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Home Notícias Brasil

Flávio se declara presidente eleito, recua minutos depois e passa a se chamar “líder do Brasil”

Derrotado por 4,4 milhões de votos, senador acusa fraude sem apresentar provas e contesta eleição proclamada por TSE comandado por dois ministros indicados ao STF por Jair Bolsonaro

Por Geraldo Ribeiro
28 de outubro de 2026 - 19:19
em Brasil
Moraes manda Flávio entregar passaportes e proíbe senador de deixar o país

Foto: Joédson Alves/ABR

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Poucas horas depois de desembarcar nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou uma carta em que se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, acusou o processo eleitoral de fraude e anunciou que comandará dos Estados Unidos a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A declaração durou pouco na forma original.

Minutos depois, uma nova versão do documento começou a circular. A expressão “verdadeiro presidente eleito do Brasil” foi retirada e substituída por “líder do Brasil”. O brasão utilizado no cabeçalho também foi trocado.

A primeira carta trazia uma versão histórica das Armas Nacionais com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, denominação utilizada nos primeiros anos da República e com a grafia da época. Na versão seguinte, Flávio passou a utilizar o brasão atual, com a inscrição “República Federativa do Brasil”.

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O conteúdo central, entretanto, permaneceu.

Flávio continuou afirmando que houve fraude eleitoral, atacando o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral e anunciando:

“Liderarei a oposição daqui.”

A carta transforma uma derrota eleitoral oficialmente proclamada numa narrativa em que Flávio reivindica para si uma vitória que as urnas não lhe deram.

Lula venceu por 4,4 milhões de votos

O resultado oficial não deixa margem de dúvida sobre quem venceu a eleição.

Lula recebeu 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos. Flávio terminou com 59.826.041 votos, ou 48,21%.

A diferença foi de 4.430.191 votos.

O resultado foi anunciado pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, que telefonou para os dois candidatos ainda na noite de domingo para comunicar formalmente o resultado.

Nunes Marques afirmou que as eleições haviam sido concluídas e declarou Lula reeleito presidente da República.

Ao lado dele na direção do TSE está André Mendonça, vice-presidente da Corte Eleitoral.

Há um detalhe político difícil de ignorar: os dois ministros chegaram ao Supremo Tribunal Federal por indicação de Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

Nunes Marques foi escolhido em 2020. André Mendonça, em 2021.

Flávio teve participação nas articulações que cercaram a indicação de Nunes Marques. Reportagens da época registraram que o senador apoiou o nome e conversou com Jair Bolsonaro sobre a escolha, embora o próprio Nunes Marques tenha afirmado posteriormente que não tratou diretamente com Flávio sobre sua indicação.

Agora, ao afirmar que a eleição foi fraudada, Flávio coloca sob questionamento justamente o processo conduzido por uma Justiça Eleitoral cuja presidência e vice-presidência estão nas mãos de dois ministros escolhidos para o STF por seu próprio pai.

Nunes Marques proclamou resultado

Nunes Marques não apenas anunciou o vencedor.

No pronunciamento oficial, classificou as eleições como bem-sucedidas, destacou os mecanismos de fiscalização e auditoria e afirmou que a Justiça Eleitoral brasileira é referência em segurança, eficiência e acessibilidade.

Também ressaltou que observadores nacionais e internacionais tiveram acesso aos procedimentos de votação, auditoria, fiscalização e totalização.

André Mendonça, que acompanhou a conclusão do pleito como vice-presidente do TSE, havia assumido o cargo em maio justamente para integrar, ao lado de Nunes Marques, o comando responsável pelas Eleições Gerais de 2026.

A conta dos votos após as 17h não fecha

Na carta, Flávio tenta sustentar sua acusação principalmente na decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, que permitiu a continuidade da votação até as 19h nas seções que ainda estavam funcionando.

Segundo o senador, essa decisão teria permitido uma “impossibilidade matemática” e estaria relacionada ao crescimento de Lula entre o primeiro e o segundo turno.

Os números divulgados pelo próprio TSE mostram outra realidade.

Foram registrados 34.393 votos após as 17h em todo o território nacional. Desse total, 32.399 ocorreram entre 17h e 18h, 1.981 entre 18h e 19h e apenas 13 depois das 19h.

Esses registros não informam em quem cada eleitor votou.

Mesmo numa hipótese extrema em que todos os 34.393 votos fossem de Flávio Bolsonaro, Lula ainda teria vencido por aproximadamente 4,39 milhões de votos.

Outro dado omitido na carta é que a própria campanha de Flávio pediu a prorrogação da votação em municípios atingidos por chuvas e dificuldades de transporte. As duas candidaturas apresentaram pedidos relacionados à ampliação do horário.

O próprio PL reconheceu a vitória de Lula

Flávio também se distancia da posição adotada pelo partido pelo qual disputou a Presidência.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, reconheceu o resultado proclamado pelo TSE, embora tenha defendido que dúvidas levantadas durante o processo fossem esclarecidas.

O candidato a vice na chapa de Flávio, Alfredo Gaspar, também reconheceu a derrota e agradeceu aos quase 60 milhões de brasileiros que votaram na candidatura.

Flávio seguiu por outro caminho.

Primeiro afirmou que não reconheceria o resultado. Depois, sua própria campanha recuou da intenção de tentar anular a eleição.

Nesta quarta-feira, já nos Estados Unidos, retomou a acusação de fraude e chegou a se declarar presidente eleito.

Poucos minutos depois, recuou novamente.

De “presidente eleito” a “líder do Brasil”

A alteração da carta não foi apenas gráfica.

Na primeira versão, Flávio dizia:

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil.”

Na versão republicada, passou a dizer:

“Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o líder do Brasil.”

As referências posteriores a si próprio como presidente também foram retiradas ou substituídas por “líder”.

Mas Flávio manteve a afirmação de que comandará a oposição a partir dos Estados Unidos.

Ele escreveu aos senadores, deputados e governadores que apoiaram sua candidatura que pretende falar aquilo que, segundo ele, os políticos que permaneceram no Brasil não teriam liberdade para dizer.

A questão é que essa liderança ainda não foi definida pelos partidos ou pelos próprios parlamentares.

Nem o PL foi consultado

A saída de Flávio do Brasil surpreendeu integrantes de sua própria campanha.

Rogério Marinho, coordenador da candidatura e atual líder da oposição no Senado, afirmou que não havia sido avisado da viagem.

Marinho disse que ele e outros dirigentes do PL haviam conversado justamente sobre a necessidade de Flávio permanecer no país e assumir um papel de liderança depois de receber quase 60 milhões de votos.

“Não digo que concordo porque não fui consultado”, afirmou ao comentar a decisão de deixar o Brasil.

Depois da divulgação da carta, integrantes do Centrão e do próprio PL também manifestaram reservadamente desconforto. O comando da bancada afirmou não ter sido consultado sobre o documento, e parlamentares avaliaram que Flávio deveria estar no Brasil exercendo a oposição para a qual recebeu votação expressiva.

Portanto, uma coisa é Flávio anunciar que pretende liderar a oposição.

Outra é saber se deputados, senadores, governadores e partidos que não fazem parte do núcleo bolsonarista aceitarão essa liderança exercida a partir dos Estados Unidos.

Milei e Trump vieram antes dos eleitores

A ordem dos agradecimentos na carta também chama atenção.

As primeiras pessoas citadas por Flávio são o presidente argentino Javier Milei, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o que ele chama de “maravilhoso povo americano”.

Os brasileiros que votaram nele aparecem apenas no último trecho.

Flávio não faz um agradecimento explícito pelos 59.826.041 votos recebidos. Em vez disso, dirige-se ao eleitor afirmando que “não estamos derrotados e não estamos sozinhos” e promete apresentar uma estratégia de mobilização.

Seu vice, Alfredo Gaspar, havia adotado comportamento diferente e agradecido publicamente aos eleitores depois do resultado.

Uma oposição maior que o bolsonarismo

A eleição de 2026 também deixou uma oposição numerosa no Congresso.

O PL terá as maiores bancadas da Câmara e do Senado a partir de 2027, mas os quase 60 milhões de votos de Flávio não pertencem automaticamente a um único grupo político.

Entre eles estão eleitores conservadores, liberais, antipetistas, apoiadores de partidos de centro-direita e bolsonaristas, com posições diferentes sobre instituições, Justiça e resultado eleitoral.

A própria reação à carta mostra essas diferenças.

Parte dos aliados apoiou o discurso de Flávio. Outros integrantes do PL e do Centrão demonstraram desconforto. O partido, institucionalmente, reconheceu o resultado proclamado pelo TSE.

A discussão sobre quem liderará a oposição ao quarto governo Lula, portanto, não se encerra com uma carta escrita em Miami.

Ela passará pelo Congresso, pelos governadores, pelos partidos e pelas próprias escolhas de um eleitorado de quase 60 milhões de pessoas.

Autoproclamação não muda resultado

Do ponto de vista institucional, a primeira versão da carta não produz qualquer efeito.

Flávio não foi eleito presidente.

Lula venceu a eleição, o resultado foi anunciado pelo TSE e as acusações apresentadas na carta não vieram acompanhadas de provas capazes de demonstrar fraude ou alterar os 4,4 milhões de votos de diferença entre os candidatos.

Ao se apresentar inicialmente como “verdadeiro presidente eleito”, Flávio adotou uma narrativa que rejeita a legitimidade do resultado oficial e substitui a manifestação das urnas por uma autoproclamação política.

Poucos minutos depois, retirou a expressão.

Mas manteve a acusação de fraude e a intenção de comandar dos Estados Unidos uma oposição que ainda terá de decidir, no Brasil, quem reconhece como sua liderança.

Tags: André Mendonçademocraciaeleições 2026Estados UnidosFlávio BolsonaroJair BolsonaroKassio Nunes MarquesLulaoposiçãoPLRogério MarinhoTSE
Geraldo Ribeiro

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