– “Você é negro, preto?” – Jorge Perlingeiro.
– “Sou” – Antônio Gonzaga.
– “Precisamos dar uma tinta em você, que você é muito clarinho. Sua mãe é negra? E o seu pai?” – Jorge Perlingeiro.
– Marineth, esse diálogo acima de puro preconceito racial foi incitado por Jorge Perlingeiro, presidente da LIESA – Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Ele inquiriu a cor da pele de Antônio Gonzaga, carnavalesco da Portela, no podcastSó se for agora, programa que apresentou, ao vivo, via Youtube, no dia 13/11. A atitude dele pegou a todos de calça arriada.
– Como assim, Athaliba? Que trem racista é esse?
– Marineth, no rol dos entrevistados estava André Rodrigues que, com Antônio Gonzaga, forma a dupla de carnavalescos da agremiação; a Bianca Monteiro, rainha de bateria; o Gilsinho, intérprete de samba-enredo; e Júnior Escafura, vice-presidente da azul-e-branco. E sabe qual é o enredo que a escola apresentará no desfile no sambódromo, em 2024: Um defeito de cor.
– Athaliba, isso não cheira jogada de marketing? E explica o que significa podcast.
– Bem, Marineth, a explicação mais plausível do termo podcast é que surgiu da junção de iPod (dispositivo da Apple de reprodução de arquivos MP3 – áudio) e broadcast (palavra inglesa que significa transmissão – de rádio). E alude, portanto, a publicação em formato digital de áudio ou vídeo. Resumo: podcast é igual a um programa de rádio, habitando a mídia digital, via internet.
– Athaliba, depois de aclarar o termo podcast, por favor, explique esse caso de preconceito racial, que cheira a publicidade para dar visibilidade ao enredo Um defeito de cor. Né isso não?
– Qual o quê, Marineth! É claro que não. O programa liderado pelo presidente da LIESA, ainda no ar, levou boa parcela de internautas a gerar avalanche de protestos nas redes sociais. Algumas horas após o programa, já madrugada do dia seguinte, o direção da Portela fez circular nota oficial manifestando solidariedade a Antônio e protestando contra a atitude de Perlingeiro.
– Athaliba, como a diretoria do Portela se posicionou, em nota, sobre o indubitável racismo?
– Marineth, A direção da agremiação carnavalesca afirmou que “é uma instituição fundada por pretos, pobres e suburbanos há mais de cem anos”; dizendo ter “como princípio a luta contra o preconceito de qualquer espécie, bem como o apoio incondicional a diversidade”. E ainda mais: “Ao longo das décadas ajudamos a fincar os pilares para a construção de um ‘mundo do samba’ múltiplo e plural”.
– Athaliba, a atitude racista do presidente da LIESA, nesse novembro monetizado mês da consciência negra, atingiu alto nível de repercussão, né? Como ele (o apelido é Nota Dez, efeito da locução do resultado do desfile das escolas de samba?) reagiu ao ser chamado de racista?
– Marineth, ainda no calor dos fatos, após tomar conhecimento da atitude preconceituosa que trovejava nas redes sociais, Perlingeiro se apressou em se desculpar. Ele ganhou projeção como locutor de apuração de desfile das escolas de samba e, desde 2021, tornou-se presidente da instituição que explora o chamado filet-mignon do Carnaval. Isso vale uma crônica, a parte.
– O que disse ele, Athaliba?
– Marineth, em vídeo, falou: “Num dos momentos eu brincando com um dos carnavalescos, eu estavam presentes nessa brincadeira ficou, de repente, algumas pessoas se sentiram de certa forma, não digo ofendidas, mas molestadas; porque de repente eu estava falando de alguma coisa ligada à negritude”.
– Ele misturou alhos com bugalhos, né, Athaliba?
– Pois é, Marineth. E mais: “Eu quero, se de fato atingi alguém de uma forma pejorativa ou inábil, quero dizer que eu me penalizo me solidarizo com isso; desculpem aqueles que por acaso se sentiram ofendidos, não foi essa a minha intenção”.
– Athaliba, nada diferente do que se podia esperar, à falta de cultura à LIESA.
– Marienth, sem mencionar o episódio, Antônio Gonzaga, pelo Twitter, falou sobre a luta do negro para além do mês de novembro. Pediu que “além de novembro, a consciência negra seja uma batalha contínua. Um defeito de cor (menção ao enredo da Portela) não é à-toa”.
– Será, Athaliba, que Perlingeiro sabe que, em oito estados brasileiros, em 2022, o nº de pessoas mortas pela polícia foi 4.219, sendo 2.700 negras do total? Não. Provavelmente que não!






