A saída de Flávio Bolsonaro do Brasil está confirmada.
Na noite de terça-feira (27), dois dias depois de perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva, o senador atravessou por terra a fronteira entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú acompanhado da mulher e das duas filhas.
A Direção Nacional de Migrações da Argentina registrou a entrada da família às 22h50 pela Ponte Internacional Tancredo Neves. Quarenta minutos depois, os quatro embarcaram em um jato particular da Baires Fly com destino a Guayaquil, no Equador. De lá, a aeronave seguiu viagem para Miami, nos Estados Unidos.
A viagem ocorreu depois de Flávio descumprir uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O senador tinha 24 horas para entregar seus passaportes à Polícia Federal e estava proibido de deixar o território brasileiro.
Um dia antes, havia garantido publicamente que permaneceria no país.
“Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes”, afirmou.
Não entregou.
A sequência acrescenta mais um capítulo à relação da família Bolsonaro com derrotas eleitorais e contrasta com uma história construída ao longo de quase quatro décadas de eleições presidenciais diretas no Brasil.
Desde 1989, o país assistiu a campanhas duras, acusações entre adversários, vitórias apertadas, questionamentos sobre o processo eleitoral e mudanças completas de grupos no poder. O que prevaleceu, mesmo nos momentos de maior tensão, foi o reconhecimento do resultado das urnas e a continuidade da disputa política dentro das instituições.
Perder, reconhecer e tentar novamente
Lula conhece bem esse caminho.
Em 1989, na primeira eleição presidencial direta depois da ditadura militar, foi derrotado por Fernando Collor de Mello no segundo turno.
A campanha foi uma das mais agressivas da história recente brasileira. Lula criticou duramente os métodos utilizados pelo adversário e afirmou que o país havia perdido uma oportunidade de mudança. Ainda assim, reconheceu que Collor havia vencido numericamente e que o resultado precisava ser respeitado.
Voltou para a oposição e continuou na política.
Cinco anos depois, em 1994, tentou novamente. Desta vez, perdeu para Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, ainda no primeiro turno.
FHC chegou à disputa impulsionado pelo Plano Real e venceu com maioria absoluta dos votos válidos. Lula reconheceu o resultado e permaneceu como principal liderança da oposição.
Durante o primeiro mandato de Fernando Henrique, o Congresso aprovou, em 1997, a emenda constitucional que passou a permitir a reeleição consecutiva para presidente, governadores e prefeitos.
A mudança provocou forte embate político e críticas da oposição, inclusive porque o próprio FHC seria beneficiado pela nova regra. Ainda assim, a emenda entrou em vigor e passou a valer para todos.
Em 1998, Fernando Henrique enfrentou Lula novamente e venceu mais uma vez no primeiro turno, tornando-se o primeiro presidente brasileiro reeleito para um mandato consecutivo.
Lula criticou a mudança constitucional e o processo político que permitiu a reeleição, mas não rejeitou o resultado. Continuou fazendo oposição e aguardou novamente a eleição seguinte.
Em 2002, na quarta tentativa, finalmente venceu.
Seu adversário no segundo turno foi José Serra, do PSDB. Na própria noite da eleição, Serra telefonou para Lula, reconheceu a derrota e desejou boa sorte ao presidente eleito.
Fernando Henrique Cardoso, que apoiava Serra, organizou a transição, recebeu Lula no Palácio do Planalto dois dias depois e, em 1º de janeiro de 2003, passou pessoalmente a faixa presidencial ao sucessor.
Quatro anos depois, Lula disputou a reeleição contra Geraldo Alckmin, também do PSDB.
Venceu novamente.
Alckmin telefonou naquela mesma noite para cumprimentá-lo e desejar “um bom mandato”.
A alternância continuou
Impedido constitucionalmente de disputar um terceiro mandato consecutivo, Lula apresentou Dilma Rousseff como candidata à sucessão em 2010.
No segundo turno, Dilma enfrentou José Serra.
A petista venceu e se tornou a primeira mulher eleita presidente do Brasil. Serra telefonou para cumprimentá-la e, em seu pronunciamento, afirmou que recebia “com respeito e humildade a voz do povo nas urnas”.
Em 2014, Dilma buscou a reeleição contra Aécio Neves, do PSDB, numa das disputas mais apertadas desde a redemocratização.
Dilma venceu por 51,64% a 48,36%.
Aécio telefonou para a presidente reeleita, reconheceu o resultado e desejou sucesso ao novo governo.
Dias depois, o PSDB pediu ao Tribunal Superior Eleitoral uma auditoria especial do processo eleitoral.
O episódio é importante porque mostra que questionamentos às eleições não começaram com a família Bolsonaro.
A diferença está na forma como eles foram conduzidos. O PSDB declarou confiança no Tribunal, não pediu a anulação do resultado e submeteu suas dúvidas às instituições. A auditoria foi realizada e não encontrou fraude.
Dilma acabaria afastada da Presidência pelo impeachment em 2016, sendo substituída pelo vice Michel Temer.
Dois anos depois, em 2018, Lula estava preso e não pôde disputar a eleição. O PT lançou Fernando Haddad, que chegou ao segundo turno contra Jair Bolsonaro.
Bolsonaro venceu.
Haddad reconheceu publicamente a derrota, anunciou que faria oposição dentro das instituições e, na manhã seguinte, desejou sucesso ao adversário pelas redes sociais.
Não houve tentativa de impedir a posse do vencedor.
2022 muda o padrão
Quatro anos depois, Jair Bolsonaro chegou às urnas tentando a reeleição.
Enfrentou Lula e perdeu.
Foi o primeiro presidente desde a instituição da reeleição a disputar um segundo mandato consecutivo e ser derrotado.
A reação foi diferente daquelas que haviam marcado as disputas anteriores.
Bolsonaro permaneceu cerca de 44 horas em silêncio. Quando se pronunciou, não reconheceu expressamente a vitória de Lula nem telefonou para o adversário. Seu governo, entretanto, autorizou formalmente o início da transição.
Em 30 de dezembro de 2022, dois dias antes da posse de Lula, Bolsonaro deixou o Brasil em um avião da Força Aérea Brasileira e viajou para os Estados Unidos. Não participou da cerimônia nem entregou a faixa presidencial ao sucessor.
Há uma diferença jurídica importante em relação ao episódio atual: Bolsonaro não estava proibido pela Justiça de deixar o Brasil naquele momento e retornou ao país meses depois.
O que se descobriu posteriormente foi mais grave.
As investigações sobre os acontecimentos posteriores à eleição resultaram em processos por tentativa de impedir a posse do presidente eleito. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro e outros integrantes do núcleo central da trama por tentativa de golpe de Estado.
Os ataques de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores de Bolsonaro invadiram e depredaram o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo, tornaram-se o episódio mais visível daquele processo de ruptura.
Eduardo e agora Flávio
A história da família Bolsonaro ganhou outro capítulo com Eduardo Bolsonaro.
Ele deixou o Brasil e passou a viver nos Estados Unidos em 2025. Posteriormente perdeu o mandato parlamentar, foi condenado pelo STF por coação no curso do processo e, em outubro deste ano, teve mandado de prisão expedido para cumprimento da pena de quatro anos e dois meses.
Eduardo permanece nos Estados Unidos.
Agora, Flávio segue caminho semelhante, mas em circunstâncias ainda mais imediatas.
Derrotado por Lula no segundo turno de 2026, inicialmente afirmou que não reconheceria o resultado e anunciou intenção de tentar anulá-lo.
Depois, disse que permaneceria no Brasil para organizar a oposição.
Quando recebeu ordem do STF para entregar os passaportes e não deixar o território nacional, afirmou que cumpriria a determinação.
Não cumpriu.
Na noite de terça-feira, cruzou a fronteira com a Argentina acompanhado da família e embarcou em um voo privado que seguiu para o Equador antes de continuar em direção aos Estados Unidos.
O que mudou
Democracia não exige amizade entre adversários.
Lula fez oposição a Collor. Criticou Fernando Henrique depois de duas derrotas. Serra continuou adversário do PT. Alckmin enfrentou Lula numa campanha presidencial. Aécio questionou o processo eleitoral e seu partido pediu auditoria. Haddad tornou-se oposição a Bolsonaro.
Todos continuaram disputando dentro do mesmo sistema.
Ganhar e perder fazem parte dele.
Um candidato derrotado pode recorrer à Justiça, denunciar irregularidades, pedir investigações, questionar decisões, fazer oposição e voltar às urnas. Foi assim que Lula perdeu três eleições antes de vencer. Foi assim que o PSDB deixou o Palácio do Planalto e continuou disputando o poder. Foi assim que diferentes grupos políticos se alternaram na Presidência ao longo de quase quatro décadas.
O problema não está em questionar uma eleição.
Está em deixar de reconhecer que as mesmas regras precisam valer para vencedores e derrotados.
Flávio recebeu quase 60 milhões de votos em 2026. Uma votação dessa dimensão lhe dava força política para liderar uma oposição expressiva, atuar no Congresso e continuar sua trajetória dentro das instituições.
Em vez disso, deixou o Brasil depois de receber uma ordem judicial expressa para permanecer no país.
A saída não responde, por si só, às investigações que enfrenta e tampouco permite concluir culpa pelos fatos apurados pela Justiça.
Mas deixa uma pergunta objetiva: por que alguém que havia prometido permanecer no Brasil e se defender decidiu atravessar a fronteira poucas horas depois de ser proibido de sair?
Desde 1989, a democracia brasileira passou por derrotas amargas, campanhas agressivas, pedidos de auditoria, impeachment, prisões de lideranças políticas e alternâncias profundas no poder.
Sobreviveu porque, acima dos vencedores e derrotados de cada eleição, permaneceu uma regra simples: a disputa termina nas urnas, mas a política continua dentro das instituições.
É essa tradição que os episódios iniciados após a eleição de 2022 e repetidos agora, depois da derrota de Flávio Bolsonaro em 2026, colocam novamente à prova.


