bem o roteiro.

A ascensão de Zema em 2018 não aconteceu porque ele era um grande formulador de políticas públicas, tampouco porque apresentou um projeto robusto para o estado. Sua vitória foi resultado direto do colapso político simultâneo do PT e do PSDB em Minas Gerais.

Naquele momento, o então governador Fernando Pimentel enfrentava forte desgaste em meio à crise econômica e fiscal do estado. Do outro lado, o PSDB carregava anos de desgaste acumulado após décadas protagonizando a política mineira. Em meio à rejeição dos dois grupos, surgiu Zema, um empresário desconhecido, impulsionado por um discurso simplista de “gestão” e antipolítica.

O curioso é que sua chegada ao segundo turno foi, em parte, fruto de um erro estratégico do próprio PSDB. Setores tucanos passaram a estimular votos em Zema para tirar Pimentel da disputa final. Funcionou. O que os tucanos não previram era que, no segundo turno, grande parte do eleitorado petista preferiria votar em um desconhecido do que apoiar Antonio Anastasia.

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Foi assim que Romeu Zema chegou ao poder: não por força própria esmagadora, mas pela rejeição acumulada dos adversários tradicionais e por um ambiente de revolta política que favorecia qualquer figura que parecesse “nova”.

Na época, Zema virou o “homem do carrapato”, personagem criado por sua própria campanha em metáforas repetidas exaustivamente na televisão. Sem propostas concretas que mobilizassem o eleitorado, apostou em frases de efeito e na ideia de que o estado estava tomado por “sanguessugas”.

O discurso antissistema funcionou em 2018. Agora, Zema tenta reciclar a mesma fórmula em escala nacional.

Nos últimos meses, o ex-governador mergulhou de vez na guerra ideológica. Passou a atacar o governo Luiz Inácio Lula da Silva, intensificou críticas ao Supremo Tribunal Federal e tenta ocupar um espaço político entre a extrema direita bolsonarista e setores conservadores do chamado centrão.

O problema é que o discurso “contra o sistema” começa a soar contraditório quando parte significativa da trajetória política de Zema foi sustentada justamente por decisões do STF que hoje ele tenta demonizar.

Quando assumiu Minas Gerais, em 2019, o estado estava financeiramente destruído. Salários parcelados, municípios sem repasses regulares e uma dívida gigantesca com a União. Foi o STF, ainda a partir de ações iniciadas no governo Pimentel, que suspendeu o pagamento da dívida mineira e permitiu algum fôlego ao caixa estadual.

Essa proteção judicial foi fundamental para que Zema reorganizasse minimamente a máquina pública. Sem ela, dificilmente teria conseguido construir a narrativa de gestor eficiente que vendeu durante os anos seguintes.

A ironia é que agora o ex-governador escolheu exatamente o Supremo como inimigo preferencial de sua pré-campanha presidencial.

O embate com o ministro Gilmar Mendes revelou bem essa contradição. Após publicar vídeos chamados “Os Intocáveis”, insinuando relações obscuras entre ministros e o caso Banco Master, Zema ouviu de Gilmar uma resposta dura e precisa: governou Minas graças a liminares do STF.

E governou mesmo.

Durante o período em que Minas ficou sem pagar integralmente sua dívida com a União, o débito estadual explodiu. Dados oficiais mostram que a dívida, que girava em torno de R$ 84 bilhões em 2018, se aproxima hoje da casa dos R$ 200 bilhões, impulsionada por juros e correções.

Ou seja: enquanto constrói discurso de austeridade e eficiência, Zema deixa como herança um estado ainda profundamente endividado e dependente de renegociações permanentes com Brasília.

Mesmo assim, tenta se vender nacionalmente como o “gestor que deu certo”.

A estratégia é transparente. Zema percebeu que existe espaço eleitoral na direita para alguém que tente parecer mais “civilizado” que o bolsonarismo puro, mas suficientemente agressivo para dialogar com o eleitorado antipetista radicalizado.

Por isso participa de atos bolsonaristas, grava vídeos para redes sociais em tom populista e intensifica ataques ao STF. Em um deles, apareceu comendo banana com casca para ironizar a inflação e atacar Lula, numa encenação cuidadosamente pensada para viralizar nas redes.

É menos debate político e mais algoritmo.

O problema para Zema é que o Brasil de 2026 não é o mesmo de 2018. O discurso antipolítica envelheceu. E o personagem do empresário “fora da velha política” já não convence com a mesma facilidade alguém que passou anos ocupando o principal cargo de um dos maiores estados do país.

Hoje, Romeu Zema não é mais novidade. É sistema. E talvez seja exatamente isso que torne tão difícil repetir o fenômeno que um dia o levou ao poder.

Tags: bolsonarismoeleições 2026Gilmar MendesLulaMinas GeraispolíticaRomeu ZemaSTF
Geraldo Ribeiro

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