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Home Colunas

A Dor das Coisas Eternas

Por Nilson Lattari
18 de setembro de 2026 - 07:14
em Colunas
A Dor das Coisas Eternas

Foto: Matteo Vistocco / Unsplash

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Diz o ditado popular, que não há mal que sempre dure ou bem que não se acabe. Mas se o mal sempre durasse e consumisse os corpos e as almas, mas também o bem durasse à eternidade? Pois bem, estamos falando de coisas eternas e, portanto, isso seria uma coisa boa ou má, essa duração dos sentimentos?

Desejar o mal a alguém é uma espécie de castigo que consome nosso corpo e a alma definha. Viver uma eternidade desejando o mal, por motivos mesquinhos, deve ser um castigo enorme que se impõe ao próprio corpo. O sovina que amealha bens, consumindo a sua vida inteira a juntar fortunas, isolando-se do mundo e somente cercado deles, traria uma dor que, embora não aparente sentir, existe e forma o bolor da sua própria existência.

O tirano que se perpetua no poder causa uma dor enorme ao povo que depende dele. Ou, independentemente da vontade do povo, ele se impõe e dita o rumo da sua existência. Ditaduras são a existência de uma eternidade, mas é um mal que um dia acaba, depois de causar toda a dor possível. Sem dúvida, seria terrível, para a humanidade, que o mal vivesse eternamente atormentando as pessoas. E o bem, como seria? Nos causaria felicidade e passaríamos a ser lenientes com tudo, já que o mal não existiria? Independentemente dos fatos, alguns privilegiados existiriam, acima do mal e do bem.

Um modelo econômico que subjuga os mais pobres é um mal que eterniza a pobreza. A pergunta é se um dia ele acaba ou um outro modelo mais opressivo se instala.

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O bem, entretanto, tem as suas nuances. Muitas coisas parecem boas e, na verdade, podem esconder mal em si mesmas. Mas o bem tem seus momentos de candura, quando a bondade se espalha e traz um sentimento de paz em que todos se sentem bem. O bem não está em um modelo econômico, mas na boa vontade das pessoas de mudar, senão o mundo, as próprias vidas e perspectivas.

Mas poderiam as coisas eternas causar dor? Falamos sobre o mal, falamos sobre o bem, e como coisas que acabam têm um final.

Agradecer eternamente o bem que alguém nos faz, uma ajuda em uma hora difícil, não seria nada demais. Estar em uma situação dura e sem controle, quando surge uma mão que nos tira do fundo do poço, onde poderíamos permanecer uma eternidade, embora encapsulada em uma vida terrena, somente a eternidade seria suficiente para demonstrar nossa eterna gratidão.

Os sonhos e os desejos fazem parte das nossas coisas eternas. Tê-los e não vivê-los são a fonte das nossas dores. Quando começamos a vida, elaboramos nossos sonhos e desejos como um diário para o futuro. Quando chegamos ao futuro e não os realizamos, e percebemos que o tempo dado a eles não mais existe, são as dores dessa ausência que nos frustram os sentidos. Sonhos nos doem quando não os realizamos, mas também nos doem, eternamente, quando não podemos vivê-los novamente.

Mas, se for um amor eterno?

Quando alguém encontra o ser amado – aquele ou aquela que diz ser nossa alma gêmea -, seria um presente divino? Depois de juntos perceberem que não podem viver um sem o outro, alguém que nos fale pelo olhar e nós respondemos com o brilho dos nossos olhos. Aquele ou aquela que nos recebe com sorrisos e os braços abertos depois de um dia difícil. Ou alguém que aguardamos ansiosamente porque a sua ausência de poucas horas nos parece uma eternidade.

Talvez a dor mais intensa nas coisas eternas seja a de não mais conviver com quem se ama, e quando ele ou ela não são nada mais do que lembranças. Um amor que se rompe, depois de tantas coisas trocadas, de esperanças e sonhos correspondidos, e, de um momento para outro, ele se vai; como conviver, eternamente, com a lembrança de uma dor?

Um amor existe para sempre, desde aquele que perde o amor para a eternidade, até aquele que rompe e deixa no outro a eterna lembrança; qual o tamanho da dor de quem ama para sempre?

Tags: A Dor das Coisas EternasAMORColunasgratidãolembrançasNilson LattariperdasReflexãosentimentosSONHOS
Nilson Lattari

Nilson Lattari

Crônicas e Contos. NILSON LATTARI é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br, vencedor duas vezes do Prêmio UFF de Literatura (2011 e 2014) e Prêmio Darcy Ribeiro (Ribeirão Preto 2014). Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em crônicas, contos e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. "Ambos levam ao infinito, porém, em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação".

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