O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de um inquérito policial para investigar diretamente o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por suspeitas de crimes relacionados ao financiamento de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A existência do inquérito veio a público depois que Mendonça retirou, na noite desta quinta-feira (10), o sigilo de 15 procedimentos derivados das investigações sobre o Banco Master.
Os documentos mostram que a Polícia Federal pediu a abertura de uma investigação específica para apurar a atuação de Flávio na obtenção de recursos junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Master.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) concordou com a instauração do inquérito, e Mendonça autorizou a investigação.
A PF apura a possível prática de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros crimes relacionados ao financiamento do filme.
O valor sob investigação chega a aproximadamente R$ 61 milhões, recursos que teriam sido disponibilizados por Vorcaro para a produção de “Dark Horse”.
A suspeita dos investigadores é de que a operação tenha ocorrido a pedido de Flávio Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro também é investigado
Os documentos revelados mostram que o ex-deputado Eduardo Bolsonaro também aparece na investigação.
A Polícia Federal apura se ele teria sido beneficiário de parte dos recursos movimentados no esquema relacionado ao financiamento do filme.
O inquérito específico, entretanto, continua sob sigilo.
Mendonça tornou pública a decisão que autorizou sua abertura, mas preservou os documentos e as diligências realizadas dentro da investigação.
A medida segue a orientação do presidente do STF, Edson Fachin, que pediu a abertura dos procedimentos relacionados ao Banco Master, preservando apenas informações cujo sigilo seja necessário para não comprometer diligências em andamento.
Com isso, tornou-se possível saber oficialmente que Flávio é alvo de uma investigação criminal específica, embora as provas reunidas e as medidas adotadas pela Polícia Federal continuem protegidas.
Flávio pediu dinheiro a Vorcaro
A relação de Flávio Bolsonaro com o financiamento de “Dark Horse” tornou-se pública depois da divulgação de áudios pelo The Intercept Brasil.
Nas conversas, o senador aparece tratando diretamente com Daniel Vorcaro da obtenção de recursos para a produção.
Em um dos diálogos revelados, Flávio reclama das dificuldades enfrentadas pelo projeto e cobra do então banqueiro repasses que estariam atrasados.
O próprio senador posteriormente reconheceu ter procurado Vorcaro para conseguir investimentos para o filme. Flávio sustenta, porém, que se tratava de dinheiro privado, destinado integralmente à produção, e nega qualquer contrapartida ou irregularidade.
A investigação da PF procura agora esclarecer não apenas quem recebeu os recursos, mas de onde saiu o dinheiro, como ele foi movimentado e quem efetivamente se beneficiou das operações.
Parte dos valores ligados a Vorcaro teria passado pelo fundo Havengate, nos Estados Unidos.
O doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, é apontado pelos investigadores como um dos responsáveis pela movimentação desses recursos.
Nesta semana, Mendonça homologou o acordo de colaboração premiada de Mineiro, ampliando o conjunto de informações que poderá ser utilizado pela Polícia Federal para reconstruir o caminho do dinheiro.
Caso corre em investigação separada
O inquérito contra Flávio está ligado ao Inquérito 5.026, uma das principais frentes do caso Master no STF, mas tramita separadamente.
A própria Polícia Federal pediu a criação de uma petição sigilosa específica para investigar o senador.
A medida também ajuda a explicar por que, mesmo depois de Mendonça retirar o sigilo de 15 procedimentos relacionados ao Master, a investigação sobre “Dark Horse” continua sem acesso público integral.
Fachin havia determinado que o segredo de Justiça fosse preservado quando necessário para proteger diligências ainda em andamento.
A abertura do inquérito não representa denúncia nem condenação de Flávio ou Eduardo Bolsonaro. Nesta fase, a Polícia Federal reúne provas para determinar se houve crimes e qual teria sido a participação de cada investigado.
A revelação, entretanto, estabelece oficialmente uma situação que até então não estava clara publicamente: Flávio Bolsonaro não aparece apenas como personagem nas conversas de Daniel Vorcaro. Ele é alvo de um inquérito criminal aberto especificamente para investigar sua atuação na captação e movimentação dos recursos destinados a “Dark Horse”.


