O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender o Pix e elevou o tom contra as críticas feitas pelos Estados Unidos ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. Durante evento realizado nesta terça-feira (2) em Catalão, Goiás, Lula afirmou que a ferramenta desenvolvida pelo Banco Central se tornou alvo de interesses econômicos estrangeiros justamente por competir com grandes empresas americanas do setor financeiro.
A declaração ocorre após a divulgação de um relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), órgão responsável pela política comercial americana, que questiona práticas adotadas pelo Brasil em áreas como comércio digital, meios de pagamento e concorrência econômica.
Segundo Lula, a preocupação demonstrada pelos Estados Unidos está relacionada ao sucesso do Pix, que hoje movimenta mais recursos financeiros do que os tradicionais sistemas de cartões de crédito no país.
“O Pix assusta eles”, afirmou o presidente. “A preocupação dos americanos é que o Pix pode abalar muito as empresas do cartão de crédito deles que estão aqui no Brasil. Acham que o Pix vai acabar com isso; e o Pix vai acabar mesmo, porque o Pix é de graça e é público e ninguém paga nada.”
Pix se tornou principal meio de pagamento do país
Criado pelo Banco Central em 2020, o Pix transformou a forma como brasileiros realizam transferências e pagamentos. Dados mais recentes do Banco Central mostram que o sistema ultrapassou a marca de centenas de milhões de operações diárias e se consolidou como o principal meio de pagamento utilizado pela população.
Além da gratuidade para pessoas físicas, o modelo brasileiro se diferencia por ser operado por uma infraestrutura pública, permitindo transferências instantâneas entre diferentes instituições financeiras.
No relatório divulgado nesta semana, o USTR argumenta que as regras brasileiras favorecem o Pix em detrimento de soluções privadas oferecidas por empresas estrangeiras, como sistemas ligados às bandeiras Visa, Mastercard e plataformas digitais de pagamento.
O documento critica a exigência de participação obrigatória de instituições financeiras de grande porte e também o fato de o sistema ser ofertado gratuitamente aos usuários.
Governo vê pressão de gigantes financeiras
Especialistas ouvidos pela imprensa econômica avaliam que o debate envolve uma disputa de mercado bilionária.
Para o economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a ofensiva americana está relacionada à perda de espaço das empresas privadas que tradicionalmente dominavam o setor de pagamentos eletrônicos.
Segundo ele, o Pix reduziu custos para consumidores e empresas, ao mesmo tempo em que diminuiu receitas obtidas por intermediários financeiros.
“O que está em disputa é a renda gerada pelas transações financeiras realizadas pelos brasileiros”, afirmou o economista em entrevista à Agência Brasil.
Tarifa de 25% amplia tensão comercial
O relatório do USTR também recomenda a adoção de uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos.
A medida ainda está em fase de consulta pública e poderá ser implementada após o encerramento do prazo para manifestações, previsto para 15 de julho.
O governo brasileiro considera a iniciativa contraditória, especialmente porque Brasil e Estados Unidos vinham mantendo negociações comerciais nas últimas semanas.
Lula revelou que discutiu o tema diretamente com o presidente Donald Trump durante encontro realizado na Casa Branca em maio. Na ocasião, segundo o presidente brasileiro, foi estabelecido um prazo de 30 dias para que equipes técnicas dos dois países buscassem uma solução negociada para as divergências comerciais.
Lula cobra explicações de Trump
Durante o discurso em Goiás, o presidente afirmou esperar uma manifestação direta de Trump sobre a mudança de postura dos Estados Unidos.
“Você me deve uma reunião e eu devo uma para você, porque nós demos 30 dias para os nossos ministros negociarem”, declarou.
Lula também destacou que os Estados Unidos acumulam superávit comercial expressivo na relação bilateral com o Brasil. Segundo dados apresentados pelo governo brasileiro, os americanos registraram saldo positivo superior a US$ 400 bilhões nas trocas comerciais entre os dois países nos últimos 15 anos.
Ao comentar as críticas ao Pix, o presidente reforçou o discurso de defesa da autonomia econômica nacional e afirmou que o Brasil não aceitará pressões externas sobre políticas públicas consideradas estratégicas.
“Não aceitamos ser tratados como uma republiqueta de banana”, disse Lula.
A controvérsia em torno do Pix se soma a outras tensões recentes entre Brasília e Washington e pode influenciar as negociações comerciais em andamento nas próximas semanas.






