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Home Colunas

Revolta das Barcas

Por Lenin Novaes
29 de maio de 2024 - 12:57
em Colunas

Embarcações e a estação das barcas em Niterói  destruídas por incêndio, em confronto sangrento entre fuzileiros navais e passageiros.

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– Marineth, a questão de fundo de jornais ter manchetado como Revolta das Barcas o caso que causou a morte de seis pessoas e ferimento em mais de 100 foi o conflito Trabalho x Capital. Fez 65 anos a ocorrência daquele fato, 22 de maio de 1959, na Praça Martim Afonso – atual Praça Arariboia -, em Niterói. Trabalhadores deflagraram greve contra o arrocho salarial, por melhor condição de trabalho e em adesão à população que exigia melhor transporte hidroviário.

– Tô sabendo do trágico caso, Athaliba. Tenho amiga nativa de lá. Ela diz que “Niterói é um ovinho e todos se conhecem”. Inclusive, além de detalhes daquele caso, contou-me fato inusitado em que um atleta fora comemorar a despedida de solteiro na zona do baixo meretrício e deu de cara com a noiva, que lá trabalhava como prostituta. Quer saber como terminou o caso?

– Phorra, Marineth, tô cortando a tua fala, no momento, pois quero discorrer com ocê sobre episódio sinistro que marcou a história de Niterói. Até parte da imprensa, em declarado elogio à população, chamou Niterói de “pequena Bastilha”. Ora, como sabemos, a Bastilha foi uma grande prisão símbolo do antigo regime da França, derrubada em 14 de julho de 1789. Considera-se que o evento deu início à Revolução Francesa.

– Athaliba, é possível que aquela parte da imprensa tenha instituído paralelo com a queda da Bastilha na expectativa que a revolta popular se alastrasse em luta por transformações sociais e políticas no Brasil, como aconteceu na França. Em Niterói, a revolta se deu devido à ação brutal dos fuzileiros navais em reprimir a manifestação, na defesa do negócio da família que explorava o serviço de transporte das barcas. Isso, com o aval da autoridade que concedeu a concessão. 

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– Marineth, foi isso que ocorreu. É assim o histórico das instituições das forças armadas em defender os oligopólios comerciais e financeiros nas mãos da elite dominante do Brasil. Fuzileiros navais agrediram passageiros a coronhadas e dispararam rajadas de tiros de metralhadoras para o alto, na tentativa de organizar filas para embarque em apenas duas barcas. A truculência dos fuzileiros desencadeou agitação generalizada, com tiro, porrada e bomba pra todo lado.

– Daí, Athaliba, começou o quebra-quebra das barcas. E toda a frota de embarcações foi destruída, assim como o mobiliário da estação. Indignados, revoltosos depredaram as mansões da família Carreteiro – exploradora da concessão do transporte hidroviário -, na Alameda São Boaventura, no Bairro Fonseca. Numa das paredes foi deixada a seguinte pichação política: “Aqui jazem as fortunas do Grupo Carreteiro, acumuladas com o sacrifício do povo”.

– Marineth, a travessia hidroviária, depois da manifestação da população, passou a ser feita de forma estatal, através da Companhia de Navegação do Estado do Rio de Janeiro – CONERJ -, até 1998. Ocê sabia que a exploração da travessia entre Rio e Niterói pelo sistema hidroviário teve início em 14 de outubro de 1835, através de decreto do imperador D. Pedro II? O serviço das barcas foi inaugurado pela Companhia de Navegação de Nictheroy.

– Sei sim, Athaliba. Esse serviço foi explorado no período daquela data até 1959, inclusive por capital estrangeiro. A empresa Nictheroy explorou o serviço por 10 anos, seguida da empresa Inhomirim, da Ferry e da Frota Carioca S.A. O transporte hidroviário pela Baía de Guanabara, ligando as duas cidades, foi único até 1974, quando se inaugurou a Ponte Rio-Niterói. Na ocasião da Revolta das Barcas eram mais de quatro mil trabalhadores na execução do serviço, atendendo cerca de 100 mil passageiros por dia, em viagem que – pasme!!! – durava até quatro horas.

– Isso mesmo, Marineth. Esse sistema de transporte vive em constante crise. Atualmente, por exemplo, existe a proposta de nova licitação para a exploração do serviço, devido à ameaça da CCR Barcas, a concessionária, em desistir do contrato. A direção da empresa alega prejuízos, como tem sido o hábito de todas as empresas que exploram o lucrativo serviço.

– Athaliba, outra questão é o fato da ALERJ – Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro -, em junho de 2018, ter aprovado lei que até hoje não é cumprida. A lei determina a inclusão da oferta de tarifa social na linha Charitas-Praça XV, que oferece apenas serviço seletivo a passagem no valor de R$ 17,60. Verdadeiro absurdo, em total desrespeito à população.

– Marineth, em geral, privatização de serviço público é negócio pra locupletar quem permite e quem explora a concessão. Os usuários são explorados com tarifa abusiva e péssima qualidade do serviço, dividindo o espaço nos transportes até com animais peçonhentos. E trem doido!!!

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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