Na política, há momentos em que o cálculo precisa ser perfeito. Um movimento feito alguns dias antes ou alguns dias depois pode mudar completamente o rumo de uma eleição. Marcelo Aro descobriu isso da forma mais dura.
Poucos políticos mineiros entraram em 2026 com tanto poder quanto ele.
Secretário de Governo de Romeu Zema, Aro comandava a principal ponte entre o Palácio Tiradentes, a Assembleia Legislativa, os prefeitos e os partidos aliados. Era um dos homens mais influentes do governo, indicou centenas de cargos, administrava uma ampla estrutura política e era tratado como um dos principais estrategistas eleitorais de Minas Gerais.
Foi exatamente dessa posição privilegiada que decidiu sair.
Sua justificativa era conhecida: a entrada do senador Carlos Viana no PSD teria inviabilizado seu projeto de disputar o Senado, embora Mateus Simões sempre tenha sustentado que o compromisso político do governo permanecia com Aro. Mesmo assim, Marcelo Aro rompeu com Mateus Simões e passou a trabalhar uma candidatura própria ao Governo de Minas.
Naquele momento, a estratégia parecia perfeita.
Aro imaginava reunir em torno de si um amplo bloco de centro-direita, capaz de enfrentar o candidato do governo. O Progressistas estava sob sua influência política, a federação formada com o União Brasil caminhava na mesma direção, o Republicanos dialogava com esse projeto e outras legendas acompanhavam o movimento.
Era uma aposta de alto risco, mas que poderia colocá-lo no centro da disputa estadual.
Só que a política raramente respeita planejamentos.
Nos últimos dias das convenções, tudo mudou.
A federação União Brasil-PP decidiu permanecer ao lado de Mateus Simões e ainda indicou Danilo de Castro para compor a chapa como candidato a vice-governador. O grupo político que Aro ajudou a construir permaneceu unido em torno do governador.
A ruptura produziu um efeito exatamente oposto ao esperado.
Em vez de liderar uma nova frente política, Marcelo Aro terminou afastado tanto do grupo governista quanto das principais alianças que imaginava construir.
O rompimento também provocou uma reação pública de antigos aliados.
Mateus Simões afirmou que Marcelo Aro passou “quatro anos parasitando o Governo de Minas” para construir um projeto político próprio. Romeu Zema foi igualmente duro ao definir o comportamento do ex-secretário como o de uma “ave de rapina”.
As declarações mostram o tamanho da ruptura entre quem, até poucos meses atrás, dividia o mesmo projeto político.
Ao final das convenções, Marcelo Aro anunciou que disputará uma vaga no Senado.
Mas a diferença em relação à eleição passada é enorme.
Em 2022, disputou o Senado ao lado de Romeu Zema, então candidato à reeleição, que venceu ainda no primeiro turno e oferecia um dos palanques mais fortes do país. Ainda assim, acabou derrotado.
Agora, a realidade é completamente diferente.
Marcelo Aro seguirá para a disputa praticamente isolado. Sem candidato ao governo em seu palanque, sem uma grande coligação para impulsionar sua campanha e sem o apoio do grupo político do qual fez parte durante os últimos quatro anos, sua caminhada até o Senado tornou-se muito mais difícil.
É claro que a política não permite sentenças antecipadas. Campanhas mudam, alianças surgem e o eleitor costuma surpreender.
Mas uma constatação já pode ser feita.
Ao deixar uma posição de enorme influência para apostar em um projeto próprio, Marcelo Aro imaginava ampliar seu espaço político.
Encerradas as convenções, o resultado foi exatamente o contrário.
Quem pretendia disputar o Governo de Minas terminou candidato ao Senado. E quem deixou um dos palanques mais fortes do Estado inicia a campanha sem palanque, sem uma coligação robusta e praticamente sozinho.
Para um político reconhecido justamente pela capacidade de articulação, talvez essa seja a maior ironia da eleição mineira de 2026.


