Uma operação do Departamento Estadual de Combate ao Narcotráfico (Denarc) que terminou com pai e filho presos em Belo Horizonte sofreu uma reviravolta depois que as próprias imagens produzidas pelos policiais levantaram suspeitas sobre a origem de uma barra de maconha encontrada dentro da residência. O caso agora é investigado pela Corregedoria-Geral da Polícia Civil de Minas Gerais e já levou à prisão preventiva de um policial. Outros dois agentes tiveram a prisão decretada e não haviam sido localizados até a atualização mais recente.
Bruno Gleidson Fernandes e o filho, Matheus Bruno Andrade Fernandes, foram presos em 7 de agosto, durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão em um imóvel na região da Pampulha. Eles permaneceram presos preventivamente até esta quinta-feira (17), quando a Justiça determinou a soltura dos dois diante das dúvidas surgidas sobre as circunstâncias em que a droga foi encontrada. O Ministério Público se manifestou favoravelmente à revogação das prisões.
A ação policial tinha como alvo Matheus. Durante as buscas no quarto dele, foi encontrada uma pistola Glock calibre 9 milímetros equipada com dispositivo que permite disparos em rajada, além de 42 munições e rádios comunicadores. A defesa não contesta a apreensão da arma. A controvérsia está concentrada no tablete de maconha, com aproximadamente 740 gramas, localizado posteriormente em uma sapateira no mesmo cômodo.
O que transformou a apreensão em objeto de investigação foram as gravações da própria operação. O mandado judicial determinava que a diligência fosse filmada, e as imagens passaram a ser analisadas depois que a família contestou imediatamente a presença da droga.
Em uma primeira passagem pelo quarto, a sapateira aparece nas imagens sem que seja possível observar o tablete entre os calçados. Posteriormente, policiais retornam ao cômodo e a barra de maconha surge no local onde antes aparecia um dos sapatos. Pai e filho contestaram a apreensão ainda durante a operação, afirmando que o pacote não estava ali.
Outro trecho chamou a atenção dos investigadores. Rafael Egg Macedo, um dos policiais que participaram da ação, aparece entrando no imóvel com o que a própria apuração da Corregedoria descreve como um “aparente volume irregular” na perna esquerda da calça. Mais tarde, ele teria anunciado sozinho a localização da droga.

As duas testemunhas civis que acompanhavam a diligência também não teriam presenciado o momento em que a maconha foi encontrada. Segundo os relatos reunidos na investigação, elas acompanharam buscas anteriores no quarto sem ver o pacote e já não estavam no cômodo quando a droga foi localizada.
Três policiais entraram na mira da Corregedoria
A investigação avançou sobre três integrantes da Polícia Civil: Rafael Egg Macedo, Rodrigo Otávio Andrade e Ana Luiza Guimarães Carvalho. Os três tiveram a prisão preventiva decretada.
Rafael foi preso e teve a prisão mantida após audiência de custódia. Rodrigo e Ana Luiza permaneciam sem ser localizados até a última atualização divulgada sobre o caso.
A apuração da Corregedoria aponta possíveis irregularidades na atuação da equipe. Rafael teria entrado na residência com o volume aparente na calça e posteriormente localizado a maconha. Ana Luiza teria pedido que ele retornasse sozinho ao quarto, sem a presença das testemunhas. Rodrigo, apontado como chefe da equipe, também é investigado pela forma como a abordagem foi conduzida.
Entre os crimes investigados pela Corregedoria aparecem tráfico de drogas, denunciação caluniosa, cárcere privado, falsidade ideológica e associação criminosa. A investigação ainda busca esclarecer como o tablete chegou à sapateira, a participação individual dos policiais e a possível motivação para uma eventual fraude na apreensão.
Outro elemento que entrou na apuração é a possível semelhança entre a embalagem, a cor e o tamanho da maconha apreendida na residência e entorpecentes recolhidos pela mesma equipe policial em uma operação realizada dias antes. A Corregedoria fez buscas na sede do Denarc e apreendeu computadores, materiais e drogas que deverão passar por perícia.
As defesas dos policiais Rafael Egg Macedo e Rodrigo Otávio Andrade negam participação em irregularidades. A Polícia Civil informou que não compactua com eventuais desvios de conduta de seus servidores e afirmou que a Corregedoria realiza uma apuração rigorosa e isenta.
Justiça manda soltar pai e filho
Com o avanço da investigação sobre os próprios policiais responsáveis pela operação, a defesa de Bruno e Matheus voltou a pedir a liberdade dos dois. Nesta quinta-feira, a 1ª Vara das Garantias de Belo Horizonte revogou as prisões preventivas.
Na decisão, a juíza Fernanda Chaves Carreira Machado apontou que permanecem dúvidas relevantes sobre a regularidade da localização do entorpecente e sobre as circunstâncias em que a apreensão ocorreu. A magistrada determinou que pai e filho respondam em liberdade, cumprindo medidas cautelares, entre elas manter endereço e telefone atualizados e comparecer aos atos do processo.
No caso de Bruno, a Justiça considerou frágeis os elementos que justificariam a manutenção da prisão, já que as principais apreensões ocorreram no quarto do filho. Em relação a Matheus, permanecem os elementos relacionados à arma encontrada no cômodo, enquanto a origem da maconha e a forma como ela apareceu durante a busca continuam no centro da investigação.
A soltura encerrou cerca de 40 dias de prisão de pai e filho. Já a investigação que começou com eles como suspeitos agora avança também sobre a conduta dos policiais responsáveis pelo flagrante.


