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Home Colunas

O azul que vem do infinito

Por Lenin Novaes
26 de setembro de 2022 - 12:32
em Colunas

Arte do tema enredo da Portela para o Carnaval de 2023. Divulgação

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“Hoje eu estou cheio de alegria/E sou até capaz de me embriagar/

Uns amigos bambas nesse dia/Me convidaram a participar/

De uma escola de samba que é todo meu dengo/

De um terreiro de bambas que é meu mal/Vou me mudar da tristeza/

E morar na beleza do seu carnaval/Quero existir nesse azul/Repousar nesse branco/

Portela sou franco em dizer/Que em matéria de samba/O meu sonho de bamba/

Era mesmo você/Pois se o azul é poesia/E se o branco é a paz/

Minha Portela querida/Um poeta da vida o que vai querer mais”.

– Marineth, lembrei-me do samba “Sonho de Bamba”, do saudoso João Nogueira, ao saber do enredo O azul que vem do infinito, que a Portela levará para o desfile de 2023, ano do seu centenário de fundação. Era início da década 1970 e vibrei, assim como toda plateia, com o show E lá vou eu, título do primeiro disco daquele que se tornaria um dos mais renomados artistas da nossa cultura popular. Cá com meus botões, pensei: como João Nogueira será representado no desfile? Afinal, ele e Paulo César Pinheiro, junto com figuras expoentes da agremiação, como Tia Vicentina e Nézio Nascimento, respectivamente, irmã e filho de Natalino do Nascimento, o Natal da Portela, influente contraventor do jogo-do-bicho à época, meteram o pé e criaram a Tradição.

– Athaliba, ocê já se esqueceu da observação do seu parceiro José Louzeiro, que lhe disse que “herói não tem defeito”, quando escreveram Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares? Pois então, o caso João Nogueira, assim como de outros dissidentes, entre eles Candeia, Wilson Moreira, Paulinho da Viola e Zé Kéti, que fundaram o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, não serão aludidos no desfile. Passará em branco o atrito com Paulo Benjamim de Oliveira, o Paulo da Portela. Ninguém expõe feridas cicatrizadas.

– Tem razão, Marineth. Até porque a trajetória da Portela, desde o início, é marcada por desentendimentos entre diretorias e sambistas. E, diga-se de passagem, isso não é privilégio da agremiação azul e branco. Cores sugeridas por Antônio Caetano, um dos fundadores, em alusão ao manto de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da escola. Também ele escolheu a águia como símbolo, por sua imponência e por voar mais alto. No entanto, a quem afirma que Caetano teria escolhido a ave condor como símbolo, mas, as pessoas a interpretaram como águia.

– Athaliba, o que não se duvida é que um dos principais destaques do desfile será o Paulo da Portela, né?

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– Pode apostar que sim, Marineth. É como pule garantida em apostas de corrida de cavalo, como dizem apostadores, ao cravar no animal favoritíssimo do páreo. Com a mais pura certeza, o casal de carnavalescos Renato e Márcia Lage irá distinguir com relevância o principal articulador da agremiação. Aliás, quando o saudoso jornalista e amigo Jarbas Domingos Vaz me levou para ser assessor de imprensa da agremiação, na gestão Nilo Figueiredo, testemunhei o quanto ele é personagem respeitado e admirado. Principalmente nos bate-papos com o Carlos Montes, pai da cantora Marisa Montes, e o Hildmar Diniz, o Monarco, memorável portelense de quatro costados.

– Athaliba, não faltará ao Renato e a Márcia figuras históricas da escola para arremessar no desfile. É só mergulhar de cabeça no “Foi um rio que passou em minha vida”, samba do meu ídolo Paulinho da Viola, referindo-se à Portela. São inúmeros os personagens símbolos, como a Clara Nunes, além de sambas dedicados à escola e temas consagrados que deram à agremiação vários títulos.

– Marineth, a expectativa é que a Portela vai passar pelo sambódromo deixando saudade, levando milhares de expectadores ao delírio. Causando pitiatismo e até grito de que “é campeã”. Isso é notório, devido ao imenso e inesgotável conteúdo de qualidade que possui para explorar no desfile. No entanto, amiga, não devemos precipitar o que tá por vir. Já vi favoritismo despencar de pedestal e rolar ladeira abaixo em lágrimas, em desfiles de escolas de samba. Assim, também, como no futebol e, pasme, até na política. As escolas concorrentes que disputam o título são osso duro de roer. Não dá para subestimar. Vamos aguardar o que reserva a quarta-feira de cinzas.

– Athaliba, é imenso o desafio para os carnavalescos. Eles farão de tudo para realizar um desfile impecável, almejando o azul na imensidão do infinito. Tendo no horizonte o “Passado de glória”, samba de Monarco que sentencia: “Se for falar da Portela, hoje não vou terminar”.

Tags: ColunaLenin Novaes
Lenin Novaes

Lenin Novaes

Crônicas do Athaliba LENIN NOVAES jornalista e produtor cultural. É co-autor do livro Cantando para não enlouquecer, biografia da cantora Elza Soares, com José Louzeiro. Criou e promoveu o Concurso Nacional de Poesia para jornalistas, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade. É um dos coordenadores do Festival de Choro do Rio, realizado pelo Museu da Imagem e do Som - MIS

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