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Home Colunas

Um novo olhar sobre amigos

Por Nilson Lattari
5 de junho de 2026 - 07:19
em Colunas
Um novo olhar sobre amigos

Foto: Duy Pham / Unsplash

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Amigos não se beijam, não se tocam como os outros – isso é para os formalistas. Amigos não se apertam as mãos, simplesmente – isso é para os negócios. Amigos não se olham com luminosidade no olhar – isso é para os cúmplices. Amigos não se desejam, como a comprovar para o outro o quanto se amam – isso é para os desejáveis. Amigos não se dizem palavras afetuosas e carinhosas – isso é para os amantes. Amigos não se acariciam – isso é para a família.

Amigos são entes especiais. São poucos. Um, dois, entre os pares ou talvez um homem na vida de uma mulher e uma mulher na vida de um homem. Amigos são cuidadosos nas palavras que dizem uns para os outros, como se temessem ou respeitassem uma barreira que se deve interpor entre eles para que a amizade não se desvaneça.

Está antes de tudo o respeitar, o ouvir, o calar, o observar quase psiquiátrico, psicológico. Amigos não se aconselham. Amigos passam sua experiência, seu confronto de ideias, sem nunca querer que o outro prossiga o caminho que ele trilhou ou imaginaria trilhar, mas protegem o caminhante e o acodem no tombo e não se incomodam de não ouvir o grito da vitória – ele pertence a outros. Fica para depois, porque a amizade não é ciumenta, como os habitantes do mundo comum.

Entre homens e mulheres, a amizade é mais bonita do que o amor. Porque é tênue, imperceptível. Habita entre dois mundos e não se aventura para o desconhecido, porque os amigos sabem do perigo. Ultrapassando-o, a amizade se vai, podendo ficar o amor ou a desilusão – golpes mortais para uma amizade.

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Amigos, simplesmente, se abraçam e são silenciosos, se apertam sem se agarrar. E esse abraço é mais longo porque a amizade preserva a distância. Não se tem um amigo quando ele está presente. A sua ausência, às vezes longa, é que a preserva. Ao contrário do amante, a presença física é irrelevante. O que funciona são as palavras. No telefone, prevista no e-mail, usando todas as armas, do espírito ou da matéria, torcendo na torcida da vitória que o outro lado não vai ouvir.

Amigos são como médicos: quando o paciente retorna, ele acode; quando não retorna, é porque tudo vai bem. Amigos não se cobram. Quem cobra amizade cobra algo mais do que ela.

Amigos não se pertencem; pertencem a outros. Cada um tem seu lado de vida, de problemas. Amigos se calam para si e se abrem para o outro. Amigos são ouvintes, videntes, econômicos nas palavras. Amigos, às vezes, gritam, porque alertam. Mas não se intrometem, não decidem. São furinhos na janela do confessionário. São maletas que levamos, que suscitam a curiosidade, que só nós sabemos o que há dentro delas.

Amigos são saudosos. Saudosos de boas notícias. Amigos são deuses – um para cada um. Por isso os amigos não brigam. Cada um tem o seu. Se forem de todos, não são de ninguém. São apenas desejos incontidos de alguém por outro alguém.

Amigos se escondem. Também são normais – choram, se desesperam, ficam doentes, possuem entes adoecidos entre eles. Mas aparecem na nuvem da nossa solidão e param a sua vida para nos ouvir. Nos dizem coisas como se dissessem para si mesmos, como se quisessem avisar que da outra vez elas retornarão, as palavras que foram ditas, como uma poupança que se entrega ao outro para guardar.

Amigos se desejam; felicidades para o outro. Amigos se festejam; sem um salão para dançar. Amigos brigam; sem raiva para guardar, apenas se recolhem, esperando a raiva passar como o animal de estimação que sofreu, mas sabe ser querido.

Amigos são pérolas que não precisamos polir, mas guardadas para não serem roubadas. Amigos, não se exibe como o troféu conquistado. Amigos são simplesmente amigos. Somente isso basta.

Amigos não se reúnem em comitiva, porque eles não são tantos assim. Se são tantos, não são amigos, são apenas companhia para momentos de solidão. Simplesmente, porque amigos não fazem barulho. Nem fazem barulho por nada. Eles estão no silêncio, como a consciência que acorda e diz o que acha. A consciência não envelhece e amigos também não, por isso são tão próximos.

Amigos são coisas simples e poucas. A menor quantidade é a melhor qualidade. Amigos não se encontram às pencas, porque a amizade cresce com o tempo, como o galho que fica esquecido na folhagem, que vai desabrochar a flor. Que nos dá a impressão de ser o que merece mais cuidado, o mais querido, apesar de não ser o mais belo. A flor morre, mesmo sendo bela, e o galho que a sustenta, não.

Tags: AmizadeColunascomportamentoCrônicaNilson LattariReflexãoRelações Humanassociedade
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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