Rio – Outro dia, eu e a mãe dos meus filhos discutimos alegremente sobre o futuro das crianças.
Todo mundo sabe que o futuro das crianças é uma preocupação constante dos pais modernos. Hoje, os casais discutem mais sobre o futuro dos filhos do que sobre o futuro do casamento.
Uma das maiores preocupações dos pais modernos é sobre a profissão dos seus herdeiros. A discussão ficou acalorada quando resolvemos opinar sobre as profissões que as crianças deveriam escolher. Eu preferia que eles fossem jornalistas, como o pai. A mãe deles, no entanto, preferia que tivéssemos um médico e uma advogada na família.
Como argumento, ela lembrou das dificuldades que passamos com o fechamento dos jornais impressos e com os parcos salários dos jornalistas.
Mais do que com a realização profissional, as mães se preocupam com os salários e os benefícios financeiros da profissão. A discussão aumentou quando sugeri que, pensando assim, eles entrassem para a política. A mãe das crianças argumentou que política nem é profissão.
– E depois, todo mundo sabe que espécie de gente são os políticos: recebem ajuda de custo, diárias de viagens, auxílio-moradia, paletó, transporte, alimentação e creche. E alguns nem filho tem – argumentou.
– Compreendo perfeitamente – respondi. – Mas os políticos não pensam assim. Repare na família Bolsonaro, nenhum deles tem um emprego formal e são todos ricos.
Como argumento final, usei o fato que os deputados federais e senadores que concorrem nas eleições de 2026 tiveram um aumento de patrimônio de até 62.247% em relação a 2022.
O deputado Fred Linhares (Republicanos-DF), por exemplo foi o parlamentar do Congresso Nacional que teve o maior aumento proporcional no valor de bens declarados à Justiça Eleitoral em quatro anos. O patrimônio dele saltou de R$ 10 mil em 2022 para R$ 6,2 milhões em 2026.
Em segundo lugar, está o deputado Otoni de Paula (PSD-RJ), que declarou R$ 18,3 mil em 2022 e agora tem um patrimônio de R$ 5,5 milhões. A declaração de bens do congressista disparou 29.841% em quatro anos.
O deputado Lula da Fonte (PP-PE) registrou uma evolução patrimonial de 12.900% entre 2022 e 2026. A soma dos bens aumentou de R$ 10 mil para R$ 1,3 milhão nos mesmos quatro anos.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ) – pego com uma mala de dinheiro escondida no apartamento – foi o quarto parlamentar que registrou o maior crescimento no patrimônio. Ele saiu de R$ 4,9 mil em 2022 para R$ 600 mil em 2026.
Nikolas Ferreira (PL-MG) aparece em quinto lugar no ranking de deputados que tiveram maior aumento de patrimônio. Nikolas declarou R$ 36,8 mil em 2022 e registrou um patrimônio de R$ 3,9 milhões em 2026.
Simone Tebet declarou patrimônio de R$ 10,6 milhões em 2026, crescimento de 282,1% em relação a 2022.
Ricardo Salles chegou a R$ 9,05 milhões, alta de 90,9%.
Arthur Lira, por exemplo, declarou em 2022 patrimônio de R$ 5,96 milhões. Em 2026, a declaração chegou a R$ 25,96 milhões: crescimento nominal de 335%.
Guilherme Derrite declarou R$ 2 milhões, mais que o dobro do patrimônio informado quatro anos antes.
O curioso é que os políticos parecem ter desenvolvido uma habilidade que falta a boa parte dos brasileiros: crescer mesmo quando o país aperta o cinto.
Na campanha, o candidato promete saúde, educação, segurança, emprego, dignidade e até um futuro melhor. Talvez seja hora de perguntar, com toda a educação democrática possível: pra quem?


