A passagem de Flávio Bolsonaro pela Argentina antes de seguir para os Estados Unidos provocou reação de parlamentares argentinos, que passaram a cobrar explicações do governo de Javier Milei e a pedir investigação sobre as circunstâncias que permitiram a entrada e a rápida saída do senador brasileiro.
As cobranças ganharam força depois que a própria Direção Nacional de Migrações da Argentina confirmou que Flávio, a mulher Fernanda e as duas filhas cruzaram a Ponte Internacional Tancredo Neves às 22h50 de terça-feira (27).
Segundo o órgão, os quatro apresentaram documentação válida e não havia, nos sistemas argentinos, impedimento legal para que entrassem no país.
Às 23h30, apenas 40 minutos depois de cruzar a fronteira, a família embarcou em um voo privado da Baires Fly com destino a Guayaquil, no Equador. O avião posteriormente seguiu para Miami, onde Flávio desembarcou nesta quarta-feira.
O problema levantado pela oposição argentina é que, naquele momento, Flávio já havia recebido ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para entregar seus passaportes e não deixar o território brasileiro.
Deputada apresenta denúncia criminal
Uma das reações mais duras partiu da deputada nacional Marcela Pagano, ex-aliada de Milei.
Pagano apresentou uma denúncia criminal à Justiça Federal de Puerto Iguazú para investigar a entrada de Flávio na Argentina e sua posterior viagem em avião particular.
A parlamentar pediu que sejam preservadas as imagens das câmeras instaladas na ponte internacional e no aeroporto, os planos de voo, a lista de passageiros e o contrato do voo fretado.
Também solicitou a investigação de eventuais responsabilidades de funcionários públicos.
“A fronteira argentina não é um corredor VIP para ninguém. A soberania não se negocia nem se empresta”, escreveu a deputada.
Pagano também questionou diretamente a atuação das autoridades:
“Se entrou, alguém o deixou entrar. Se tentaram tirá-lo por um aeroporto federal, alguém olhou para o outro lado.”
A denúncia havia sido apresentada antes mesmo de o governo argentino reconhecer oficialmente que Flávio e a família haviam cruzado a fronteira.
Deputado pede informações ao governo Milei
O deputado socialista Esteban Paulón seguiu pelo caminho institucional e protocolou na Câmara dos Deputados argentina um pedido formal de informações ao Poder Executivo.
“Merecemos uma explicação sobre a fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil, via Argentina”, afirmou.
Paulón quer saber se existiam registros de entrada e saída de Flávio e se o governo argentino havia recebido alguma comunicação das autoridades brasileiras sobre restrições de viagem, retenção de documentos ou medidas judiciais envolvendo o senador.
Depois da confirmação de que Flávio efetivamente passou pelo país, o deputado voltou a questionar:
“O governo argentino teve algo a ver com o fugitivo Flávio Bolsonaro?”
O parlamentar afirmou ainda que o episódio pode afetar a relação diplomática entre Argentina e Brasil.
Senadora cobra explicações do governo
A senadora Juliana Di Tullio, do Partido Justicialista, também direcionou a cobrança ao governo Milei.
“O governo argentino, por meio de Diego Santilli, deve explicar se Bolsonaro utilizou nossa fronteira e nosso território para fugir do Brasil”, afirmou.
A deputada Myriam Bregman, da Frente de Esquerda, foi além e afirmou que as autoridades máximas do governo precisam esclarecer se houve colaboração.
“É evidente que Milei colaborou”, declarou Bregman ao comentar a passagem do senador pela Argentina.
A parlamentar também questionou publicamente se Flávio recebeu proteção política de aliados ideológicos na Argentina e nos Estados Unidos.
Governo primeiro negou entrada de Flávio
Parte da pressão política decorre das informações contraditórias divulgadas pelo próprio governo argentino ao longo de terça-feira.
Durante o dia, a Presidência e autoridades migratórias afirmaram que Flávio não havia entrado na Argentina.
Fabián Fernández, secretário de Comunicação e Imprensa de Milei, chegou a afirmar:
“É falso. Não houve nenhuma entrada nem de Bolsonaro nem de sua família.”
O governo também negou qualquer participação numa eventual operação para retirar Flávio do Brasil.
“Não temos nada a ver”, disseram fontes oficiais da Casa Rosada.
Horas depois, a situação mudou.
Às 2h01 desta quarta-feira, a Direção Nacional de Migrações divulgou comunicado confirmando oficialmente que Flávio, a mulher e as filhas haviam entrado na Argentina às 22h50 e embarcado para o Equador às 23h30.
A explicação oficial é que Flávio apresentou documentação válida para entrar na Argentina e não havia no sistema argentino qualquer restrição contra ele.
O comunicado não informou qual documento foi utilizado. Brasileiros podem viajar para países do Mercosul utilizando documento de identidade, sem necessidade de apresentar passaporte.
Presença de assessor de Milei aumenta cobranças
Outro elemento passou a alimentar os questionamentos da oposição.
O estrategista político Santiago Caputo, um dos principais integrantes do círculo político de Milei, estava na província de Misiones no momento em que o avião utilizado por Flávio deixou Puerto Iguazú.
A presença de Caputo foi confirmada por fontes do governo argentino. Até agora, porém, não foi apresentada prova de que ele tenha participado da operação ou tido contato com Flávio.
O governo Milei continua negando ter colaborado com a saída do senador brasileiro.
Ex-embaixador fala em episódio “delitivo”
As críticas não ficaram restritas à atual oposição parlamentar.
O ex-embaixador argentino no Brasil Diego Guelar classificou o episódio como um “episódio aduaneiro delitivo triste” e afirmou que a situação deixa um “sabor amargo” depois das eleições brasileiras.
Guelar disse que precisam ser esclarecidas as comunicações e os procedimentos que permitiram a passagem de Flávio pela Argentina.
Entrada era legal para Argentina, saída era proibida pelo Brasil
A questão jurídica agora envolve regras de dois países.
Para as autoridades argentinas, Flávio entrou com documentação considerada válida e não havia ordem registrada que impedisse sua entrada ou saída da Argentina.
No Brasil, entretanto, o senador havia sido expressamente proibido pelo STF de deixar o território nacional.
A Polícia Federal também já havia determinado o cancelamento de seus passaportes brasileiros depois que ele não cumpriu o prazo para entregá-los.
É justamente essa diferença que a oposição argentina quer esclarecer: se as autoridades do país simplesmente processaram uma entrada que aparecia como regular nos sistemas locais ou se receberam informações sobre a restrição brasileira e, mesmo assim, facilitaram o deslocamento.
A denúncia apresentada por Marcela Pagano e o pedido de informações de Esteban Paulón deverão agora buscar documentos, registros de fronteira, imagens e dados do voo.
Até o momento, não existe comprovação de que Javier Milei ou integrantes de seu governo tenham organizado a passagem de Flávio pelo país. A Casa Rosada nega participação.
O que já está documentado é que o senador cruzou oficialmente a fronteira argentina, foi transportado até Puerto Iguazú e embarcou para fora do país menos de uma hora depois, enquanto no Brasil estava submetido a uma ordem judicial que o impedia de viajar.

