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Home Colunas

Itabira pulveriza seus votos e caminha para mais uma eleição sem representação própria

Enquanto grupos políticos multiplicam candidaturas e não conseguem construir um projeto comum, município corre novamente o risco de assistir deputados de outras regiões levarem milhares de votos sem criar vínculos permanentes com a cidade

Por Geraldo Ribeiro
20 de agosto de 2026 - 07:43
em Colunas

Foto: Esdras Vinicius/Divulgação. 

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Itabira caminha para repetir em 2026 uma história que já se tornou conhecida de seu eleitorado: chegar ao fim das eleições sem conseguir eleger um representante diretamente identificado com o município para a Assembleia Legislativa ou para a Câmara dos Deputados.

Não é por falta de candidatos. É justamente o contrário.

A dificuldade histórica de construir uma candidatura competitiva, capaz de reunir diferentes setores da sociedade e ultrapassar as fronteiras dos grupos políticos locais, transforma Itabira em terreno fértil para a pulverização de votos.

O resultado aparece eleição após eleição.

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Os últimos nomes ligados diretamente à cidade que chegaram aos parlamentos no fim dos anos 1990 foram Luiz Menezes e Olímpio Pires Guerra, o Li Guerra. Menezes exerceu mandato de deputado estadual entre 1999 e 2003. Li, depois de administrar Itabira entre 1993 e 1996, foi eleito deputado federal.

Desde então, Itabira não conseguiu construir uma representação parlamentar permanente.

E 2026 indica que a história pode se repetir.

As convenções partidárias voltaram a espalhar os nomes ligados a Itabira por diferentes legendas. Bernardo Mucida foi confirmado pelo Avante para deputado federal; Marco Antônio Gomes disputa pelo PRD; Cibele Machado concorre pelo Republicanos. Para a Assembleia aparecem, entre outros, Danilo Alvarenga e Franklin Acácio Rodrigues, o Sô Lico.

Não cabe antecipar quem possui ou não condições eleitorais. A urna responderá isso em outubro. O problema político está antes dela.

Quantas candidaturas uma cidade consegue sustentar eleitoralmente antes de transformar diversidade em pulverização?

A conta que Itabira já fez em 2022

A eleição passada oferece uma resposta incômoda.

Em 2022, seis candidatos ligados a Itabira disputaram uma cadeira de deputado estadual e três concorreram a deputado federal. Nenhum foi eleito.

João Izael recebeu 16.779 votos somente em Itabira para deputado estadual. Bernardo Mucida teve outros 16.492. Somados, foram 33.271 votos apenas entre os dois primeiros colocados locais.

Vieram ainda Carlin Sacolão Filho, com 1.904 votos na cidade; Elias Lima, com 1.870; Alexandre Banana, com 1.116; e Dalton Albuquerque, com 67.

Na disputa federal ocorreu algo semelhante. Neidson Freitas recebeu 15.401 votos em Itabira, enquanto Vetão conseguiu outros 7.530 e Cibele Machado, 973.

Somar esses votos e imaginar que todos migrariam automaticamente para uma candidatura única seria uma simplificação. Eleitores têm preferências ideológicas, partidárias e pessoais diferentes. Ninguém é proprietário do voto de ninguém.

Mas os números revelam algo politicamente relevante: Itabira produz votos em quantidade considerável, mas não consegue concentrá-los suficientemente para transformá-los em representação.

E existe uma segunda consequência.

O espaço que não é ocupado por candidaturas locais competitivas acaba aberto aos candidatos de outras cidades. São os chamados “paraquedistas”, expressão tradicional da política municipal para aqueles que chegam durante a eleição, constroem alianças com vereadores e lideranças, recebem votos e mantêm pouca ou nenhuma relação permanente com o município depois do pleito.

Nem todo candidato de fora se enquadra nessa definição. Há parlamentares com bases regionais que destinam recursos e mantêm atuação em Itabira. O problema está em entregar milhares de votos a candidatos cuja relação com a cidade termina junto com a campanha.

Monlevade fez uma escolha diferente

A pouco mais de 30 quilômetros daqui, João Monlevade oferece um contraste interessante.

Mauri Torres entrou na Assembleia Legislativa em 1991 e exerceu seis mandatos consecutivos. Foi presidente da ALMG entre 2003 e 2007 e líder do governo estadual no Legislativo.

Depois veio Tito Torres.

Natural de João Monlevade e filho de Mauri, Tito foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2014, com 58.670 votos. Subiu para 78.862 em 2018 e alcançou 96.811 votos em 2022. Está atualmente no terceiro mandato consecutivo.

Não significa que João Monlevade possua unidade política absoluta ou que seus diferentes grupos caminhem juntos. Muito menos que toda conquista da cidade possa ser atribuída aos seus deputados.

Mas existe ali algo que Itabira perdeu: continuidade de representação e construção de uma base eleitoral regional.

Essa diferença aparece até na oferta de serviços públicos.

Em 2024, o Governo de Minas instalou em João Monlevade a maior Unidade de Atendimento Integrado do programa UAI Compartilha. A estrutura foi projetada para atender mais de 328 mil pessoas de dez municípios. Curiosamente, Itabira está entre as cidades atendidas pela unidade instalada em Monlevade.

O exemplo da carteira de identidade citado no debate político itabirano também tem fundamento histórico. Em 2018, representantes do Posto de Identificação de João Monlevade vieram à Câmara de Itabira explicar como funcionava o serviço. Naquela época, o posto monlevadense atendia, em média, cinco moradores de Itabira por dia.

Mais recentemente, em dezembro de 2024, o próprio delegado regional de Itabira visitou a UAI de João Monlevade para conhecer a estrutura, porque havia um projeto para implantar uma unidade semelhante em Itabira.

Itabira posteriormente avançou no projeto de sua própria UAI, portanto seria injusto escrever que nada mudou. Mas o episódio ilustra uma situação difícil de ignorar: uma cidade economicamente relevante para Minas passou anos recorrendo ao município vizinho para serviços estaduais que poderia oferecer localmente.

Não existem donos de votos

Seria antidemocrático defender que partidos simplesmente impedissem pessoas de concorrer para concentrar votos em determinado nome. Todo cidadão que cumpra as exigências legais tem direito de disputar uma eleição.

O problema de Itabira é outro.

É a incapacidade de suas lideranças de enxergar uma eleição legislativa para além das disputas municipais.

Os grupos que se enfrentam pela Prefeitura e pela Câmara carregam suas rivalidades para a eleição estadual. Cada liderança lança ou apoia seu candidato. Cada partido tenta fazer sua própria conta. Cada grupo mede sua força.

E a cidade inteira termina fazendo uma conta diferente: quantos votos foram embora e quantos mandatos ficaram?

Algumas candidaturas proporcionais cumprem ainda uma função partidária legítima: ajudam a legenda ou federação a aumentar sua votação total. Esse é o funcionamento do sistema proporcional. O problema, sob a perspectiva local, é que uma candidatura sem competitividade pode colher votos em Itabira que, no cálculo partidário, contribuam para eleger um deputado de outra região.

O voto não é desperdiçado juridicamente. Ele ajuda o partido.

Politicamente, porém, Itabira pode terminar ajudando a eleger alguém que não possui qualquer vínculo com o município.

Esse talvez seja o ponto central da eleição de 2026.

Franklin Acácio Rodrigues, o Sô Lico, aparece entre os candidatos e é um personagem conhecido da vida pública itabirana há anos. Já disputou eleições municipais, participou de movimentos sociais e tornou-se presença recorrente nos debates políticos da cidade.

Ser conhecido, entretanto, é diferente de possuir densidade eleitoral suficiente para conquistar uma das 77 cadeiras da Assembleia. E essa mesma pergunta precisa ser feita sobre todos os candidatos ligados ao município.

O problema não é saber qual deles merece o voto. Essa decisão pertence exclusivamente ao eleitor.

A questão que deveria inquietar as lideranças locais é outra: algum deles conseguiu construir uma candidatura regionalmente competitiva?

Se a resposta vier novamente apenas depois da abertura das urnas, talvez seja tarde.

Itabira possui população, economia, história e importância suficientes para reivindicar voz própria em Belo Horizonte e Brasília. O que lhe falta há décadas não parece ser eleitor.

Falta transformar voto em representação.

Enquanto a política local continuar organizada em conglomerados que se enfrentam permanentemente e são incapazes de construir convergências mínimas quando o interesse do município está em jogo, candidatos de todas as regiões continuarão encontrando em Itabira aquilo que procuram a cada quatro anos: votos.

Levam os votos.

O mandato, mais uma vez, pode ficar em outra cidade.

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