A tentativa do banqueiro Daniel Vorcaro de firmar um acordo de delação premiada sofreu um duro revés nesta quarta-feira (20), após a Polícia Federal rejeitar oficialmente a proposta apresentada pela defesa do empresário investigado no escândalo envolvendo o Banco Master.
A decisão já foi comunicada aos advogados de Vorcaro e também ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator das investigações relacionadas ao caso.
Apesar da negativa da PF, a proposta ainda poderá ser analisada individualmente pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que até o momento não divulgou posicionamento oficial sobre o acordo.
Nos bastidores da investigação, a avaliação predominante entre investigadores é de que o material entregue pela defesa acrescentava pouco ao que já havia sido descoberto pela própria PF ao longo da Operação Compliance Zero.
Segundo fontes ligadas ao caso, os anexos apresentados por Vorcaro evitavam citar personagens considerados centrais dentro da estrutura investigada e preservavam pessoas próximas ao banqueiro.
A percepção dentro da investigação é de que o empresário tentava construir uma colaboração “controlada”, sem atingir nomes considerados estratégicos pelos investigadores.
A defesa chegou a entregar um pen drive contendo anexos e documentos relacionados à proposta de colaboração.
Celulares ampliaram dimensão do caso
A rejeição da delação ocorre num momento em que a perícia nos celulares apreendidos com Vorcaro começa a revelar uma dimensão ainda maior do esquema investigado.
De acordo com investigadores, apenas a análise preliminar de parte dos aparelhos já aponta indícios que ultrapassariam crimes financeiros e envolveriam corrupção, organização criminosa e até uso de uma espécie de milícia privada para monitoramento de adversários e obtenção ilegal de informações sigilosas.
A PF apreendeu mais de oito celulares ligados ao banqueiro.
As investigações apontam que o grupo utilizaria empresas, operadores financeiros e estruturas paralelas para ocultação patrimonial, movimentações suspeitas e articulações políticas.
Mudança de cela aumenta pressão
Em mais um sinal de endurecimento da situação do banqueiro, a PF determinou nesta terça-feira (19) a transferência de Vorcaro para uma cela comum na Superintendência da Polícia Federal em Brasília.
Até então, ele permanecia em uma sala adaptada nos moldes de “Estado-maior”, espaço semelhante ao utilizado para custodiar o ex-presidente Jair Bolsonaro entre novembro de 2025 e janeiro deste ano.
Com a transferência, Vorcaro passa a seguir as regras internas normais da unidade prisional, inclusive em relação às visitas.
Tentativa de colaboração começou em março
O movimento para tentar negociar a delação começou oficialmente em março, logo após a transferência de Vorcaro da Penitenciária Federal de Brasília para a sede da PF na capital federal.
Na ocasião, os advogados do banqueiro procuraram investigadores demonstrando interesse em colaborar.
Pouco depois, Vorcaro assinou um termo de confidencialidade que abriu caminho para as negociações formais.
Segundo informações reveladas pela jornalista Andréia Sadi, um dos focos da negociação envolvia devolução de recursos e comprovação de eventuais atos praticados por autoridades eventualmente citadas no esquema.
Caso ganhou dimensão política
O escândalo envolvendo Daniel Vorcaro ganhou forte repercussão política nas últimas semanas após a divulgação de mensagens trocadas com o senador Flávio Bolsonaro.
As conversas reveladas pelo site The Intercept Brasil mostraram pedidos de recursos para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
O caso também levou o ministro Flávio Dino a abrir apuração preliminar sobre o envio de emendas parlamentares para ONGs ligadas à produtora do longa.
Agora, com a rejeição da delação pela PF, investigadores avaliam que Vorcaro perde uma das principais oportunidades de tentar reduzir sua situação penal no caso.





