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Home Colunas

Por que os bolsonaristas odeiam tanto Paulo Freire

Por Ediel Ribeiro
18 de junho de 2026 - 07:00
em Colunas
Por que os bolsonaristas odeiam tanto Paulo Freire

Paulo Freire/Arquivo

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Rio – Paulo Reglus Freire Neves foi um educador e filósofo nascido em Recife, Pernambuco, em 1921 e reconhecido mundialmente como o Patrono da Educação Brasileira.

Seu principal trabalho foi ter desenvolvido um método de alfabetização para adultos.

Com o método Paulo Freire, em apenas 40 horas de aulas um adulto conseguia ler e escrever a partir do zero, usando palavras do cotidiano deles.

Basicamente, ele desenvolveu um método para ensinar pessoas mais velhas que não conseguiram estudar quando era jovem a ler e escrever.

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Mas então, por que ele é tão odiado pela extrema direita e pelos bolsonaristas?

Porque Paulo Freire revolucionou a pedagogia ao criar um método inovador de alfabetização de adultos que conectava o aprendizado à realidade social e ao pensamento crítico.

Durante quase toda a história do Brasil, os pobres não tinham direitos políticos.

Dom Pedro I colocou na Constituição do Brasil que só pessoas ricas, pessoas com elevado padrão de vida poderiam votar.

Mas depois que o Brasil virou uma República, ficou muito feio manter isso na Constituição.

Os governantes não queriam que os pobres participassem da política, principalmente depois que a escravidão acabou. Eles queriam que aqueles ex-escravos tivessem direitos politicos? Que eles pudessem votar? Claro que não!

Só que ficava feio colocar na Constituição que pobre não podia votar, então o que que eles fizeram? Colocaram lá que os analfabetos não podiam votar.

Naquela época, não existia ensino público no Brasil, então, as únicas pessoas que podiam se alfabetizar eram os filhos dos ricos que podiam contratar professores e ter acesso a educação.

Então, colocar na lei que só as pessoas alfabetizadas podiam votar era o mesmo que dizer que só os ricos podiam votar.

Isso durou até 1988! Acreditem, tem menos de 40 anos que pobre pode votar no Brasil. Então, quando Paulo Freire criou um método de alfabetização de adultos em que em apenas 40 horas de aula uma pessoa adulta poderia ler e escrever. Isso significava que agora o pobre poderia adquirir o seu título de eleitor e participar das eleições no país.

Paulo Freire desenvolveu o seu método de educação e foi para o sertão nordestino, para o interior do Rio Grande do Norte, onde testou o seu método com um grupo de cortadores de cana, homens e mulheres que nunca tinham tido acesso à educação.

E o método funcionou. Em 40 horas de aula, pessoas que nunca tinham entrado em uma escola, estavam lendo, escrevendo e interpretando texto. Isso assustou as autoridades porque agora pessoas pobres e simples poderiam votar.

A partir daí os alfabetizados, com certeza,  seriam eleitores de políticos que lutassem pelos direitos dos trabalhadores e não dos que defendiam direitos e privilégios dos ricos. Era tudo o que a elite não queria.

Na aula inaugural do professor Paulo Freire, onde ele apresentou para o governo brasileiro e provou para a classe dominante que o seu método funcionava, estava, entre os presentes um militar, o general Castelo Branco, que foi o primeiro presidente da Ditadura Militar no país.

Depois da aula, Castelo Branco se dirigiu ao professor e disse: “Antes, eu achava que você era subversivo, agora eu tenho certeza”.

Quando começou a ditadura militar, Paulo Freire foi preso e, na prisão, ensinou os guardas a ler e escrever. Quando foi solto, Paulo Freire fugiu do país exilando-se na Bolívia. Fora do Brasil, Paulo Freire viveu na Suíça, nos Estados Unidos, na Bolívia e no Chile, onde reestruturou a educação naquele país. Paulo Freire é tido como herói nestes e em vários outros países.

Nesse tempo, ele escreveu vários livros, entre eles a “Pedagogia do Oprimido”, seu livro mais famoso e a terceira obra mais citada em trabalhos acadêmicos de ciências sociais no mundo. A Universidade de Harvard, que é a maior universidade do mundo, tem disciplinas que estudam o educador brasileiro.

Paulo Freire é um herói mundial, menos no Brasil. Menos no país onde ele nasceu, se formou e ajudou a alfabetizar uma legião de homens e mulheres que não sabiam sequer escrever o próprio nome. 

Os suíços estudam o método Paulo Freire; os professores italianos têm aula de Paulo Freire, mas no Brasil ele foi perseguido, julgado e exilado como se ele fosse um subversivo, só porque ele ensinava gente pobre a ler e escrever.

O problema era que para os pobres, saber ler e escrever era uma ferramenta de transformação, agora eles podiam votar e participar da política. E política traz transformação, e transformação assusta quem? Assusta quem está no alto e tem medo de que quem está embaixo suba e tome o seu lugar.

Esse foi o crime de Paulo Freire: ser um bom professor. Tem menos de 30 anos que Paulo Freire morreu e muitas histórias já foram inventadas para manchar o nome dele. Muita gente alega que tem muitos motivos para odiar Paulo Freire, mas o único motivo real que existe é este: Paulo Freire foi um homem que dedicou sua vida inteira aos pobres. Ele queria que os pobres usassem a educação como ferramenta de mudança para sair do ciclo da miséria.

Quem odiava Paulo Freire eram os governantes que tiveram acesso à educação mas não queriam que os pobres em geral tivessem. Na época, 80% da população do Brasil era analfabeta.

Ainda hoje, as pessoas que dominam o país não querem que as classes baixas se eduquem. Querem mantê-los ignorantes, sem direitos políticos, sem voz. Por isso o bolsonarismo e a extrema direita são contra os livros, as faculdades públicas, a educação e contra Paulo Freire.

Paulo Freire é o brasileiro mais homenageado da história, recebendo pelo menos 35 títulos de doutor honoris causa de universidades na Europa e nas Américas.

Porque como ele mesmo dizia: “Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é se tornar o opressor”.

Tags: alfabetização de adultosEdiel Ribeiroeducação brasileirapatrono da educação brasileiraPaulo Freire legadopedagogia do oprimidopolítica e educação
Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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