O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou com a mulher e as duas filhas a Miami, nos Estados Unidos, na manhã desta quarta-feira (28), três dias depois de perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva e após descumprir uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) que o proibia de deixar o Brasil.
O jato Gulfstream G400 que transportava a família pousou no Aeroporto Executivo de Opa-locka, na região de Miami, por volta das 10h23 no horário de Brasília. Imagens feitas no local mostram Flávio desembarcando da aeronave.
A viagem começou na noite de terça-feira. Flávio, a mulher, Fernanda, e as duas filhas entraram oficialmente na Argentina às 22h50 pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú. Cerca de 40 minutos depois, embarcaram em voo privado para Guayaquil, no Equador.
Após uma escala para reabastecimento, a mesma aeronave seguiu para a Flórida, evitando o espaço aéreo brasileiro.
A chegada aos Estados Unidos encerra as dúvidas sobre o paradeiro do senador, mas abre uma nova frente de questionamentos sobre quando sua saída começou a ser planejada e qual foi o grau de participação de integrantes do governo de Donald Trump na operação.
Plano vinha sendo preparado antes da eleição
A ida de Flávio aos Estados Unidos não teria sido decidida apenas depois da derrota no domingo.
Segundo apuração publicada pela jornalista Bela Megale, de O Globo, a possibilidade de levar o senador e sua família para os Estados Unidos em caso de derrota vinha sendo organizada semanas antes do segundo turno.
O principal articulador teria sido Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde 2025, com participação de Paulo Figueiredo. Os dois teriam mantido contatos com integrantes do governo Trump sobre a possibilidade de receber Flávio caso ele não vencesse a eleição.
A alternativa chegou a perder força depois que Flávio terminou o primeiro turno à frente de Lula e aliados passaram a acreditar na vitória no segundo.
Com a derrota, o plano voltou a ser colocado em prática.
A informação contrasta diretamente com a declaração dada pelo próprio Flávio na segunda-feira (26), quando foi intimado a entregar os passaportes.
“Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes.”
Os documentos não foram entregues.
Governo dos EUA concede vistos
O envolvimento confirmado oficialmente dos Estados Unidos ocorre na entrada da família em território norte-americano.
Um alto funcionário do Departamento de Estado confirmou que o governo concederia vistos a Flávio, à mulher e às duas filhas e permitiria a entrada dos quatro no país.
“O Departamento de Estado emitirá vistos para Flávio Bolsonaro e sua família e permitirá a entrada deles nos Estados Unidos”, informou a autoridade norte-americana.
O tipo de visto concedido não foi divulgado.
Também não existe, até agora, confirmação oficial de concessão de asilo político.
Donald Trump afirmou nesta quarta-feira que aprova a chegada de Flávio aos Estados Unidos. O presidente norte-americano voltou a fazer críticas à eleição brasileira, classificando o resultado como “muito estranho”, mas não apresentou provas de irregularidades.
Governo americano organizou a saída?
Esse é o ponto que ainda permanece sem confirmação oficial.
O empresário e ex-secretário de Turismo do México Simón Levy, aliado público de Trump e do movimento MAGA, afirmou que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, teria sido o responsável por articular a retirada de Flávio.
Levy chegou a dizer que a operação recebeu o nome de “Operação Alba” e chamou Rubio de “cérebro” da ação.
A declaração ganhou repercussão porque foi feita antes de vários detalhes da rota utilizada por Flávio se tornarem públicos.
Mas Levy não ocupa cargo no governo Trump, e nem Marco Rubio, nem o Departamento de Estado, nem a Casa Branca confirmaram oficialmente que Washington tenha organizado a operação de saída do Brasil.
O que está confirmado pelo governo norte-americano é a decisão de conceder os vistos e permitir a entrada de Flávio e da família nos Estados Unidos.
A apuração de que Eduardo e Paulo Figueiredo mantinham contatos prévios com autoridades norte-americanas reforça as perguntas sobre o envolvimento de Washington, mas não permite, até o momento, afirmar como fato que o governo dos EUA coordenou a retirada.
Democratas cobram explicações
A decisão do governo Trump provocou reação de parlamentares democratas.
O deputado Joaquin Castro, do Texas e integrante da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, criticou a concessão dos vistos e cobrou explicações sobre uma eventual participação norte-americana na saída de Flávio.
“Perder uma eleição não é motivo para pedir asilo”, afirmou.
Castro também disse que o governo Trump deve explicar ao Congresso eventual participação na saída do senador do Brasil após a determinação judicial que restringia sua viagem.
O perfil dos democratas na Comissão de Relações Exteriores da Câmara também criticou a decisão, comparando o tratamento dado à família Bolsonaro às restrições impostas pelo governo Trump a refugiados de países em guerra.
As manifestações ocorrem em um contexto de críticas anteriores de congressistas democratas à política do governo Trump em relação ao Brasil. Em setembro, 28 parlamentares já haviam enviado uma carta a Marco Rubio cobrando que os Estados Unidos respeitassem o processo eleitoral brasileiro e reconhecessem o resultado certificado pelas autoridades eleitorais.
Saída ocorreu depois de ordem judicial
Flávio deixou o Brasil depois de receber uma determinação do ministro Alexandre de Moraes para entregar os passaportes comum e diplomático à Polícia Federal e permanecer no território nacional.
A medida foi adotada em investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador e o advogado Willer Tomaz. Flávio nega irregularidades.
O prazo de 24 horas para a entrega terminou na terça-feira sem que os documentos fossem apresentados.
A Polícia Federal cancelou os passaportes brasileiros nos sistemas oficiais.
Apesar disso, Flávio cruzou a fronteira com a Argentina naquela mesma noite acompanhado da família.
De Puerto Iguazú a Miami
A rota utilizada já está praticamente reconstruída.
Flávio e a família cruzaram oficialmente para a Argentina às 22h50 de terça-feira.
Em Puerto Iguazú, embarcaram no Gulfstream G400, prefixo LV-JQW, operado pela Baires Fly.
O avião deixou a Argentina, seguiu até Guayaquil, no Equador, e depois partiu para Miami.
Na manhã desta quarta-feira, pousou no aeroporto de Opa-locka. Flávio desembarcou acompanhado da família e deixou o local sem falar com a imprensa.
A viagem confirma que o senador deixou o país apesar da ordem judicial e depois de afirmar publicamente que não tinha intenção de sair.
O episódio também mostra que a chegada aos Estados Unidos não ocorreu sem preparação. A possibilidade de uma saída já era discutida semanas antes da eleição, havia contatos de Eduardo Bolsonaro com interlocutores norte-americanos e, quando Flávio chegou à Flórida, o governo Trump já havia decidido conceder os documentos necessários para sua entrada.
O que ainda precisa ser esclarecido é até onde foi essa participação.
A concessão dos vistos está confirmada. A aprovação pública de Trump também.
A afirmação de que Marco Rubio e o governo americano organizaram a operação, porém, continua baseada em relatos e na declaração de um aliado do presidente norte-americano, sem reconhecimento oficial de Washington.


