O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (14) que o Brasil só analisará depois das eleições de outubro o agrément de Daniel Perez, indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para assumir a embaixada norte-americana em Brasília.
A declaração ocorre em meio ao agravamento das tensões entre os dois governos. Em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, Lula questionou o momento escolhido pelos Estados Unidos para enviar um novo representante ao país.
O cargo está sem embaixador desde o início do atual governo Trump. Daniel Perez foi indicado em 1º de junho, mas Washington só encaminhou formalmente o pedido de agrément ao Brasil quase um mês depois. A prática diplomática prevê que o país que receberá o embaixador seja consultado antes do anúncio público do nome.
“Se o embaixador dos EUA é importante para o Brasil, por que eles ficaram um ano e seis meses sem mandar embaixador para cá? E por que só agora, faltando 45 dias para as eleições, eles querem mandar?”, questionou Lula.
Lula relaciona decisão às eleições
O presidente vinculou diretamente a demora na concessão do aval às preocupações do governo brasileiro com possíveis interferências norte-americanas no processo eleitoral.
Lula afirmou que o Brasil chegou a negar vistos a dois representantes dos Estados Unidos que, segundo ele, pretendiam acompanhar o funcionamento das urnas eletrônicas. Em seguida, disse que não atenderá à pressão para acelerar a chegada do novo embaixador.
“Agora, querem que eu apressadamente aceite o embaixador deles. Mas, agora, só [vamos aceitar] depois das eleições”, afirmou.
Daniel Perez é republicano, preside a Câmara dos Representantes da Flórida e mantém proximidade política com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Durante sabatina no Senado dos EUA, em julho, declarou acreditar que as eleições brasileiras seriam “livres e justas”.
A demora brasileira em conceder o aval já provocou reação de Washington. No início deste mês, os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, em meio à disputa diplomática.
Críticas a Marco Rubio
Apesar do endurecimento do discurso, Lula afirmou que pretende preservar as relações com os Estados Unidos e que não deseja ampliar o conflito com Washington.
O presidente também disse acreditar que parte das medidas adotadas contra o Brasil não parte diretamente de Trump. Lula voltou suas críticas principalmente para Marco Rubio, a quem atribuiu uma postura hostil em relação ao Brasil e à América Latina.
A relação entre Brasília e Washington atravessa um dos períodos de maior tensão dos últimos anos, envolvendo desde questões eleitorais até a disputa comercial entre os dois países.
Na quinta-feira (13), o governo brasileiro notificou formalmente os Estados Unidos sobre o início do processo previsto na Lei de Reciprocidade Econômica, em reação às tarifas adicionais impostas por Washington aos produtos brasileiros. A abertura do procedimento não significa aplicação imediata de retaliações, mas permite ao Brasil avançar nessa direção caso as negociações não prosperem.
Mesmo diante do confronto, Lula afirmou que pretende manter aberto o diálogo.
“Não precisamos brigar. Não quero guerra. Quero discutir [as questões] com seriedade. O Brasil quer ter uma boa relação com os Estados Unidos”, afirmou.


