O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta segunda-feira (24) a Polícia Federal a acessar provas e informações obtidas pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação envolvendo a Go Up Entertainment, produtora responsável por Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A decisão atende a um pedido da PF e permitirá o cruzamento dos dados obtidos pela polícia paulista com a investigação federal que apura a destinação de emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade ligada à produtora.
A Polícia Civil realizou buscas em junho nas sedes do instituto e da Go Up, além de endereços ligados a Karina Ferreira da Gama, responsável pelas duas organizações. A investigação paulista apura suspeitas envolvendo um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões firmado entre o Instituto Conhecer Brasil e a Prefeitura de São Paulo para fornecimento de pontos de wi-fi.
Já a investigação que tramita no STF tem outro foco: apurar possível desvio de finalidade de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares destinadas ao instituto.
Entre os repasses investigados estão R$ 2 milhões destinados pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP) ao Instituto Conhecer Brasil em 2024. Frias, que também participa da produção de Dark Horse, nega que os recursos das emendas tenham sido utilizados para financiar o filme.
O caso chegou ao Supremo após uma representação da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP).
Com a autorização de Dino, a Polícia Federal poderá analisar documentos, arquivos eletrônicos e outros elementos recolhidos pela Polícia Civil para verificar se existem informações relacionadas à investigação das emendas.
Filme também aparece em investigação envolvendo Vorcaro
O caso sob relatoria de Flávio Dino é diferente da investigação que envolve Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, embora Dark Horse apareça nas duas frentes.
A relação entre o filme e Vorcaro ganhou repercussão depois que o site Intercept Brasil revelou áudios e mensagens mostrando que Flávio Bolsonaro procurou o banqueiro em busca de recursos para a produção.
Em um dos áudios divulgados pelo site, Flávio cobra de Vorcaro recursos que seriam destinados ao projeto e afirma estar constrangido em fazer a cobrança diante da existência de parcelas em atraso.
O episódio ganhou dimensão política também pela reação inicial do senador.
Antes da divulgação dos áudios, Flávio foi questionado por um jornalista sobre a participação de Vorcaro no financiamento do filme e negou a informação. Durante a abordagem, riu do questionamento, classificou a informação como mentira e chamou o repórter de “militante”.
A versão mudou poucas horas depois.
Com a divulgação dos áudios e mensagens, Flávio voltou atrás e reconheceu que havia procurado Vorcaro para obter recursos para Dark Horse. O senador passou então a explicar o episódio como a iniciativa de “um filho procurando patrocínio” para produzir um filme sobre o pai.
Posteriormente, Flávio afirmou que havia omitido inicialmente o contato devido a uma cláusula de confidencialidade relacionada ao investimento no filme. Também sustentou que sua relação com Vorcaro estava restrita ao projeto cinematográfico.
O senador chegou depois a pedir desculpas por ter negado inicialmente a relação com o banqueiro, alegando que agiu daquela forma por temer perseguição política.
Já durante a campanha presidencial, Flávio passou a tratar o episódio como uma “página virada” e afirmou que as contas relacionadas à produção foram prestadas.
As investigações, no entanto, continuam.
De um lado, a apuração sob relatoria de Flávio Dino busca esclarecer a destinação de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil. De outro, as relações entre Vorcaro, Flávio Bolsonaro e o financiamento de Dark Horse aparecem nas investigações que envolvem o ex-banqueiro.
A decisão desta segunda-feira amplia o material disponível à Polícia Federal e volta a colocar a produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro no centro das investigações.


