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Home Colunas

Das minas às urnas: Itabira consolida tendência de voto mais à esquerda

Cidade de forte tradição operária deu vitória a Lula em 2022 e, dois anos depois, reelegeu Marco Antônio Lage, do PSB, com mais de 76% dos votos

Por Geraldo Ribeiro
21 de agosto de 2026 - 13:51
em Colunas

Rovena Rosa / ABR

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Itabira chega às eleições de 2026 com uma característica que deve entrar nas contas dos candidatos que pretendem conquistar o eleitorado local. Os resultados mais recentes das urnas indicam uma tendência de crescimento das candidaturas de esquerda e centro-esquerda no município, especialmente nas disputas para presidente e prefeito.

Não se trata de uma característica absoluta. O eleitor itabirano já deu vitórias importantes à direita e demonstrou capacidade de mudar de posição entre uma eleição e outra. Mas a sequência mais recente mostra um movimento que merece atenção.

A própria formação social da cidade ajuda a contextualizar esse comportamento. Embora mundialmente conhecida pela mineração, Itabira também se desenvolveu como uma cidade de forte presença operária. Por décadas, milhares de famílias tiveram sua história ligada diretamente ao trabalho nas minas, às relações trabalhistas e ao movimento sindical.

A atuação sindical entre os trabalhadores da mineração remonta aos primeiros anos da exploração industrial do minério. Estudos acadêmicos registram, por exemplo, mobilizações de trabalhadores desde a década de 1940 e a presença histórica do Sindicato Metabase na organização dos empregados do setor.

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Isso não significa que ser trabalhador ou viver em uma cidade mineradora determine uma escolha eleitoral. Mas ajuda a compreender um ambiente no qual pautas relacionadas a emprego, salário, direitos trabalhistas, serviços públicos e políticas sociais historicamente possuem espaço no debate político.

E é nas urnas que essa característica começa a aparecer de maneira mais clara nos últimos anos.

De Bolsonaro a Lula

A eleição presidencial de 2018 mostra que Itabira não pode simplesmente ser classificada como um reduto histórico da esquerda.

Naquele ano, a cidade acompanhou o forte avanço de Jair Bolsonaro registrado em Minas Gerais.

No primeiro turno, Bolsonaro recebeu 29.859 votos, 47,84% dos válidos, contra 16.147 votos, 25,87%, de Fernando Haddad. No segundo turno, a diferença aumentou: Bolsonaro chegou a 35.136 votos, 58,21%, enquanto Haddad recebeu 25.229 votos, 41,79%.

Quatro anos depois, porém, o cenário mudou.

Em 2022, Lula conseguiu virar a preferência presidencial do município. Já no primeiro turno, o petista recebeu 35.025 votos, 50,16% dos válidos, enquanto Bolsonaro ficou com 27.203 votos, 38,96%.

A mudança é significativa quando comparada à eleição anterior. Bolsonaro havia aberto mais de 9,9 mil votos sobre Haddad no segundo turno de 2018. Quatro anos depois, Lula terminou o primeiro turno quase 7,9 mil votos à frente do então presidente.

A vitória de Lula foi confirmada no segundo turno.

Mais do que uma simples troca de vencedor, a comparação entre as duas eleições mostrou que uma parcela importante do eleitorado itabirano que havia aderido à candidatura de Bolsonaro em 2018 já não repetia aquela escolha quatro anos depois.

No país, Lula venceu a eleição de 2022 por uma margem muito mais apertada, com 50,90% dos votos válidos contra 49,10% de Bolsonaro.

A eleição municipal reforçou a tendência

Se 2022 mostrou uma mudança na disputa presidencial, as eleições municipais de 2024 reforçaram a força eleitoral de uma candidatura situada no campo da centro-esquerda.

Marco Antônio Lage, do PSB, conquistou a reeleição com 52.085 votos, equivalentes a 76,13% dos votos válidos.

A vantagem foi avassaladora.

João Izael Querino Coelho (Mobiliza), ex-prefeito e principal adversário, terminou em segundo lugar com 11.080 votos, 16,19%. Neidson Freitas (MDB) ficou em terceiro, com 4.366 votos, 6,38%.

Marco Antônio concorria por uma ampla coligação que reunia, além do PSB, partidos como PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PDT, Solidariedade e PRD.

Do outro lado, João Izael tinha o PL em sua coligação e Pedro Olintão (PL) como candidato a vice. A composição aproximava a chapa de uma parcela do eleitorado conservador e bolsonarista.

Neidson também disputava parte desse eleitorado. Sua candidata a vice, Rose Félix (PSD), possuía forte identificação com o segmento evangélico, enquanto a coligação reunia ainda Republicanos, PP, Podemos, MDB, PSD e a Federação PSDB-Cidadania.

Na prática, portanto, o eleitorado mais conservador chegou à eleição dividido entre diferentes alternativas.

Essa divisão certamente deve ser considerada na leitura do resultado, mas está longe de explicar sozinha o tamanho da vitória de Marco Antônio. Com mais de três quartos dos votos válidos, o prefeito superou amplamente a soma de todos os adversários.

A eleição municipal também possui uma lógica própria. Avaliação administrativa, obras, serviços públicos, estrutura política, alianças e características pessoais dos candidatos costumam pesar muito mais em uma disputa para prefeito do que a identificação ideológica nacional.

Ainda assim, quando o resultado de 2024 é colocado ao lado da virada presidencial registrada dois anos antes, surge um padrão que não pode ser ignorado.

Uma tendência que será testada em 2026

Itabira passou de uma vitória expressiva de Bolsonaro em 2018 para uma vitória de Lula em 2022. Na eleição seguinte, uma ampla aliança liderada pelo PSB e integrada pelos principais partidos da esquerda local conquistou 76% dos votos para prefeito.

São eleições diferentes e seria precipitado afirmar que esses resultados transformaram Itabira definitivamente em uma cidade de esquerda.

Mas há uma tendência recente nessa direção.

Ela ganha relevância justamente porque ocorre em um município com forte tradição operária, onde temas como emprego, direitos trabalhistas, políticas públicas e atuação do Estado fazem parte da história social e econômica local.

Ao mesmo tempo, existe uma parcela expressiva do eleitorado conservador. Os mais de 35 mil votos dados a Bolsonaro em 2018 mostram que a direita possui uma base eleitoral considerável na cidade.

O que mudou foi a capacidade de transformar essa base em maioria.

E as eleições de 2026 serão o primeiro grande teste para saber se a mudança observada nos últimos pleitos representa uma tendência mais duradoura ou apenas o resultado das circunstâncias políticas de cada eleição.

Para Lula e os candidatos associados ao campo progressista, Itabira chega ao pleito como um município onde os resultados recentes são favoráveis. Para a direita, o desafio será recuperar uma cidade onde Bolsonaro já conseguiu alcançar 58% dos votos, mas perdeu terreno quatro anos depois.

A disputa também pode oferecer pistas importantes para 2028.

Se a preferência observada em 2022 e 2024 continuar avançando, os grupos políticos locais terão de considerar esse perfil na construção das próximas candidaturas à Prefeitura. Se houver nova mudança de direção, ficará demonstrado mais uma vez que o eleitor itabirano é menos ideológico e mais suscetível às circunstâncias de cada disputa.

Por enquanto, os últimos resultados oferecem uma fotografia bastante clara: depois da forte adesão a Bolsonaro em 2018, Itabira deslocou seu voto nas eleições seguintes e chega a 2026 mostrando uma inclinação eleitoral mais favorável à esquerda e à centro-esquerda.

Tags: Direitaeleições 2026eleições municipaiseleições presidenciaiseleitorado de ItabiraesquerdaItabiraJair BolsonaroJoão IzaelLulaMarco Antônio LageNeidson FreitasPLpolítica em ItabiraPSBPT
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