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Home Colunas

Primeiro debate presidencial tem ataques, poucas propostas e candidatos que parecem desconhecer o cargo que disputam

Por Geraldo Ribeiro
24 de agosto de 2026 - 11:20
em Colunas
Primeiro debate presidencial tem ataques, poucas propostas e candidatos que parecem desconhecer o cargo que disputam

Foto: Renato Pizzutto/Band

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O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela Band na noite deste domingo (23), aconteceu com três cadeiras vazias: o presidente Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) decidiram não participar.

No palco ficaram apenas Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Foi o debate presidencial de estreia mais esvaziado desde a redemocratização.

Renan estava presente mesmo sendo candidato de um partido sem representação suficiente no Congresso para obrigar a emissora a convidá-lo. A Band decidiu ampliar seus critérios e incluí-lo. Zema também havia sido convidado pela emissora, mas desistiu no próprio domingo.

A ausência de Lula e Flávio Bolsonaro pode ser compreendida como estratégia de campanha. Os dois estão muito à frente dos demais candidatos e concentram juntos mais de 70% das intenções de voto em pesquisas recentes. No Datafolha divulgado às vésperas do debate, Lula aparecia com 39% e Flávio com 33%. Caiado tinha 5%, Renan 4% e Zema 3%.

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Para quem está na frente, entrar em um debate nessas condições significaria passar boa parte da noite servindo de alvo para candidatos que precisam desesperadamente ganhar visibilidade.

A ausência difícil de compreender foi a de Romeu Zema.

Com cerca de 3% nas pesquisas, o ex-governador de Minas precisava justamente daquele espaço para se apresentar ao eleitor brasileiro. Zema ainda é pouco conhecido nacionalmente e perdeu uma rara oportunidade de falar diretamente para milhões de eleitores.

E havia outra vantagem: dificilmente seria o principal alvo da noite. Os candidatos presentes estavam muito mais interessados em atacar Lula e Flávio Bolsonaro.

Zema poderia ter usado o debate para mostrar quem é, apresentar propostas e tentar sair do andar de baixo das pesquisas. Preferiu deixar a cadeira vazia.

Lula virou o principal adversário de quem estava no palco

Mesmo ausente, Lula esteve presente durante praticamente todo o debate.

Renan Santos e Ronaldo Caiado gastaram boa parte do tempo atacando o presidente. Flávio Bolsonaro também recebeu críticas, mas em intensidade menor.

Augusto Cury procurou adotar uma postura mais civilizada. Tentou levar algumas discussões para o campo das ideias e chegou a repreender Renan pelo nível de agressividade.

“As ideias podem ter fundamento, mas a agressividade asfixia”, disse Cury depois de Renan atacar Lula e seus eleitores.

Caiado, de quem se poderia esperar maior domínio sobre o funcionamento da máquina pública pela experiência como governador, senador e deputado, perdeu boa parte da oportunidade falando de Lula e repetindo resultados de Goiás.

Quando questionado sobre segurança pública, por exemplo, criticou a PEC da Segurança e afirmou que Lula não precisava de uma mudança constitucional porque poderia resolver a questão por medida provisória.

O problema é que segurança pública envolve competências constitucionais da União, estados e municípios. Uma medida provisória também precisa passar pelo Congresso e não pode simplesmente reescrever aquilo que a Constituição estabelece.

Caiado ainda prometeu ampliar a autonomia dos governadores na área de segurança e afirmou que, eleito, não permitiria que “um palmo” do território brasileiro permanecesse sob controle de criminosos.

Durante boa parte do debate, porém, o Brasil apareceu pouco no discurso do candidato. Goiás apareceu muito.

A impressão era de que Caiado ainda estava disputando o governo estadual, quando aquela era justamente sua oportunidade de mostrar que possui um projeto para um país continental.

Depois de governar um importante estado e passar décadas na política nacional, continua no mesmo andar de baixo das pesquisas de Romeu Zema e Renan Santos.

E perdeu uma grande oportunidade de explicar ao eleitor por que deveria sair de lá.

Renan escolheu o confronto

Se Caiado perdeu tempo atacando Lula, Renan Santos praticamente transformou o debate em uma arena.

Logo no início, caminhou até os púlpitos vazios para atacar Lula e Flávio. Depois vieram as provocações, insultos e uma sucessão de declarações agressivas.

Chamou Lula de canalha e chegou a dizer que não queria o voto de parte dos eleitores do presidente.

“O eleitor restante que apoia esse cara está sendo canalha. Canalha. Está rifando o nosso futuro e eu não quero o voto dele.”

A declaração provocou a reação de Augusto Cury, que disse estar “assombrado” com o nível de agressividade do adversário.

Renan também fez ataques pessoais à primeira-dama Janja. Em determinado momento, ironizou a ausência de Lula dizendo que o presidente teria companhias melhores no debate do que ao lado dela.

Na segurança pública, foi ainda mais longe.

Prometeu um “banho de sangue” contra integrantes de facções criminosas, afirmou que forças de segurança subiriam às comunidades dominadas pelo crime e defendeu intervenção federal em estados cujos governadores, em sua avaliação, não colaborassem no enfrentamento às organizações criminosas.

Chegou a citar nominalmente Bahia e Ceará.

Para um candidato à Presidência da República, cargo que exige capacidade de negociar com governadores, Congresso, Judiciário e governos estrangeiros, foi uma demonstração preocupante da distância entre discurso eleitoral e limites institucionais.

O Brasil não é uma rede social.

Governar um país com mais de 200 milhões de habitantes exige algo mais do que frases de efeito, ameaças e vídeos que possam viralizar no dia seguinte.

Lula e Flávio fizeram a escolha certa?

O debate acabou demonstrando que, do ponto de vista estritamente eleitoral, Lula e Flávio Bolsonaro provavelmente tomaram a decisão correta ao não participar.

Os dois lideram as pesquisas. Os candidatos presentes precisavam deles muito mais do que eles precisavam dos candidatos presentes.

Usando uma comparação futebolística, Lula e Flávio entraram nessa campanha como jogadores da seleção brasileira. Os que estavam no debate ainda jogam a várzea eleitoral.

Colocar todos em campo naquele momento significaria oferecer aos candidatos com 3%, 4% ou 5% uma oportunidade de confrontar diretamente aqueles que concentram mais de 70% das intenções de voto.

Que vantagem Lula ou Flávio teriam?

O debate deu uma pista da resposta: praticamente nenhuma.

Seriam atacados durante toda a noite e teriam pouco espaço para apresentar propostas.

Isso não significa que candidatos à Presidência não devam debater. Devem. O debate é importante para a democracia e para o eleitor conhecer quem pretende governar o país.

Mas participar continua sendo uma decisão política do candidato.

Ronaldo Caiado chegou a defender que, se eleito, trabalhará para tornar obrigatória a participação de candidatos nos debates. Renan concordou e sugeriu que poderiam construir juntos uma proposta nesse sentido.

Aí, sim, aparece uma contradição democrática.

Democracia também significa liberdade de escolha. Obrigar alguém por lei a participar de um programa organizado por uma empresa privada de comunicação parece um passo muito mais largo para fora da democracia do que simplesmente decidir não comparecer.

A história eleitoral brasileira, aliás, está cheia de candidatos que lideravam pesquisas e escolheram faltar a debates. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso recusou-se a participar e não houve debate presidencial no primeiro turno.

Quem ganhou?

Quem ganhou o primeiro debate?

Lula e Flávio Bolsonaro.

Sem sair de casa.

Quem perdeu?

A Band montou uma grande estrutura para o primeiro debate presidencial de 2026 e terminou com três púlpitos vazios e três candidatos que, somados, representam pouco mais de 10% das intenções de voto.

O eleitor que ligou a televisão esperando propostas para economia, saúde, educação, emprego, infraestrutura, relações internacionais, desenvolvimento e o futuro do país encontrou muito mais ataques do que projetos.

Augusto Cury tentou colocar alguma civilidade no palco. Caiado tinha currículo e experiência para apresentar uma alternativa, mas preferiu gastar boa parte de sua oportunidade atacando quem não estava presente. Renan transformou o espaço em palco para uma retórica agressiva que pode funcionar nas redes sociais, mas diz pouco sobre como governaria o país.

E Romeu Zema?

Talvez seja esse o caso mais curioso.

O candidato que precisava desesperadamente ser conhecido decidiu não aparecer.

Enquanto Lula e Flávio foram atacados mesmo ausentes, Zema conseguiu algo talvez ainda pior para quem disputa a Presidência: passar praticamente despercebido.

No final da noite, as cadeiras vazias de Lula e Flávio estavam politicamente ocupadas.

A de Zema continuou vazia.

Tags: Augusto CuryBanddebate da Banddebate presidencialeleição presidencialeleições 2026Flávio BolsonaroLulapolíticaPresidência da RepúblicaRenan SantosRomeu ZemaRonaldo Caiado
Geraldo Ribeiro

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