A Polícia Federal abriu uma nova frente de investigação envolvendo o advogado Willer Tomaz ao deflagrar a Operação Linceu, que apura suspeitas de vazamento de informações e documentos de processos em tramitação no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A operação foi realizada na segunda-feira (19) e teve como alvo Humberto Fontoura Pradera, ex-secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do STJ. A PF cumpriu um mandado de busca e apreensão no Distrito Federal, expedido pelo Supremo Tribunal Federal.
Segundo a corporação, a investigação apura se o então servidor facilitou o acesso indevido de um terceiro a informações de processos em andamento na Corte. Relatórios da investigação identificam esse terceiro como Willer Tomaz.
São investigados, em tese, os crimes de violação de sigilo funcional, peculato eletrônico, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.
Pradera havia sido exonerado pelo STJ na sexta-feira (16), três dias antes da operação. O presidente da Corte, ministro Luis Felipe Salomão, também determinou a abertura de procedimento interno para apurar o caso.
PF encontrou mensagens e documento antes da publicação
A investigação ganhou força a partir da análise de comunicações envolvendo Willer.
Segundo relatório da Polícia Federal, Pradera repassava ao advogado informações sobre demandas internas do tribunal, informava quem havia sido designado para tratar de determinados assuntos e dizia que o manteria atualizado.
Um dos episódios identificados ocorreu em outubro de 2024.
De acordo com a investigação, Pradera enviou a Willer a fotografia de uma decisão da ministra Nancy Andrighi relacionada à disputa entre J&F e Paper Excellence pelo controle da Eldorado Celulose.
A imagem teria sido enviada em 24 de outubro, quatro dias antes de a decisão ser assinada e seis dias antes da publicação oficial. A PF comparou o documento fotografado com o texto posteriormente divulgado pelo STJ.
Os investigadores também encontraram indícios de que Willer teve acesso antecipado a um parecer do Ministério Público Federal relacionado ao mesmo processo. O arquivo circulou antes de ser formalmente juntado aos autos, acompanhado da mensagem de que seria enviado ao processo em seguida.
A apuração identificou ainda outros episódios em que informações sobre processos teriam chegado antecipadamente ao advogado.
Em setembro de 2025, por exemplo, Willer teria recebido previamente um voto desfavorável em processo envolvendo o senador Weverton Rocha. Cerca de duas horas depois, as partes apresentaram pedidos de desistência dos recursos e o julgamento não ocorreu.
Willer nega irregularidades
Willer Tomaz nega ter recebido informações de forma irregular.
Em nota, afirmou que jamais teve “acesso irregular ou não autorizado” a decisões judiciais ou pareceres do Ministério Público Federal e também negou ter interferido no conteúdo de manifestações de integrantes do MPF.
A defesa sustenta ainda que advogados podem ter conhecimento antecipado de determinados julgamentos por funcionalidades disponibilizadas pelo próprio sistema do STJ.
A Polícia Federal, porém, investiga situações específicas envolvendo documentos que, segundo seus relatórios, ainda não estavam assinados ou publicados.
Pradera afirmou anteriormente que seus acessos aos sistemas da Corte eram restritos e que não possuía acesso a processos em andamento.
A Operação Linceu continua sob sigilo.
Outras investigações sobre Willer avançaram nesta semana
A operação do STJ é uma frente distinta de outras investigações que envolvem Willer Tomaz.
Em agosto, o advogado foi alvo de buscas em uma nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga lavagem de dinheiro relacionada às fraudes em descontos de aposentados e pensionistas do INSS.
Na ocasião, a PF cumpriu 18 mandados no Distrito Federal e no Maranhão para apurar movimentações financeiras consideradas atípicas e possível utilização de empresas, contas de terceiros e dinheiro em espécie para ocultar a origem e o destino dos recursos.
Material obtido nessas buscas deu origem a novas linhas de investigação.
Segundo a PF, uma conta relacionada a Willer movimentou cerca de R$ 130 milhões entre março e maio de 2025, valor que os investigadores consideraram incompatível, em princípio, com as atividades econômicas conhecidas.
Outra frente analisa operações envolvendo empresas de apostas, movimentação de recursos no exterior e a relação financeira entre Willer e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Flávio nega ter negócios conjuntos com o advogado e afirma que os dois mantêm apenas uma relação de amizade.
Sala escondida em hangar
Outro elemento da investigação veio a público nesta quarta-feira (21).
Durante as buscas realizadas em agosto, a Polícia Federal localizou uma sala protegida atrás de um painel de madeira em um hangar do Aeroporto Internacional de Brasília utilizado por empresas ligadas a Willer.
Dentro do espaço foram encontradas estantes, uma mala vazia e uma máquina de contar dinheiro. Não havia dinheiro em espécie no momento da diligência.
Segundo a investigação, uma denúncia anônima levou os agentes a retornar ao hangar depois da primeira vistoria. A PF pediu perícia para identificar quem utilizava o ambiente e verificar se valores poderiam ter sido retirados antes da segunda entrada dos agentes.
A defesa de Willer confirmou a existência da sala, mas afirmou que o espaço faz parte da estrutura destinada ao atendimento de empresas de transporte de valores que utilizam as companhias de aviação.
Segundo os advogados, malotes, máquinas contadoras e ambientes de segurança são compatíveis com essa atividade e não constituem prova de ilegalidade.
A Operação Linceu, portanto, acrescenta uma nova frente às apurações que já envolvem Willer Tomaz: além das suspeitas financeiras, a Polícia Federal agora investiga se o advogado recebeu antecipadamente informações internas de processos no Superior Tribunal de Justiça.


