O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), derrubou nesta quinta-feira (10) o sigilo da investigação que apura suspeitas de desvio de emendas parlamentares envolvendo entidades e empresas ligadas à produção de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A decisão foi tomada após a Polícia Federal deflagrar a Operação Make Up, que cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP), roteirista e produtor-executivo do filme, e a empresária Karina Gama, ligada à Go Up Entertainment, responsável pela produção.
Com a retirada do sigilo, passaram a ser públicos os fundamentos apresentados pela PF para sustentar as buscas e as medidas cautelares autorizadas por Dino.
A investigação apura a suspeita de que recursos de emendas parlamentares destinados formalmente a projetos sociais tenham sido desviados por meio de organizações e empresas subcontratadas e possam ter alcançado estruturas relacionadas à produção do filme.
A PF afirma ter encontrado indícios da existência de uma organização formada por agentes públicos e privados para captar, movimentar e ocultar recursos provenientes de verbas públicas. São investigados possíveis crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraudes em contratações.
Entre os elementos revelados com o fim do sigilo está a informação de que Mario Frias transferiu R$ 645,4 mil de suas próprias contas para a Go Up Entertainment em menos de 60 dias. A PF considerou o montante incompatível com os rendimentos e créditos identificados nas contas do parlamentar e afirmou que a movimentação o coloca como “participante ativo da engrenagem financeira sob investigação”.
Flávio acusa Dino de interferência eleitoral
A decisão provocou reação imediata do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Durante agenda de campanha em Roraima, Flávio classificou a operação autorizada por Dino como uma tentativa de “interferência política” nas eleições e voltou a negar que dinheiro público tenha sido utilizado na produção de “Dark Horse”.
“Não tem um centavo de dinheiro público no filme”, afirmou o senador ao comentar a operação.
Flávio também sustentou que os recursos utilizados na produção são privados e questionou a atuação de Dino em pleno período eleitoral.
O senador não é alvo da Operação Make Up. Seu nome aparece, entretanto, em outra investigação relacionada ao financiamento de “Dark Horse”, conduzida pelo ministro André Mendonça.
Nessa segunda frente, a discussão não envolve diretamente emendas parlamentares, mas recursos privados ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master.
Áudios e mensagens obtidos nas investigações mostram que Flávio participou das tratativas para conseguir recursos de Vorcaro para o filme. O senador reconhece a captação, mas sustenta que o dinheiro foi integralmente destinado à produção e que não houve qualquer contrapartida ou irregularidade.
Dinheiro era privado, mas origem está sob investigação
A afirmação de Flávio Bolsonaro de que o dinheiro repassado por Vorcaro ao filme era privado não significa, por si só, que a discussão sobre a origem desses recursos esteja encerrada.
Isso porque o patrimônio e as operações financeiras do Banco Master estão no centro de uma extensa investigação criminal.
O banco de Vorcaro foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 e tornou-se alvo de investigações sobre fraudes bilionárias, lavagem de dinheiro e outras operações financeiras suspeitas. Nesta semana, a Comissão de Valores Mobiliários condenou o próprio Master, Daniel Vorcaro, seu pai e outros envolvidos por operações fraudulentas realizadas entre 2018 e 2019. As multas aplicadas no processo somaram R$ 201,5 milhões.
O dinheiro administrado pelo grupo também alcançou recursos destinados ao pagamento de aposentadorias.
Auditorias do Ministério da Previdência deram origem a investigações sobre aplicações feitas por regimes próprios de previdência de estados e municípios em títulos do Master. Ao menos R$ 970 milhões desses recursos previdenciários estavam aplicados na instituição de Vorcaro.
A Polícia Federal já realizou operações para investigar possíveis irregularidades nesses investimentos, incluindo suspeitas de gestão temerária e corrupção relacionadas à aplicação de recursos previdenciários no banco.
O Master também está envolvido em outra investigação que atinge diretamente aposentados e pensionistas do INSS.
O Ministério Público Federal informou que aproximadamente 250 mil contratos de crédito consignado do Banco Master apresentam indícios de irregularidade ou fraude. O INSS chegou a considerar inválidos contratos e reteve repasses enquanto cobrava comprovação da regularidade das operações.
Posteriormente, o próprio INSS identificou novos indícios de fraude em contratos operados pelo banco, incluindo ausência de assinaturas, nomes duplicados e omissão de informações sobre juros. A defesa de Vorcaro afirma que o Master sempre observou as normas aplicáveis ao crédito consignado.
Isso não permite concluir que o dinheiro destinado a “Dark Horse” tenha saído dessas operações ou tenha origem criminosa. Até o momento, não há prova pública estabelecendo essa ligação direta.
Mas explica por que a alegação de que os recursos do filme eram simplesmente “privados” não encerra as investigações.
A questão examinada na frente conduzida por André Mendonça é justamente o caminho percorrido pelo dinheiro ligado a Vorcaro até chegar à produção.
Nesta quarta-feira (9), Mendonça homologou a delação de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, apontado como responsável por enviar recursos de Vorcaro ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, utilizado no financiamento de “Dark Horse”.
Com a retirada do sigilo determinada por Dino, as duas frentes ficam ainda mais expostas.
De um lado, a PF investiga se dinheiro público proveniente de emendas parlamentares foi desviado e alcançou empresas relacionadas ao filme. Do outro, investigadores procuram esclarecer a origem e o caminho do dinheiro ligado a Daniel Vorcaro utilizado para financiar a produção.
A Polícia Federal, agora com parte de suas apurações abertas ao público, tenta responder justamente de onde veio e por onde passou o dinheiro que chegou ao projeto.


