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Home Colunas

NELSON RODRIGUES: POLÊMICO, OBSCENO E GENIAL

Por Ediel Ribeiro
3 de dezembro de 2021 - 09:51
em Colunas

Todo dia é dia de relembrar Nelson Rodrigues. No mês de aniversário de 41 anos da morte do dramaturgo, o livro “O Anjo Pornografico” (Companhia das Letras - 460 págs.), de Ruy Castro é leitura obrigatória (Foto: Divulgação)

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“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.” (Nelson Rodrigues)

Rio – Meu primeiro desenho publicado na imprensa, foi uma caricatura do escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, em um jornalzinho do Sesc.
Desde jovem, eu já era fã de Nelson Rodrigues. Naquela época, todo mundo amava ou odiava Nelson Rodrigues.

Nelson Falcão Rodrigues nasceu no Recife, no dia 23 de agosto de 1912.  Quinto filho de uma família de catorze. Quando tinha três anos, seu pai, o jornalista Mário Rodrigues, veio tentar a sorte no Rio de Janeiro, então capital da República. 

Sem dinheiro, Mário, junto com a esposa Maria Esther e os seis primeiros filhos ficaram hospedados na casa do poeta e amigo Olegário Mariano, na Rua Alegre, em Aldeia Campista, na Zona Norte carioca. 

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As tensões morais, sociais e políticas da capital serviram como fonte de inspiração para o autor construir sua obra. 

Nélson começou no jornalismo aos 13 anos, em 1925, como repórter de polícia em  ‘A Manhã’, jornal fundado por seu pai, Mário Rodrigues.

Em 1929, tendo perdido “A Manhã” para seu sócio, Mário Rodrigues lança  o jornal “Crítica”, onde trabalhavam, além de Mário Rodrigues, os filhos Roberto Rodrigues, Milton Rodrigues, Mário Filho, Nelson Rodrigues e Joffre Rodrigues. O jornal seria palco da primeira grande tragédia que acometeria a família: o assassinato de Roberto, ilustrador do jornal e filho de Mário.

O assassinato de Roberto – morto a tiros por uma socialite que pretendia matar seu pai -, em 1936, marcou profundamente a trajetória da família. Mário Rodrigues, inconformado por seu filho ter sido morto em seu lugar, passou a exagerar na bebida e, em pouco mais de dois meses, morreu.

Com a morte de Mário, Milton e Mário Filho assumiram o jornal. Passados poucos meses,  com a vitória de Getúlio Vargas, na Revolução de 30, o “Crítica” foi fechado pela polícia, por ordens do ditador.

As tragédias se sucediam: a tuberculose de Nelson – que chegou a ser internado duas vezes – e a morte de Joffre, irmão mais próximo de Nelson,  aos 21 anos, também devido à tuberculose, abateram ainda mais o clã. 

Em trecho de suas “Memórias”, Nelson escreve: “eu e toda minha família conhecemos uma miséria que só tem equivalente nos retirantes de Portinari”. 

Lado a lado com o teatro, o jornalismo foi para Nelson um ambiente privilegiado de expressão. Em 1936, Mário Filho se tornou sócio do “Jornal dos Sports” e Nelson passou a fazer contribuições sobre futebol. Daí para frente, trabalhou em diversos veículos, como “Correio da Manhã”, “O Jornal”, “Última Hora”, “Manchete Esportiva” e “Jornal do Brasil”, entre outros. 

O jornalista escreveu – batendo à máquina com apenas dois dedos – crônicas, contos, crônicas esportivas, artigos opinativos e peças de teatro. Entre as criaturas saídas da imaginação do cronista, ganharam notoriedade: a ‘Cabra Vadia’, a ‘Vaca Premiada’, a ‘Grã-fina de Narinas de Cadáver’, a ‘Aluna de Psicologia da PUC’, o ‘Padre de Passeata’, a ‘Freira de Minissaia’, o ‘Urubu de Allan Poe’, o ‘Tubarão de Piscina’, o ‘Brasileiro Sentado na Sarjeta Chorando Lágrimas de Esguicho’, o ‘Milionário Paulista’, o ‘Palhares’, o ‘Fantasma de 66’ e muitos outros.

Em 1931, Nelson se transferiu para ‘O Globo’, com os irmãos Mário Filho — que se tornou editor de Esportes do jornal — e Joffre Rodrigues. Iniciou no jornal de Roberto Marinho, as crônicas de costumes – as célebres “Confissões de Nelson Rodrigues” – que passaram a ser ilustradas por Marcelo Monteiro. O ilustrador havia feito a capa de um livro para Paulo Rodrigues, que assinava n´O Globo a coluna “Se a Cidade Contasse”. Foi  Paulo, irmão de Nelson, que sugeriu o nome de Marcelo para o jornal.

Dali em diante, o ilustrador foi responsável por traduzir em imagens os textos do próprio Paulo e seu irmão Nelson. Pelos traços de Marcelinho, personagens célebres do autor de “Vestido de Noiva” ganharam corpo. 

O jornalista saiu de ‘O Globo’, em 1945, e foi para os Diários Associados, assinando com o pseudônimo Suzana Flag as crônicas: “Meu destino é pecar”, “Escravas do amor” e “Núpcias de fogo”, entre outras. 

Teve ainda uma passagem pela “Última Hora”, de Samuel Wainer, inicialmente como Suzana Flag e, depois, com o seu nome real, escrevendo “A vida como ela é”, uma  coluna diária. Voltou à redação de ‘O Globo’ em 1962, onde ficou até sua morte, em 21 de dezembro de 1980. 

Apaixonado pelo futebol, nesta segunda fase, Nelson, por influência e orientação do irmão, Mário Filho, trocou a reportagem policial pela seção de Esporte, onde escreveu as seções: “À sombra das chuteiras imortais” e “Meu personagem da semana”. 

Em suas crônicas diárias, Nélson criou personagens célebres. De seus textos, transbordava a paixão pelo Fluminense. De seu amor pelo tricolor, por exemplo, nasceram o ‘Sobrenatural de Almeida’, responsável por todas as derrotas do seu time, e o ‘Gravatinha’, que sempre dava uma ajuda nas vitórias. 

Algum tempo depois, Nelson levou ‘A Vida Como Ela É’ para o jornal ‘O Dia’. A coluna  saía aos domingos, na revista ‘Tudo de Bom!’, e passou a ser ilustrada pelo cartunista Hippertt.

Hippertt disse: “Tive a oportunidade de ilustrar por um tempo alguns contos e crônicas de Nelson Rodrigues. Já conhecia Nelson de outros carnavais, mas confesso que ler suas histórias semanalmente, antes de ser publicado, era um enorme prazer. Uma das características que mais me chamava a atenção, era a escolha a dedo que ele fazia para dar nome a seus personagens.”

Escritor e teatrólogo brilhante, Nelson Rodrigues tinha sensibilidade e inteligência. Além dos romances, contos e crônicas, deixou como legado 17 peças. Era um autor desconcertante: seu teatro chocou plateias, provocando não apenas admiração, mas também ressentimento. Nelson mexia com o público, irritava, fazia pensar, rir e chorar. 

Com uma capacidade de trabalho invejável, Nelson ainda fez história na televisão brasileira. Participou da seminal “Resenha Facit” mesa-redonda, com comentaristas como Luiz Mendes e João Saldanha.

O prestígio alcançado pelo reconhecimento de seu talento não o livrou de contestações e perseguições. Por seu temperamento genioso, irônico e anticomunista, Nelson Rodrigues foi escolhido pela patota do jornal “O Pasquim” como símbolo reacionário e representante máximo da execrável direita inteligente. 

Por sua vez, sob o rótulo de “Esquerda Festiva”, Nelson alfinetava os jornalistas e cartunistas  do tablóide, que contestavam o regime e era considerado o jornal dos presos políticos e exilados e que se auto-proclamava  “Um jornal a favor dos que são contra”. 

As crônicas do jornalista eram vistas por Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral (o pai), Ziraldo, Millôr, Henfil, Nani e outros, como um pedido para que a polícia prendesse jornalistas de esquerda. 

Até que, em 1972, por ironia do destino, seu filho Nelson Rodrigues Filho –  julgado por atos contra a Segurança Nacional – , o Nelsinho, foi preso, torturado e condenado a mais de 70 anos de prisão. Um drama pessoal  que colocou “O Pasquim” e Nelson Rodrigues do mesmo lado da trincheira. 

No final da vida, Nelson já bastante debilitado sofreu um aneurisma que lhe tirou a vida. Nelson Rodrigues que deixou seis filhos: Jofre, Nelson, Maria Lucia, Paulo César, Sonia e Daniela, morreu no dia 21 de dezembro de 1980. 

Foi enterrado com a bandeira do Fluminense. 

Ediel Ribeiro

Ediel Ribeiro

"Coluna do Ediel" Ediel Ribeiro é carioca. Jornalista, cartunista e escritor. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) do romance "Sonhos são Azuis". É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG). Autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty" publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ) e Editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!". O autor mora atualmente no Rio de Janeiro, entre um bar e outro.

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