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Home Colunas

Centenário da Divina

Por Lenin Novaes
3 de fevereiro de 2020 - 08:54
em Colunas

Elizeth Cardoso, em capa de disco, ganhou o apelido carinhoso de Divina, considerada uma das principais intérpretes da MPB

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– Athaliba, nesses tempos em que algumas cantoras exibem bumbum prá lá e bumbum prá cá para exaltar suas apresentações artísticas na TV e seduzir o público em shows, fico a pensar no desempenho de interpretação que deu à Elizeth Cardoso o apelido de Divina, no contexto da MPB. Sabe, além da apelação do uso de biquínis minúsculos, tipo fio dental, tem a coreografia ostentosa da bunda fazendo “quadradinho de oito”, iluminada por canhões de luzes multicoloridas de neon, e o pior, a baixa qualidade musical. Ai, que saudades da Divina, no seu centenário.

– Marineth, os tempos são outros, realmente. Na atual conjuntura do “politicamente correto” é difícil contextualizar determinadas situações artísticas, políticas, econômicas, culturais e sociais da vida brasileira. Para driblar a censura no período da ditadura civil-militar (1964-1985) muitas vezes tive que escrever textos nas entrelinhas, usando metáforas, por exemplo. E, agora, com o Brasil governado pelo mito pés de barro, que lidera “equipe de idiotas”, como observou um dos concorrentes à Presidência da República nas eleições de 2018, boa parcela da sociedade está mais retrógrada, mergulhada numa hipocrisia que parece não ter fim.

– Athaliba, sou testemunha ocular da sua trajetória profissional. Recordo, inclusive, quando foi confrontado por um dirigente da gravadora na qual fazia assessoria e que tinha no elenco a cantora Elizeth Cardoso. Ele te questionou quando ouvia, na empresa, disco do Caetano Veloso, dizendo que o cantor e compositor era “o chefe dos mutambos da tropicália”. E ocê respondeu de pronto: “O senhor tem o livre arbítrio de julgá-lo dessa maneira, mas, o artista, além da qualidade musical, tem a sua obra engajada com as questões sociais do povo, diferentemente daqueles que cultivam o ego e são facilmente manipulados pelos gangsters da indústria fonográfica”. O diretor, após alguns segundos em silêncio, saiu da sala dizendo: “Estamos satisfeitos com seu trabalho”.

– Marineth, vamos avançar nesse capítulo. Foi na gravadora que, início da segunda metade da década de 1970, pude conhecer muito mais o trabalho da Divina. E igualmente, o da Sapoti, apelido da cantora Ângela Maria, dado pelo presidente Getúlio Vargas, e que integrava o elenco artístico, com Maysa, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Belchior e Wando, entre outros. Solicitei, inclusive, à sede em São Paulo a discografia de Elizeth Cardoso.

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– Athaliba, desculpe-me te cortar. Quero que saiba que o disco intitulado “A enluarada” era ouvido na vitrola telefunken sem parar. Principalmente a faixa “Carinhoso”, com a participação de Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana), que fez o choro-canção para sax entre 1916 e 1917, e que anos depois, em 1937, ganhou letra do Braguinha (Carlos Alberto Ferreira Braga). E, além de “Apelo”, “Canção de amor” e “Serenata do adeus”, as preferidas, ouço sempre “Medo de amar”, “Chega de saudade”, “Chão de estrelas”, “Janelas abertas”, “Modinha”, “Feitiço da vila”, “Corrente de aço” e “Naquela mesa”. Esta composição é do Sérgio Bittencourt, com quem ocê trabalhou no jornal “Correio da Manhã”, e que homenageia o pai dele, o inesquecível Jacob do Bandolim.

– Marineth, o repertório da Divina está reunido em mais de 40 discos e, creia, são muitas as músicas que ela consagrou com sua voz inimitável e interpretação inigualável. Em “A cantadeira do amor”, LP gravado em 1978, Elizeth Cardoso vai de “Deixa”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, a “Século do progresso”, de Noel Rosa, passando por “Sem você”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes; “Acontece”, de Cartola; “Mancada”, de Gilberto Gil; e “Até pensei”, de Chico Buarque de Holanda.

– Sabe, Athaliba, como eu dizia antes, a real performance do cantor está na voz. Afinal é com o gogo que expressa a mensagem da música. Não tenho preconceito contra as cantoras que seminuas exploram de forma sensual as curvas do corpo para “valorizar” a interpretação. No cenário musical tem espaço para todos, na sociedade laica, plural, miscigenada, etc. e tal.

– Marineth, com ou sem abstinência sexual?

– Athaliba, essa propaganda da pastora evangélica ministra do governante mito pés de barro na área da Mulher, Família e Direitos Humanos é uma sacanagem. A questão de fundo é a prostituição infantil, efetivamente, tolerada. Basta ver e conferir nos chamados “inferninhos” em roteiros turísticos nesse Brasil afora, como em muitas rodovias e orlas de praias do país. Por exemplo, onde a Divina nasceu, em 16/7/1920, a Rua Ceará, atualmente, dá acesso à zona de prostituição da Vila Mimosa, no Rio de Janeiro. Lá, de quando em vez, se faz ação policial para averiguar denúncia de prostituição infantil. As prostitutas estão ao deus dará, não têm assistência de saúde pública. A irmã de uma amiga, prostituta da Vila Mimosa, morreu de AIDS.

– Marineth, não vamos aprofundar esse assunto, não. Deixa quieta a Vila Mimosa entregue aos cerca de 3.000 homens e 1.500 mulheres às noites de sexta e sábado comercializando os prazeres da carne. Ocê já viu o vídeo da Divina cantando à capela “Serenata do amor”? Então veja no link: https://www.youtube.com/watch?v=g4HfBeNGw4Y.

 

Tags: DIVINAELIZETH CARDOSOMPB
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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