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Home Notícias Brasil

“Turma do KN”: celular de Vorcaro revela contrato milionário e pedidos envolvendo desembargador e ministro do STF

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mostram relação de Daniel Vorcaro com desembargador Newton Ramos e a advogada Camilla Ramos, cujo escritório tinha contrato que poderia render R$ 427 milhões em causas de interesse do Banco Master; conversas também registram pedidos atribuídos ao ministro Kassio Nunes Marques

Por Redação
22 de setembro de 2026 - 11:16
em Brasil
Vorcaro teria bancado mansão de R$ 1,45 milhão para Nunes Marques no Carnaval do Rio

Foto: Rosinei Coutinho/STF

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Mensagens e documentos encontrados pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro revelam uma relação que ia muito além dos processos judiciais entre o ex-banqueiro, o desembargador federal Newton Ramos e a mulher dele, a advogada Camilla Ramos. Nas conversas, integrantes da equipe do então dono do Banco Master se referiam ao casal como a “Turma do KN”, numa referência ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF).

O material integra os arquivos apreendidos pela PF no âmbito das investigações sobre o Banco Master e encaminhados ao Supremo. As informações sobre o contrato e parte das mensagens foram reveladas originalmente pela coluna de Andreza Matais, do Metrópoles, e posteriormente confirmadas por O Globo e CNN Brasil.

Um dos documentos mostra que o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, do qual Camilla Ramos faz parte, foi contratado para atuar em 12 processos envolvendo créditos do setor sucroalcooleiro nos quais o Banco Master aparece como credor ou cessionário.

O contrato estabelecia honorários de êxito equivalentes a 5% dos valores recebidos pelo banco. Uma planilha encontrada no celular de Vorcaro estimava os créditos envolvidos nas ações em aproximadamente R$ 8,5 bilhões. Caso todo esse valor fosse obtido, os honorários poderiam chegar a cerca de R$ 427 milhões.

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As causas discutem indenizações decorrentes do controle de preços exercido pelo antigo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). O contrato abrangia não apenas a atuação nas instâncias inferiores, mas também recursos e incidentes processuais posteriores.

O acordo previa ainda que os honorários fossem pagos até cinco dias depois da obtenção dos valores e autorizava o escritório a receber diretamente da União a parcela correspondente à remuneração contratada.

Documento apreendido pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro mostra contrato do Banco Master com escritório ligado à advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos. Reprodução

Mensagem de Camilla acompanha voto de Nunes Marques

As conversas mostram que Camilla acompanhava o andamento de uma controvérsia jurídica que poderia repercutir sobre os processos envolvendo os créditos.

Em junho de 2025, a advogada enviou mensagem diretamente a Vorcaro comentando uma manifestação de Kassio Nunes Marques na Segunda Turma do Supremo.

Camilla classificou como “excelente” o voto do ministro por fazer uma distinção jurídica relacionada aos critérios utilizados para calcular as indenizações.

No julgamento, Nunes Marques ficou na corrente majoritária ao lado dos ministros Dias Toffoli e Edson Fachin. Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.

A manifestação tratava de uma tese jurídica de alcance mais amplo, que poderia repercutir sobre diferentes empresas do setor, e não de uma ação em que o Banco Master figurasse diretamente como parte no Supremo.

Nunes Marques afirma que nunca votou a favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master e sustenta que o julgamento citado nas mensagens tratava de uma tese aplicável a diversas empresas.

Em mensagem encontrada no celular de Vorcaro, Camilla Ramos classifica como “excelente” voto de Nunes Marques em julgamento que poderia repercutir sobre causas envolvendo precatórios. Reprodução

Desembargador pediu hospedagem para ministro, mostram mensagens

Outras conversas mostram Newton Ramos intermediando pedidos que, nas mensagens, são atribuídos a Kassio Nunes Marques.

Em maio de 2025, uma funcionária da área de marketing do Master encaminhou a Vorcaro uma mensagem que disse ter recebido de Newton.

No texto, o desembargador afirmava que o ministro Kassio havia pedido ajuda para conseguir uma tarifa promocional para uma diária no hotel Fasano, em São Paulo.

Depois de encaminhar a mensagem, a funcionária perguntou a Vorcaro se poderia atender ao pedido.

O banqueiro autorizou que a hospedagem fosse colocada em sua conta.

O diálogo é particularmente relevante porque, em outras conversas, os assessores utilizavam apenas as iniciais “KN”. Nesse caso, a mensagem encaminhada menciona nominalmente “Ministro Kassio”.

Funcionária do Banco Master encaminha a Daniel Vorcaro pedido atribuído ao desembargador Newton Ramos para hospedagem de Kassio Nunes Marques no Fasano; Vorcaro autoriza a despesa. Reprodução

O episódio não aparece isoladamente.

Em outra conversa, Léo Serrano Giunchetti, responsável por parte da logística de Vorcaro, informa que Newton havia solicitado uma reserva no Fasano Itaim para “KN”.

Também aparecem pedidos relacionados ao próprio desembargador. Em outubro de 2024, Newton procurou Vorcaro para tratar de ingressos para a Fórmula 1, realizada dias depois em Interlagos, São Paulo.

Vorcaro encaminhou o desembargador para uma funcionária de sua equipe e orientou que ele informasse quantos ingressos seriam necessários.

Meses antes, Newton havia pedido ajuda para conseguir acesso a um show no Rosewood, hotel de luxo da capital paulista.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro registram pedidos feitos pelo desembargador Newton Ramos envolvendo acesso a eventos em São Paulo. Reprodução

“Turma do KN”

A expressão utilizada pelos integrantes da equipe de Vorcaro aparece em outras conversas.

Em fevereiro de 2025, durante os preparativos para o Carnaval no Rio de Janeiro, Léo Serrano perguntou ao banqueiro se poderia incluir seis nomes enviados pela “turma do KN/Newton” na lista de um camarote na Marquês de Sapucaí.

Vorcaro autorizou.

As referências se conectam a outra apuração publicada pelo Metrópoles na semana passada.

Mensagens do celular de Vorcaro mostram a organização de uma hospedagem durante o Carnaval de 2025 em uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro, para Newton Ramos e uma pessoa identificada nas conversas como “KN”.

Assessores de Daniel Vorcaro utilizavam a expressão “Turma do KN” ao tratar de pedidos relacionados ao desembargador Newton Ramos. Reprodução

Investigadores da Polícia Federal apontaram Kassio Nunes Marques como a possível referência.

O imóvel pertence ao ator Márcio Garcia, tem aproximadamente 6 mil metros quadrados e foi anunciado por R$ 250 milhões. Segundo a apuração do Metrópoles, o aluguel por uma semana durante o Carnaval custou cerca de R$ 1,45 milhão.

As conversas registram ainda preparativos envolvendo motoristas, bebidas, camarotes, passeio de helicóptero e uma feijoada para aproximadamente 40 convidados.

Camilla Ramos confirmou anteriormente que sua família ficou no imóvel, mas afirmou que a hospedagem decorreu da relação profissional e pessoal mantida com Vorcaro e sua família, sem contrapartida ou interesse profissional relacionado à estadia.

Newton diz que relação com Vorcaro era pessoal

O desembargador Newton Ramos afirma que sua relação com Vorcaro era anterior aos fatos investigados e tinha caráter pessoal.

Ele reconhece que Camilla atua em causas cíveis para o Banco Master, mas sustenta que os pedidos relacionados a imóveis e transportes ocorreram no âmbito privado e sem qualquer relação com sua atividade como magistrado.

Newton também afirma que nunca julgou causa de interesse do Banco Master.

O escritório de Camilla Ramos declarou que sua atuação para o banco ocorreu regularmente, dentro dos limites legais e mediante habilitação nos respectivos processos.

A advogada afirma prestar serviços ao Master desde 2023, principalmente em processos cíveis e tributários.

Nunes Marques nega ter feito pedidos a Vorcaro

Kassio Nunes Marques também rejeita qualquer relação entre sua atividade no Supremo e os interesses do Banco Master.

O ministro afirma que nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro, nunca pediu nada ao ex-banqueiro e nunca autorizou terceiros a falar em seu nome.

Sobre o julgamento comentado por Camilla nas mensagens, Nunes Marques explicou que inicialmente constava como impedido porque havia participado do processo quando integrava o TRF-1. Posteriormente, concluiu que o impedimento não existia porque o Supremo analisava uma tese jurídica ampla e pediu a retificação antes de votar.

Segundo o ministro, embora pessoas ligadas ao Master tenham comemorado seu voto, o processo não era uma ação do banco.

Camilla continua visitando Vorcaro na prisão

A relação profissional permanece mesmo após a prisão de Daniel Vorcaro.

Informações publicadas nesta terça-feira (22) pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, mostram que Camilla Ramos está entre os advogados autorizados a visitar o ex-banqueiro e tem comparecido com frequência à prisão.

Segundo a publicação, a frequência e o caráter reservado das conversas chamaram a atenção de outros integrantes da defesa, já que Camilla não atua nos processos criminais de Vorcaro.

A assessoria da advogada informou que ela visita o ex-banqueiro para atualizá-lo sobre cerca de 20 processos envolvendo precatórios adquiridos pelo Banco Master nos quais está regularmente habilitada.

Camilla sustenta que os contratos são lícitos e regulares e que sua atuação profissional ocorreu dentro dos limites legais.

O caso também chegou ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Nesta segunda-feira (21), uma representação pediu que o órgão apure a atuação do desembargador Newton Ramos a partir das mensagens reveladas. O pedido ainda deverá ser analisado pelo Conselho.

Tags: Banco MasterCamilla RamosCNJDaniel VorcaroFasanoKassio Nunes MarquesNewton RamosPolícia FederalprecatóriosSTFTurma do KN
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