Romeu Zema (Novo) abriu nesta segunda-feira (24) a série de entrevistas da TV Globo com os candidatos à Presidência da República. O ex-governador de Minas Gerais enfrentou cerca de 40 minutos de perguntas de Renata Vasconcellos e César Tralli e teve boa parte de sua gestão no estado colocada sob escrutínio nacional.
A entrevista representou uma oportunidade importante para Zema tentar ampliar seu conhecimento entre os eleitores fora de Minas. O candidato aparece com apenas 3% das intenções de voto no Datafolha e havia decidido não participar, no domingo, do primeiro debate presidencial promovido pela Band.
Nos bastidores, a campanha justificou a ausência dizendo que Zema havia optado por se preparar para a entrevista da Globo.
Logo na abertura, o candidato foi confrontado com um dos principais pontos utilizados por seus adversários para questionar seu discurso de gestor: a dívida pública de Minas Gerais, que praticamente dobrou em valores nominais durante os anos em que comandou o estado.
Zema atribuiu o crescimento aos juros cobrados pela União, que classificou como “juros de agiota”, e argumentou que não contraiu novos empréstimos durante sua gestão. Também afirmou que, proporcionalmente à receita do estado, a dívida caiu durante seu governo.
Segundo o candidato, quando assumiu, o débito correspondia a aproximadamente 192% da receita corrente líquida e estava em cerca de 160% quando deixou o governo.
Na economia, prometeu ao menos a reposição da inflação no salário mínimo, mas evitou assumir compromisso com aumentos reais independentemente da situação econômica.
“Se a economia estiver indo bem, sim”, respondeu ao ser questionado sobre reajustes acima da inflação.
Outro momento de confronto ocorreu quando Zema foi questionado sobre o reajuste concedido aos integrantes do primeiro escalão de seu governo.
Em 2023, ele sancionou aumento que levou seu próprio salário de aproximadamente R$ 10,5 mil para R$ 41,8 mil, alta próxima de 300%. Zema defendeu a medida argumentando que era necessário pagar salários compatíveis para atrair profissionais qualificados e afirmou que doava seus vencimentos às Apaes de Minas Gerais.
Feminicídio rende gafe e contestação
Foi ao falar sobre violência contra a mulher, porém, que aconteceu o episódio de maior repercussão da entrevista.
Renata Vasconcellos questionou Zema sobre o aumento dos feminicídios em Minas Gerais durante sua gestão e perguntou qual compromisso ele assumiria, caso eleito presidente, para enfrentar o problema.
Ao iniciar a resposta, o candidato se atrapalhou:
“Eu tenho uma série de programas contra as mulheres.”
Zema pretendia se referir a programas de proteção e combate à violência contra as mulheres, como ficou evidente na continuação da resposta, mas a troca de palavras rapidamente repercutiu nas redes sociais.
Na sequência, ele citou medidas adotadas em Minas, como ampliação de delegacias especializadas, casas de acolhimento para vítimas de violência doméstica e monitoramento de agressores por tornozeleiras eletrônicas. Também defendeu ações nas escolas para que crianças aprendam a identificar situações de violência dentro de casa.
A resposta teve outro problema.
Zema afirmou que Minas Gerais apresentava índice de feminicídios inferior à média brasileira. A informação foi contestada pela checagem realizada pela Agência Lupa durante a entrevista.
Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública referentes a 2025 mostram Minas com taxa de 1,4 feminicídio por 100 mil mulheres, enquanto a média nacional ficou em 1,3. Portanto, ao contrário do que afirmou o candidato, o estado estava ligeiramente acima da média brasileira.
Vacinação e 8 de Janeiro
Zema também reafirmou posições que o aproximam do eleitorado mais conservador.
Ao falar sobre vacinação, disse ser favorável às campanhas de imunização, lembrou ter tomado as doses contra a Covid-19, mas se posicionou contra a obrigatoriedade das vacinas e contra a responsabilização das famílias que decidirem não imunizar seus filhos.
Em determinado momento, ao desenvolver a resposta, levou o assunto para a segurança pública e afirmou que criminosos matam mais do que doenças, outra declaração que chamou atenção durante a entrevista.
Sobre os ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, Zema voltou a rejeitar a caracterização de tentativa de golpe de Estado. Para ele, houve vandalismo e depredação.
O candidato também reiterou que, se eleito, pretende conceder anistia aos condenados ou buscar uma forma de submetê-los ao que chamou de um tribunal “não político”, argumentando que houve perseguição nos julgamentos.
Modelo de Bukele coloca Zema em dificuldade
Na segurança pública, Zema voltou a citar como referência a política adotada pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e afirmou que pretende aproveitar parte daquela experiência no Brasil. O tema, porém, colocou o candidato em uma situação desconfortável quando Renata Vasconcellos confrontou os resultados apresentados pelo governo salvadorenho com os métodos utilizados para alcançá-los.
A jornalista lembrou que El Salvador conseguiu uma forte redução dos índices de homicídio, mas adotou para isso um regime de exceção, com suspensão de garantias constitucionais e ampliação dos poderes das forças de segurança. A política de Bukele permitiu detenções em massa e restrições a direitos que, pelas garantias previstas na Constituição brasileira, não poderiam simplesmente ser reproduzidas no país. Organizações de direitos humanos também apontam prisões arbitrárias e outras violações durante a ofensiva contra as gangues.
Questionado diretamente se concordava com essas medidas, Zema recuou. Disse que não defendia a reprodução dessas práticas no Brasil, embora tenha insistido que a política salvadorenha apresentou resultados no combate à criminalidade. A resposta evidenciou uma dificuldade que deverá acompanhar o candidato durante a campanha: explicar exatamente qual parte do chamado “modelo Bukele” pretende importar, se rejeita justamente alguns dos mecanismos centrais utilizados pelo governo de El Salvador.
Zema defendeu que a experiência seja “adaptada” à legislação brasileira e citou como exemplo a construção de grandes presídios, inclusive uma unidade na região Norte destinada a integrantes de organizações criminosas. A proposta mantém Bukele como referência política para seu discurso de segurança, mas deixa em aberto quais medidas concretas poderiam ser aplicadas no Brasil sem afrontar direitos e garantias constitucionais.
Exposição nacional também trouxe dificuldades
Para Zema, a entrevista tinha uma importância que vai além das respostas dadas na noite de segunda-feira.
Ex-governador de Minas e ainda pouco conhecido nacionalmente, ele precisa transformar sua experiência administrativa no segundo maior colégio eleitoral do país em uma candidatura competitiva à Presidência.
A escolha de faltar ao debate da Band para se preparar para a sabatina aumentou naturalmente a expectativa sobre seu desempenho.
A entrevista permitiu ao candidato apresentar algumas das bandeiras que pretende levar para a campanha nacional, como ajuste fiscal, segurança pública mais rígida, liberdade individual e redução da presença do Estado.
Mas também expôs vulnerabilidades que deverão reaparecer durante a campanha.
A dívida mineira, o aumento dos salários do primeiro escalão, os números do feminicídio e suas posições sobre vacinação e 8 de Janeiro mostraram que a gestão de quase oito anos em Minas Gerais será utilizada não apenas como principal cartão de visitas de Zema, mas também como fonte de questionamentos dos adversários.
Zema foi o primeiro dos seis presidenciáveis convidados pela Globo. Ronaldo Caiado (PSD) será entrevistado nesta terça-feira (25), seguido por Renan Santos (Missão), na quarta (26); Lula (PT), na quinta (27); Flávio Bolsonaro (PL), na sexta (28); e Augusto Cury (Avante), no sábado (29).


