A dois dias do início oficial da campanha eleitoral, a disputa pela Presidência da República começa a ganhar sua configuração definitiva. Os partidos têm até este sábado (15) para apresentar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) os pedidos de registro das candidaturas escolhidas nas convenções.
Até agora, os registros e candidaturas oficializadas mostram uma eleição marcada por uma diferença importante na organização dos dois principais campos políticos: enquanto Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu reunir em torno de sua tentativa de reeleição as principais forças da esquerda e da centro-esquerda, a direita chega à disputa fragmentada em diferentes candidaturas.
O primeiro turno será realizado em 4 de outubro. Caso nenhum candidato obtenha mais da metade dos votos válidos, o segundo turno ocorrerá no dia 25. A propaganda eleitoral começa oficialmente neste domingo (16).
Lula concentra principais forças da esquerda
Aos 80 anos, Lula entra em sua última disputa presidencial, conforme ele próprio tem sinalizado, tentando conquistar mais um mandato no Palácio do Planalto.
Diferentemente de eleições anteriores, quando partidos importantes da esquerda apresentaram candidaturas próprias, o presidente conseguiu evitar adversários de maior expressão política dentro desse campo.
A concentração não é absoluta. Samara Martins, da Unidade Popular (UP), também está na disputa e já apresentou seu pedido de registro ao TSE, encabeçando uma chapa formada exclusivamente por mulheres. Outros partidos da esquerda radical também apresentaram nomes ao longo do processo eleitoral.
Politicamente, entretanto, Lula chega ao primeiro turno sem enfrentar uma candidatura concorrente de esquerda com peso semelhante ao que tiveram, em eleições anteriores, nomes como Ciro Gomes ou Marina Silva.
É justamente essa concentração que contrasta com o cenário encontrado no outro lado da disputa.
Direita chega dividida
Se Lula praticamente monopoliza o eleitorado do seu campo entre as candidaturas mais competitivas, a direita terá diferentes nomes tentando ocupar o mesmo espaço político.
O principal deles é Flávio Bolsonaro (PL). Senador pelo Rio de Janeiro e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ele herdou o apoio do pai e tenta manter o bolsonarismo como principal força de oposição a Lula.
A candidatura enfrentou um contratempo nesta semana depois que Flávio apareceu irregularmente filiado ao Missão. O TSE anulou a filiação e restabeleceu seu vínculo com o PL, permitindo o prosseguimento do registro da candidatura.
Mas Flávio está longe de ter o campo conservador apenas para si.
Romeu Zema (Novo) deixou o governo de Minas Gerais para disputar a Presidência e tenta apresentar sua experiência de oito anos à frente do Estado como principal credencial. Empresário antes de entrar na política, concentra seu discurso na redução do tamanho do Estado, liberalismo econômico e críticas ao PT.
Outro nome experiente é Ronaldo Caiado (PSD). Ex-governador de Goiás, ex-senador e ex-deputado federal, Caiado retorna a uma eleição presidencial 37 anos depois de ter participado da histórica disputa de 1989. Sua candidatura procura ocupar um espaço conservador menos identificado diretamente com a família Bolsonaro.
Há ainda Renan Santos (Missão), fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e presidente do partido criado a partir do movimento. Mais jovem que os principais concorrentes, Renan aposta no eleitorado de direita que rejeita tanto o PT quanto o bolsonarismo.
Fragmentação pode marcar primeiro turno
A diferença entre os dois campos já aparece nas pesquisas.
Levantamento CNT/MDA divulgado nesta semana mostrou Lula com 42,4%, seguido por Flávio Bolsonaro, com 28,7%. Caiado apareceu com 4%, Zema com 3,3%, enquanto Renan Santos registrou 2,8%. Os demais candidatos ficaram abaixo desse patamar. A pesquisa ouviu 2.002 pessoas entre os dias 5 e 9 de agosto e tem margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
Os números ajudam a mostrar o desafio colocado para a direita. Embora Flávio apareça isoladamente como principal adversário de Lula, uma parcela do eleitorado contrário ao atual presidente está distribuída entre diferentes candidaturas.
A divisão já provoca confronto dentro do próprio campo. Nesta sexta-feira, o coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho, acusou o PSD de funcionar como “linha auxiliar” de Lula e afirmou que a candidatura de Caiado serviria para dividir votos da oposição. A declaração veio depois de Gilberto Kassab, presidente do PSD e candidato a vice de Caiado, questionar as chances eleitorais de Flávio.
A disputa, portanto, não será apenas entre governo e oposição. Antes de enfrentar Lula em um eventual segundo turno, os candidatos da direita terão uma batalha própria para definir quem conseguirá se apresentar como principal alternativa ao petista.
Para Lula, o cenário é inverso. Embora existam outras candidaturas situadas à esquerda, o presidente conseguiu reunir em torno de sua reeleição praticamente todas as forças desse campo que possuem maior representação no Congresso e peso eleitoral nacional.
Com o encerramento dos registros neste sábado e o início oficial da campanha no domingo, essa diferença de estratégias passa a ser uma das principais características da corrida pelo Palácio do Planalto.


