Chega às livrarias uma edição ampliada de “Teatro Experimental do Negro: testemunhos e ressonâncias”, obra organizada originalmente por Abdias Nascimento em 1966 e agora recuperada pela socióloga Elisa Larkin Nascimento e pelo gestor cultural Jessé Oliveira. O lançamento marca oito décadas da criação do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado em 1944, no Rio de Janeiro.
Publicado pela Edições Sesc, em parceria com a Editora Perspectiva, o livro tem 328 páginas e foi lançado na primavera, em novembro. A nova edição amplia o alcance da obra original e reforça a importância histórica e estética do TEN no cenário cultural brasileiro.
Abdias Nascimento, que morreu em 2011, foi um intelectual múltiplo. Atuou como artista plástico, dramaturgo, ator, escritor, poeta, professor universitário, ativista do movimento negro e também na política institucional, como deputado federal e senador. Em todas essas frentes, manteve uma atuação marcada pela defesa da liberdade, da cultura afro-brasileira e da transformação social.
A publicação reúne textos de autores fundamentais do pensamento e da cultura brasileira, como o dramaturgo Nelson Rodrigues, o poeta Efrain Tomás Bó, e os cientistas sociais Guerreiro Ramos e Florestan Fernandes. A edição também traz um ensaio fotográfico de José Medeiros, com imagens em preto e branco do elenco do TEN, registrando um momento decisivo da história do teatro no país.
Protagonismo negro em cena
Criado menos de seis décadas após a abolição da escravidão, o Teatro Experimental do Negro nasceu com o propósito explícito de valorizar a herança cultural afro-brasileira e romper com a exclusão sistemática de artistas negros dos palcos. Entre 1945 e 1958, o grupo encenou mais de 20 espetáculos, reunindo textos brasileiros e estrangeiros, e revelou nomes que se tornariam referências, como Léa Garcia e Ruth de Souza.
Segundo Jessé Oliveira, o TEN representou uma ruptura profunda. “Quem definia os temas, os textos e o rumo das atuações eram as pessoas negras. O Teatro Experimental do Negro é um divisor de águas. Ele amplia o debate racial e estabelece o profissionalismo em uma companhia teatral negra”, afirma.
Para Elisa Larkin Nascimento, o TEN ocupa um lugar estratégico na história cultural do país. “Ele faz a ponte entre o teatro moderno e o contemporâneo no Brasil e apresenta uma visão da sociedade brasileira que confronta o discurso oficial e parte da intelectualidade que sustentou a ideia de ‘democracia racial’”, avalia, em referência às leituras associadas ao pensamento de Gilberto Freyre.
A nova edição tem também um caráter de preservação histórica. O objetivo, segundo as organizadoras, é evitar o apagamento da trajetória do TEN e manter vivo um legado que ainda enfrenta desconhecimento, inclusive em espaços de formação artística.
“Em escolas de teatro, muitos estudantes dizem que nunca ouviram falar do Teatro Experimental do Negro. Isso mostra como essa história ainda precisa ser contada”, lamenta Elisa.
Ao revisitar textos, imagens e reflexões, o livro evidencia como as ideias de Abdias Nascimento seguem ecoando em coletivos e práticas cênicas contemporâneas, reafirmando o teatro como espaço de disputa simbólica, afirmação identitária e enfrentamento ao racismo estrutural.





