Minas Gerais vive uma das mais graves tragédias climáticas de sua história recente, com dezenas de mortos na Zona da Mata, enquanto um dado revelado pelo jornal O Globo lança luz sobre uma escolha política que agora cobra seu preço: o governo de Romeu Zema reduziu em 96% os investimentos em infraestrutura de prevenção e enfrentamento aos impactos das chuvas entre 2023 e 2025.
Segundo a reportagem, baseada em dados oficiais do Portal da Transparência do Estado, os recursos destinados a ações relacionadas a temporais caíram de R$ 134,8 milhões em 2023 para R$ 5,8 milhões em 2025. Em 2026, até os dois primeiros meses, apenas R$ 16,1 mil haviam sido empenhados nessa área.
A apuração de O Globo considerou programas ligados ao Gabinete Militar, responsável pela Defesa Civil, e rubricas que mencionavam “chuvas”, incluindo prevenção de eventos críticos, mitigação de danos e gestão de desastres.
Os números falam por si. E surgem no exato momento em que Juiz de Fora e Ubá contabilizam mortos, desaparecidos e centenas de famílias desalojadas.
Prevenção encolhe, tragédia cresce
Os temporais recentes despejaram, em poucas horas, volume de água equivalente a quase um mês inteiro. Deslizamentos soterraram casas. Pontes foram destruídas. Ruas desapareceram sob a lama.
A reação do governo veio após a tragédia se consolidar. Foram anunciados R$ 38 milhões para Juiz de Fora e R$ 8 milhões para Ubá. Medidas emergenciais são necessárias, mas não substituem planejamento contínuo.
A pergunta que ecoa é inevitável: por que cortar quase toda a verba de prevenção em um estado historicamente vulnerável a enchentes e deslizamentos?
Até o fechamento da reportagem original de O Globo, o governo estadual não havia explicado a queda abrupta dos investimentos.
Prioridades políticas
Nos bastidores, cresce a avaliação de que o Palácio Tiradentes tem direcionado energia para outro foco: 2026. Zema intensificou agendas nacionais e articulações políticas, enquanto seu vice, Mateus Simões, percorre o estado em ritmo de pré-campanha ao governo.
O governador, por sua vez, não esconde a ambição de disputar a Presidência da República. Nos últimos meses, ampliou presença em fóruns empresariais, encontros partidários e debates de projeção nacional.
A tragédia na Zona da Mata expõe um contraste desconfortável: enquanto o discurso mira Brasília, a realidade cobra respostas em Minas.
Em coletiva, Zema afirmou ter determinado empenho total das equipes de resgate:
— “Tão logo tomamos conhecimento da gravidade das ocorrências aqui, ainda de madrugada, determinei ao coronel Rezende, nosso chefe da Defesa Civil, que empenhasse todos os esforços possíveis no sentido de tentarmos salvar o maior número de pessoas.”
A declaração ressalta a reação, mas não responde à questão central revelada pela reportagem: por que os investimentos estruturais diminuíram de forma tão acentuada?
Tragédia e responsabilidade
O governo federal reconheceu o estado de calamidade pública e enviou equipes de apoio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou solidariedade às vítimas.
Enquanto isso, bairros inteiros precisaram ser evacuados. Famílias perderam casas. Crianças estão entre os mortos.
Desastres naturais não podem ser evitados. Mas seus impactos podem ser mitigados com planejamento, contenção de encostas, drenagem adequada, monitoramento constante e investimento contínuo.
Quando a prevenção encolhe quase à zero, a conta chega — e chega pesada.
Minas pede respostas
A reportagem de O Globo joga luz sobre números oficiais que precisam ser explicados com transparência. Minas Gerais já conhece o custo de negligenciar riscos ambientais.
Em meio à dor das famílias, a sociedade mineira cobra mais do que discursos emergenciais. Cobra coerência entre orçamento e prioridade. Cobra gestão voltada para o estado — não para projetos eleitorais.
O espaço segue aberto para manifestação do governo de Minas.






