A dimensão da tragédia que atingiu o Nepal continua aumentando. Dois dias depois da gigantesca enxurrada que devastou comunidades próximas à fronteira com o Tibete, 579 pessoas já morreram no território nepalês e 1.924 continuam desaparecidas, segundo os balanços mais recentes divulgados nesta sexta-feira (28).
No lado chinês da fronteira, autoridades informam pelo menos cinco mortos e 558 desaparecidos no Tibete. Com isso, o desastre já deixou ao menos 584 mortos nos dois países, enquanto milhares de pessoas ainda não foram localizadas.
Os números permanecem provisórios e vêm sofrendo grandes alterações à medida que as autoridades conseguem chegar às regiões atingidas e consolidar informações sobre moradores, trabalhadores e turistas.
Mais de 90 mil pessoas foram afetadas, segundo estimativa da Cruz Vermelha. Milhares foram retiradas das áreas atingidas e helicópteros continuam sendo utilizados para chegar a comunidades isoladas.
A operação de resgate ganhou um novo elemento de preocupação nesta sexta-feira. Um lago formado após o desastre começou a transbordar, provocando temor de uma segunda grande enxurrada.
As buscas chegaram a ser interrompidas por aproximadamente três horas e moradores de áreas próximas aos rios foram orientados a procurar terrenos mais elevados. Depois que o risco foi considerado administrável, Nepal e China retomaram as operações. Outros lagos formados na região continuam sendo monitorados.
Parede de água, pedras e lama desceu pelo Himalaia
A catástrofe começou na manhã de quarta-feira (26), quando um colapso envolvendo gelo e rochas em uma região montanhosa do Himalaia desencadeou uma gigantesca enxurrada.
Uma massa de água, gelo, pedras e lama avançou pelos sistemas fluviais da região, atingindo principalmente o distrito de Rasuwa, no norte do Nepal, próximo à fronteira chinesa.
A corrente avançou pelos rios Bhote Koshi e Trishuli e destruiu comunidades inteiras. Casas foram soterradas ou arrastadas, veículos desapareceram e estradas e pontes foram destruídas. Imagens de satélite e vídeos registrados durante o desastre mostram a dimensão da área devastada.
A força da enxurrada levou destruição por dezenas de quilômetros rio abaixo, dificultando inclusive a localização das vítimas.
A dimensão dos danos à infraestrutura também representa um dos principais obstáculos às equipes de emergência. Estradas foram interrompidas e pontes desapareceram, deixando comunidades praticamente inacessíveis por terra.
Centenas de estrangeiros continuam desaparecidos
A tragédia atingiu uma região bastante frequentada por turistas estrangeiros, especialmente praticantes de trekking e viajantes que percorrem as rotas entre Nepal e Tibete.
Um balanço divulgado nesta sexta-feira pelo governo nepalês contabilizava 632 estrangeiros inicialmente relacionados entre os atingidos. Desse grupo, 121 haviam sido encontrados e 511 permaneciam desaparecidos naquele levantamento.
Entre os estrangeiros ainda não localizados estavam cidadãos da Índia, Estados Unidos, China, Ucrânia, Malásia, Austrália, Reino Unido, Canadá e diversos outros países.
A lista oficial divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores do Nepal apontava, entre outros, 93 indianos, 84 chineses, 66 norte-americanos, 53 ucranianos, 51 malaios, 35 australianos e 33 britânicos ainda desaparecidos.
O número total de desaparecidos é muito maior porque inclui moradores, trabalhadores, integrantes das forças de segurança e outras pessoas que estavam nas regiões atingidas.
Esperança de encontrar sobreviventes
Apesar do tempo transcorrido desde a enxurrada, as autoridades nepalesas afirmam que ainda trabalham com a possibilidade de encontrar pessoas vivas.
Milhares de policiais, militares e integrantes das equipes de emergência estão mobilizados. Helicópteros são utilizados tanto para procurar sobreviventes quanto para retirar feridos e levar alimentos, água e medicamentos às comunidades isoladas.
Nesta sexta-feira, equipes conseguiram retirar centenas de pessoas que estavam presas em um túnel de um projeto hidrelétrico no Alto Trishuli, um dos episódios que mantêm a expectativa de novos resgates. A rádio estatal nepalesa informou que 350 pessoas foram retiradas vivas do local.
O trabalho também se concentra na recuperação e identificação dos corpos. A quantidade de vítimas e a dificuldade de acesso às regiões mais atingidas fazem com que o balanço continue sendo atualizado ao longo do dia.
Risco ainda não terminou
A preocupação agora não se limita às buscas.
O material deslocado pelo colapso represou cursos d’água e criou lagos temporários nas montanhas. Um deles começou a transbordar nesta sexta-feira, fazendo o nível dos rios voltar a subir.
O episódio provocou pânico em algumas comunidades e levou moradores a procurar áreas mais altas.
As autoridades continuam monitorando pelo menos outros pontos de represamento e alertaram equipes de resgate e moradores para permanecerem preparados para novas evacuações.
A tragédia já é considerada o pior desastre natural enfrentado pelo Nepal desde o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas.
Com quase 2 mil pessoas ainda desaparecidas somente no Nepal, porém, a dimensão definitiva da catástrofe ainda está longe de ser conhecida.


