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Home Colunas

Causa de índio gay instiga

Por Lenin Novaes
25 de janeiro de 2021 - 07:00
em Colunas

O artista plastico Miguel Galindo criou imagem sacra de Tibira do Maranhao. (Divulgação)

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– Athaliba, a crônica Índio gay mártir será santo? provocou comentários de todo tipo. Em Itabira, a proposta de canonização de Tibira do Maranhão, vítima de homofobia, assassinado com tiro de canhão, ganhou apoiadores. Mas, também, acarretou discordância que não seja mártir de homofobia. A Mary Help, líder do Movimento LGBTi, reuniu as amigas Shelby, Tunica, Gina, Lica e Mouzalina, além das gêmeas lésbicas Francinete e Ivonete, para avaliar a inusitada proposta.

– Marineth, o que ocê sabe da discussão e qual foi a deliberação do grupo?

– Athaliba, houve impasse. As irmãs Francinete (marido de Deolinda) e Ivonete (mulher de Hermelinda) se dividiram, a exemplo da diferença da orientação sexual marcante entre elas. Na votação, ao final da calorosa discussão, Francinete acompanhou o voto de Mary Help, Shelby e Gina favorável à canonização; enquanto Ivonete seguiu os votos de Tunica, Mouzalina e Lica.

– Como esse empate será resolvido, Marineth?

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– Pois é Athaliba, ainda não foi definido quem dará o voto de minerva. No argumento em defesa do seu posicionamento, Tunica se referiu à tradição conservadora da população de Itabira do Mato Dentro, submetida às regras do TFP – Tradição, Família e Propriedade. A travesti pediu cautela. Por sua vez, Mary Help escudou-se na posição do historiador Sérgio Muricy, que é arcebispo da Igreja Celta do Brasil e adotou o nome religioso de dom Bernardo da Ressurreição. Ele afirma que “a canonização de Tibira é uma positiva provocação para ajudar na sensibilização de acolhimento da comunidade LGBTi; pois a Igreja Católica precisa evoluir no processo de respeito a todos os seres humanos, independentemente da orientação sexual”.

– Marineth, o pedido de cautela da Tunica é coerente, considerando a situação anacrônica que permeia no âmbito de Itabira, né?

– Sim, Athaliba. Ela tem razão. Defendeu que a patota deve se definir sobre a santidade de Tibira do Maranhão após o sociólogo e antropólogo Luiz Mott, professor de Universidade Federal da Bahia e fundador do Grupo Gay da Bahia, entregar à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB – a prometida petição para instaurar o ato de canonização do índio morto em 1614.

– Prudência, Marineth, é o equilíbrio da emoção. Imagina se ocê fizesse explodir um carro-bomba em Brasília e isso fosse resolver as mazelas que atravancam o país. É preciso malícia e habilidade para navegar em águas turvas, esquivando-se do sectarismo exacerbado.

– Phorra, Athaliba, há anos consumi o “Esquerdismo, doença infantil do comunismo”, livro de Vladimir Ilyich Ulianov, numa roda de leitura clandestina, no período dos anos de chumbo.

– Marineth, o Luiz Mott fez explodir uma bomba no colo da nossa sociedade conservadora, com a proposta de beatificação do índio tupinambá gay chacinado com tiro de canhão.

– É um tremendo TNT, Athaliba. Ele afirma que o frade capuchinho francês Yves d’Évreux, no livro em que relata o caso de Tibira do Maranhão, garantiu o direito do índio ser batizado e que “iria direto para o céu, apenas se sua alma se desprendesse do corpo”. E, no tal batismo cristão, Tibira foi chamado de Dimas. Diz-se na hagiografia que São Dimas é considerado o “bom ladrão”. Ele foi crucificado ao lado de Cristo que, arrependido dos erros em vida, recebeu a promessa de que ainda naquele dia estaria no paraíso.

– Marineth, sabe-se que o Evangelho fala pouco, quase nada, de São Dimas. Pela tradição, Dimas foi o “bom ladrão” e, Simas, o “mau ladrão”. E Dimas se tornou santo original, único, que mereceu a honra de ser canonizado em vida por Jesus Cristo e é celebrado em 25 de março.

– É isso mesmo, Athaliba. Para Luiz Mott reside nessa tradição o principal argumento que pode considerar o índio como santo mártir. “Assim como Dimas, o ‘bom ladrão’, foi posteriormente reconhecido como santo, o mesmo deveria ocorrer com o índio brasileiro”. Ativista da ONG Aliança LGBT+, Agripino Magalhães apoia a canonização de Tibira do Maranhão. À BBC News Brasil disse que “a eventual canonização de Tibira seria importante, pois quem se doa a uma causa, a uma luta, vira mártir, não importa se é hétero, gay ou lésbica, travesti ou transexual, binário ou não binário; sendo que o que importa é que ele foi morto, deu a vida em prol de um sentido maior”.

– Marineth, estima-se que 11 mil santos são venerados no planeta, sendo 37 na nossa pátria amada, enquanto mais de 50 candidatos a santo aguardam na fila.

– Athaliba, nesse contexto existe espaço religioso para abrigar São Tibira do Maranhão?

Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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